Canadá, de Richard Ford

Capa de Canadá de Richard Ford.

“[…] o mundo em geral não pensa que assaltantes de bancos podem ter filhos – embora um bocado deles os tenha. Mas a história dos filhos – que é a minha história e da minha irmã – cabe a nós ponderar, partilhar e julgar tal como a vemos.”

Dell Parsons tem 15 anos quando seus pais são presos por um assalto a banco nos EUA, em 1960. Com sua irmã gêmea, viram os pais sendo levados pela polícia, duas pessoas que nunca imaginariam ser capazes de cometer qualquer tipo de crime. Dell é filho de um militar da aeronáutica que veio do sul do país, sua mãe é filha de imigrantes judeus. Um casal improvável, mas que deu certo durante todos esses anos. Até o assalto.

Narrado por Dell já adulto, Canadá, de Richard Ford (Estação Liberdade, tradução de Mauro Pinheiro), é um relato sobre como a ação dos pais afetou para sempre a vida de seus filhos. Seu narrador e protagonista reavalia toda a vida, e a vida dos pais, a partir desse único acontecimento que marcou seu amadurecimento. Amadurecer, aliás, é um dos principais temas do romance.

Para um adolescente de 15 anos, Dell parece uma criança de 10. Há uma diferença enorme entre a personalidade dele e de sua irmã gêmea, Berner, acentuada desde o início do livro. Como filhos de militar, nunca tiveram um lugar fixo no mundo. As constantes mudanças não deixaram com que criassem laços de amizade ou que enxergassem qualquer parte dos EUA como “lar”. Com a saída do pai da aeronáutica, Dell tem a chance de criar esses laços pela primeira vez em Great Falls. Mas enquanto ele está todo animado com o início do ano letivo, planejando novos interesses extracurriculares, Berner está bem mais interessada em sair do lugar com seu namorado.

Essa diferença gritante de maturidade entre os dois faz com que nem pareçam ser gêmeos. Em muitas partes do livro, me forcei a lembrar que Dell é um adolescente, tamanha a inocência e ingenuidade do narrador. Ele é muito mais certinho, obediente e submisso do que a irmã, e justamente essas características fizeram ele seguir os planos de sua mãe após a prisão. Enquanto Berner coloca sua fuga em ação, Dell é arrastado para o Canadá.

Problemas financeiros decorrentes das tentativas de seu pai, Bev, de ganhar dinheiro são o estopim para o assalto. Na tentativa de entender o que levou seus pais a cometerem esse crime, Dell chega à conclusão de que a ideia de assaltar um banco sempre esteve na mente do pai. Como aquela coisa que todo mundo deveria fazer pelo menos uma vez na vida, para viver a experiência. O que mais o choca é como sua mãe, Neeva, tão soturna e correta, deixou que isso acontecesse – e, pior, participou da ação.

Praticamente metade de Canadá são tentativas de Dell de recontar o que aconteceu e explicar a atitude dos pais. Por conta disso, ele enumera cada detalhe, lembra cada acontecimento anterior ao assalto e posterior a ele. Isso também faz com que a narrativa tenha várias repetições, como se o narrador quisesse deixar bem claro todos esses acontecimentos foram mesmo bem contrários à visão infantil que ele tinha da família. O que achei um pouco cansativo em alguns momentos.

“Solidão, li isso em algum lugar, é como se achar numa longa fila, esperando chegar mais à frente, onde há a promessa de que algo bom acontecerá. Só que a fila nunca avança e outras pessoas continuam passando à sua frente, e o ponto onde você quer chegar vai ficando sempre mais longe, e aí você não acredita mais que esse lugar posse lhe oferecer alguma coisa.”

Após a prisão de Neeva e Bev, Dell é levado por uma amiga da mãe até uma cidade praticamente abandonada no Canadá, para fugir dos agentes sociais que o colocariam em um orfanato. A ideia é que o irmão dessa amiga, Arthur, cuide de Dell até ele completar 18 anos. É assim que ele começa a trabalhar no hotel de Arthur para pagar pela hospitalidade e ganhar algum dinheiro. O que Dell descobre aos poucos vivendo lá é que o próprio Arthur parou no Canadá fugindo de alguma coisa.

O Dell inocente que chega no Canadá vai aos poucos dando lugar a um Dell mais astuto. Apesar de ainda fazer tudo o que lhe pedem, de não repensar as ações, pelo menos ele começa a duvidar da índole de quem o rodeia. Ele perde a proteção de menino da família que tinha quando vivia em Great Falls, se vê sozinho e abandonado, sendo ele a única pessoa que pode protege-lo do mundo.

Porque o assalto ao banco perpetrado pelos pais não é o que de pior poderia acontece na sua vida. O assalto foi só o primeiro de uma sucessão de acontecimentos que tirariam Dell do curso até então seguro que ele tinha. Pegue um garoto amedrontado com o mundo, tire-o do convívio com sua família e o jogue num lugar desconhecido: se Dell não amadurecesse nessas circunstâncias, ele não teria sobrevivido para contar essa história.

Canadá é uma leitura que poderia ter me agradado muito mais se o narrador não fosse tão apegado aos detalhes – e se não ficasse tanto tempo recorrendo a eles de novo e de novo. Mas sem dúvida é uma trama com personagens bem construídas, um romance de formação onde se vê bem a evolução do protagonista. Mas no fundo, bem no fundo, não conversou tanto comigo quanto eu gostaria. “Ao longo desses anos, acabei entendendo que toda situação na qual seres humanos estão envolvidos pode ser revertida. Tudo o que me garantem que é verdade pode não ser. Todos os pilares da convicção sobre os quais o mundo se mantém podem ou não estar a ponto de explodir. A maioria das coisas não permanece do jeito que está por muito tempo. Conscientizar-me disso, porém, não fez de mim um cínico. Ser cínico é acreditar que o bem não é possível, e eu tenho certeza de que o bem é possível. Simplesmente, para mim, nada é garantido e tento me preparar para a mudança que não tardará.”


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