Matadouro-cinco, de Kurt Vonnegut

Capa de Matadouro-cinco

“Quando vê um cadáver, um tralfamadoriano pensa apenas que a pessoa morta não está em boas condições naquele momento específico, mas que em diversos outros momentos essa mesma pessoa está muito bem. Agora, quando fico sabendo que alguém morreu, dou de ombros e digo a mesma coisa que os tralfamadorianos dizem sobre os mortos, que é o seguinte: ‘é assim mesmo’.”

Billy Pilgrim tem vinte e poucos anos quando é enviado para a Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Estudante de optometria da cidade de Illium, é um jovem pacato que acabou caindo no meio de uma guerra em que nunca quis estar. Sua vontade de sobreviver ao conflito é praticamente nula, mas de alguma forma ele sobreviveu. Nos últimos anos da guerra, é preso em Dresden, onde acaba presenciando uma tragédia sem precedentes: o bombardeio de uma cidade inteira.

Pilgrim é o protagonista de Matadouro-cinco, romance mais celebrado de Kurt Vonnegut (Intrínseca, tradução de Daniel Pellizzari). Fruto da própria experiência de Vonnegut na Guerra, é um livro que expõe a capacidade destrutiva do homem. Mas como o próprio autor escreve no primeiro capítulo, ao narrar seu desejo de escrever sua maior obra, Matadouro-cinco é “tão curto, tão confuso, tão desarmônico, Sam, porque nada de inteligente pode ser dito sobre um massacre. Todos devem estar mortos, sem nunca mais dizer ou querer nada”.

Como todo livro de Vonnegut, essa não é uma narrativa simples, linear e realista. Por mais que a realidade seja a base e esteja bem presente, o autor toma toda a liberdade fantástica que precisa para narrar a história de Billy Pilgrim. No caso, isso envolve abduções alienígenas e viagens no tempo.

Quando o narrador apresenta Pilgrim para o leitor, ele já é um senhor de 60 e poucos anos, viúvo e com filhos adultos. Ele escreve um artigo para um jornal revelando como foi abduzido e levado até Tralfamadore, um planeta de outra galáxia onde viveu anos em um zoológico junto com outra humana, sendo exposto aos tralfamadorianos e servindo como cobaia para seus estudos. Além disso, Pilgrim vivencia saltos ocasionais no tempo, podendo passar em segundos de uma prisão em Dresden nos anos 1940 para um hospital onde cuida da mãe anos depois. Por influencia de Tralfamadore e por mistérios próprios, Pilgrim não vive uma cronologia linear.

É assim que o protagonista acaba desenvolvendo o pensamento que permeará o livro todo: é assim mesmo. Toda vez que a morte é mencionada, a menção é seguida pela frase “é assim mesmo”. Como se a tragédia fosse inevitável – como a morte é inevitável. Mas ao mesmo tempo em que tudo “é assim mesmo”, Pilgrim não encara a morte como um fim. Como diz o trecho que abre essa resenha, os tralfamadorianos têm uma visão bem peculiar da morte, onde o indivíduo morto está apenas numa fase ruim naquele momento, mas nos momentos anteriores ele está muito bem, obrigado. Porque não existe tempo linear, existe apenas tudo acontecendo ao mesmo tempo, para sempre.

A narrativa de Vonnegut é curta e seca, porque para narrar a guerra não se pode ter floreios. Mas claro que o humor existe mesmo nos momentos mais trágicos. Aquele humor melancólico, doloroso, porque não há graça alguma em andar na neve sem sapatos e sob a mira de soldados alemães. Só que a maneira de Pilgrim pensar – e a maneira de Vonnegut narrar – arrancam vários sorrisos.

Os saltos temporais de Pilgrim podem muito bem não ser algo mágico, mas um escape para o sofrimento. Os momentos em que ele se vê transportado da Guerra para o futuro – ou para o passado – surgem quando ele está mais cansado, debilitado e disposto a sucumbir. Como se pegasse no sono e sonhasse com coisas que aconteceram e que ainda vão acontecer. Em vários momentos outras personagens, prisioneiros como Pilgrim, falam o quanto se sentem desconfortáveis perto dele, pois ele apaga, começa a se mexer demais e falar alto enquanto “dorme”. Fisicamente ele está sempre presente, psiquicamente ele foi para outro lugar – seja na Terra ou em Tralfamadore.

No prefácio da edição brasileira, Antônio Xerxenesky escreve: “Inspirado em uma frase de Louis-Ferdinand Céline, Vonnegut fala da guerra como uma dança com a morte. O autor passou pelo inferno, bailou uma valsa com a aniquilação e voltou para nos contar a história. O seu trauma pessoal serve de matéria-prima literária e que pulsa intensamente sob as camadas de humor desvairado.”

E é bem isso. É assim mesmo. O escape de Pilgrim é viajar no tempo e no espaço, é ignorar a realidade e se refugiar na fantasia. O escape de Vonnegut é colocar tudo isso no papel.


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