Chelsea Girls, de Eileen Myles

Capa de Chelsea Girls

Escritora, poeta, performer e jornalista, Eileen Myles é um dos principais nomes da poesia contemporânea norte-americana. Seu primeiro livro foi publicado em 1978, uma época em que a cena artística de Nova York, onde vivia, era bem frenética – alguém disse “Patti Smith”? Em 1994, Myles usou suas memórias para compor o romance Chelsea Girls, uma série de histórias que acompanha sua formação artística e suas desilusões amorosas. O livro ganhou uma nova edição em 2019 pela Todavia com tradução de Bruna Beber.

Impossível não fazer esse link entre Eileen Myles e Patti Smith, sendo que tanto Chelsea Girls quanto Só Garotos tratam da mesma época, da mesma cidade, e por vezes do mesmo lugar – o Hotel Chelsea. Mas diferente de Só garotos, que é um livro carregado de emoção e melancolia, esse romance é muito mais caótico e “vida louca”.

A palavra que melhor define Eileen Myles é o magnetismo. Mesmo sem ter contato com sua obra antes, ou até mesmo com a sua história, não demora para você ser fisgado pela narrativa atribulada da autora. Em um momento podemos estar num apartamento abafado de Nova York, em outro a caminho de Woodstock, em outro na cidade em que nasceu, em Massachusetts… É de um jeito bem despretensioso que Myles costura as histórias de sua vida.

Apesar desse jeitão solto, ela se leva – ou se levava – muito a sério. Constantemente ela se compara a não-poetas, se coloca em um lugar superior aos outros apenas porque ela é artista, e os outros não. É como se acreditasse merecer ganhar as coisas de mão beijada apenas porque é poeta. Esse é o ingrediente perfeito para tornar a autora uma pessoa desprezível, mas não é o que acontece. O “se levar a sério” parece ter muito mais a ver com sua inocência e crença no mundo da arte do que com um sentimento de superioridade. A poesia é a única coisa concreta em sua vida.

Sua vida em Nova York começou em 1974, para onde se mudou com o objetivo de se tornar poeta. Estar no meio da principal cena artística do país significava também estar no meio do caos da noite. Chelsea Girls é repleto de festas, bebidas e drogas, e além da escrita, eram essas as coisas que atraíam a autora. Muitos trechos do livro consistem em Eileen saindo e entrando de bares e casas noturnas, caindo de bêbada na casa de amigos, perambulando por aí. Esses são os trechos mais frenéticos do romance, onde os acontecimentos se sucedem rapidamente e os pensamentos de Eileen atravessam as ações.

E como toda boa artista dos anos 1970, Eileen não tinha um puto no bolso. Dividia moradia com namoradas ou amigas, gastava seu dinheiro com drogas e festas, cigarro e bebidas. Pedia dinheiro emprestado para todo mundo, se enfiava na casa das pessoas para comer. São momentos praticamente de desespero que ela passa quando percebe que não tem comida em casa e dinheiro no bolso, mas consegue pensar apenas no cigarro que está acabando. São esses momentos, justamente, que parecem ser os mais felizes na vida da autora. Porque ela está livre, ela pode fazer o que quiser, ela está vivendo da sua arte.

Eileen Myles cresceu numa família simples, estudou em uma escola católica, foi filha de um homem alcóolatra. Ela poderia ter se saído uma mulher reprimida como muitas mulheres da época eram – e ainda hoje são. Mas mesmo nesse ambiente regrado e dramático, Myles se destaca como alguém com convicções firmes e desejos claros.

“Eu andava com uma edição esfarrapada de Crime e castigo pra cima e pra baixo. Inclusive fui encontrada desmaiada no sofá da casa onde passei aquele verão com Crime e castigo jogado aos meus pés. Se eu tivesse conseguido terminar aquele livro naquele verão minha vida não teria sido um completo desperdício.”

Há muitos pontos sensíveis em Chelsea Girls que Myles trata com naturalidade. Como o próprio alcoolismo do pai, que não é descrito só como algo trágico, mas também como momentos em que ela se via muito ligada a ele. É como se estivesse falando de uma ida à padaria que Myles conta como ela e seu irmão chegavam a ficar horas dentro do carro do pai enquanto ele bebia no bar. E como os dois, tão jovens, sentiam certa responsabilidade sobre ele, como se fossem eles quem estivessem cuidando de uma criança.  

É com naturalidade também que a autora narra a violência. Ao descrever sua adolescência e primeiras experiências sexuais, não é raro ela relatar um estupro. Era a época ainda em que as garotas legais tinham que deixar os garotos legais fazerem o que quisessem com elas. Eileen não era diferente. Mas isso não significa que ela passava pano para a violência, porque todas acabavam sofrendo com isso, inclusive ela.

Um desses relatos é sobre uma ex-colega de escola que foi vítima de um estupro coletivo e reencontrou na vida adulta. Myles sente uma conexão e uma paixão fortes por essa mulher por conta das dores que carrega. Uma mulher que, na adolescência, sofreu violência, humilhação, isolamento, mas que agora leva uma vida “normal”. Essa paixão de Myles por ela não é uma coisa ligada a sexo. É uma coisa protetora, como se Eileen quisesse protegê-la das coisas que ela sofreu no passado.

Chelsea Girls mistura vários estilos narrativos a cada história. Tem vezes que Eileen Myles fala em primeira pessoa, outras em segunda. Tem vezes que ela faz um blocão de texto enorme e mistura a ação real com a ação que acontece apenas dentro de sua cabeça. Algumas vezes parece falar com alguém, outras apenas consigo mesma. Alguns capítulos são carregados de diálogos, outros não. E esses ritmos diferentes se encaixam com o que está sendo contado. As bebedeiras e festas são bem mais caóticos do que as lembranças de infância. A maneira com que narra sua vida profissional é bem mais sóbria do que os relatos dramáticos de seus casos e namoros.

Mesmo para quem nunca teve contato com a obra de Eileen Myles, é uma ótima leitura sobre a formação de uma artista. De como essa jovem poeta sem dinheiro consegue sobreviver numa das maiores cidades do mundo, sobreviver à violência, aos traumas de infância, às drogas. Não é nada de livro de superação não, são só boas histórias de um momento que muita gente que almeja ser artista gostaria de ter vivido.

“Eu nunca bati em ninguém, mas adoraria matar muitas pessoas.”


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Leituras relacionadas:
Só garotos, de Patti Smith
Conversas entre amigos, de Sally Rooney

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