O duplo, Fiódor Dostoiévski

Capa de O duplo

“Faltava pouco para as oito da manhã quando o conselheiro titular Yákov Pietróvitch Golyádkin despertou de um longo sono, bocejou, espreguiçou-se e por fim abriu inteiramente os olhos. Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo é de fato real ou uma continuação de seus desordenados devaneios.”

Assim acorda Golyádkin no dia que irá marcar a derrocada da sua vida. Segundo romance de Fiódor Dostoiévski, publicado apenas duas semanas após o lançamento de Gente pobre, O duplo (Editora 34, tradução de Paulo Bezerra) não agradou tanto os russos quanto o primeiro livro do autor. A estranheza que a história apresenta é um dos grandes motivos dessa recepção morna, mas talvez o público só não estivesse tão preparado para algo assim, digamos, diferente.

Funcionário menor dentro da máquina burocrática da Rússia, Golyádkin passa esse dia se preparando para um jantar na casa do chefe do departamento público onde trabalha. Com dinheiro sobrando, se emperequeta todo, aluga uma carruagem e parte em passeio por São Petersburgo acompanhado de seu criado, Pietruchka. Não sem antes dar uma passada no consultório médico e confiar ao doutor seus medos: a falta de jeito para falar que lhe atormenta e atrapalha a vida. O remédio, segundo o doutor, é sair, se divertir, se entreter. Coisa que Golyádkin pretende fazer nessa noite.

“Nosso herói”, como Dostoiévski constantemente se refere ao protagonista, é um herói trágico. Barrado da entrada do baile, ele consegue entrar de penetra e se aproximar de Clara Olsúfievna, a aniversariante por quem é apaixonado. Mas a falta de jeito, claro, o impede de conseguir travar qualquer diálogo coerente com a moça, e depois de uma tentativa brusca de tirá-la para dançar, Golyádkin é afastado dela e expulso da casa – na frente de toda a sociedade de São Petersburgo, de todos os funcionários importantes de seu departamento. A humilhação toma conta do protagonista, “nesse momento o senhor Golyádkin não só queria fugir de si mesmo, mas deixar-se destruir completamente, não ser, virar pó”. Ao contrário desse desejo, porém, ele se duplica.

É aí que mora toda a estranheza de O duplo. O narrador se divide em dois, ou melhor, Golyádkin fantasia que dele sai um outro homem, alguém idêntico a ele, com o mesmo rosto e as mesmas roupas, uma pessoa que se dirige para o mesmo lugar para onde ele vai – sua casa. No dia seguinte, quando toma a decisão de aparecer no trabalho apesar de toda a vergonha, é o segundo Golyádkin, seu duplo, quem ele encontra no departamento. Um funcionário novo, abaixo de sua posição, com quem terá que dividir o nome e a mesa. Apesar de nervoso e confuso, o “herói” acolhe esse duplo, oferece sua casa para que ele descanse após o trabalho, ouve sua história e se compadece com ela.

Essa amizade dura pouco, mais especificamente até o momento em que o protagonista começa a notar os planos de seu duplo. O segundo Golyádkin é bem mais comunicativo e desinibido do que seu original, e é justamente por isso que ele consegue bajular e agradar aos seus superiores no departamento. Coisas que o original tem dificuldade em externar e fazer, a cópia faz com maestria, e em pouco tempo se coloca dentro desse círculo até então fechado para o protagonista.

O duplo não é tão tranquilo de ler quanto Humilhados e ofendidos, isso porque a narrativa emula toda a confusão de pensamentos e atitudes de Golyádkin. Sua maneira truncada de falar, pontuada constantemente pelos nomes de seus interlocutores, é uma das características mais fortes do livro – e irritantes, mas o objetivo é mesmo que você sinta o que é tentar conversar com o protagonista, entender onde mora o seu problema e porque pouquíssima gente tem paciência com ele. O mesmo para seus pensamentos, que ocupam parágrafos longuíssimos e cheios de contradições. Em um minuto ele tem uma ideia, desiste dela, e no seguinte volta atrás e mete, novamente, os pés pelas mãos.

Dostoiévski trabalha com personagens miseráveis, humilhadas, pobres, com poucas perspectivas de uma vida melhor. Golyádkin é uma personagem que, talvez, poderia ascender na vida, não fosse sua loucura e mediocridade como pessoa. Seu duplo nada mais é do que uma projeção do que ele gostaria de ser: desenvolto, bonito, falante, persuasivo. E é justamente esse desejo de ser diferente – retratado pelo seu duplo – que o leva para mais fundo nesse poço e o afoga em paranóias.

O próprio protagonista tenta constantemente enganar o leitor, fazendo parecer que tudo o que acontece são artimanhas de seus inimigos para difamá-lo. Mas esses inimigos existem apenas na fantasia, já que o próprio mal consegue entabular uma conversa com esses homens. Seria demais pensar que todos se esforçariam para prejudicar a vida de alguém que, para eles, é tão insignificante. No fundo, o máximo que eles sentem por Golyádkin é pena, algo que fica claro no fim do livro.

O duplo é um livro bem perturbador se você se deixar envolver por Golyádkin. O desespero que ele desenvolve só cresce a cada página, você sabe que qualquer esperança que ele possa alimentar é uma fantasia ingênua, porque não há outra saída para ele além de um fim trágico. Comparando com Humilhados e ofendidos, O duplo está longe de ser um novelão. Está mais para um terror psicológico.

“Talvez, se alguém quisesse mesmo, por exemplo, se quisesse transformar forçosamente o senhor Golyádkin num trapo velho, o transformaria mesmo, transformaria sem resistência e impunemente (o próprio senhor Golyádkin já o sentira outra vez), e o resultado seria um trapo velho e não Golyádkin – seria um trapo sujo, mas esse trapo não seria um trapo simples, esse trapo teria ânimo e sentimentos, e mesmo que fosse um amor próprio humilde e uns sentimentos humildes e escondidos bem fundo nas dobras sujas desse trapo velho, ainda assim seriam sentimentos…”


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui O duplo, de Fiódor Dostoiévski.

Leituras relacionadas:
Humilhados e ofendidos, de Fiódor Dostoiévski

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