Calibã e a bruxa, de Silvia Federici

Capa de Calibã e a bruxa

Os contos de fadas e filmes de terror estabeleceram a imagem da bruxa em nosso imaginário. Mulheres velhas, narigudas, com verrugas, que andam em vassouras e participam de cultos ao diabo em volta de fogueiras. Comem criancinhas e realizam outros sacrifícios. Jogam pragas e fazem feitiços. Crescemos com essa concepção de bruxa, e ela é, talvez, ainda a primeira coisa que vem na nossa mente quando ouvimos essa palavra.

A leitura de Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, altera totalmente essa visão. O livro, traduzido pelo Coletivo Sycorax (você pode baixar gratuitamente o pdf aqui), e publicado pela Editora Elefante, é uma investigação de como a caça as bruxas foi uma das ferramentas de opressão à mulher durante o estabelecimento do capitalismo.

Para fazer essa investigação, a autora deve explicar como se deu a transição entre o feudalismo para o capitalismo, e explicar o que estava em jogo na Idade Média. “Observando o desenvolvimento capitalista do ponto de vista dos não assalariados”, escreve na introdução, “ – que trabalhavam nas cozinhas, nos campos e nas plantações, fora das relações contratuais, cuja exploração foi naturalizada, creditada a uma inferioridade natural – Calibã e a bruxa desmistifica a natureza democrática da sociedade capitalista e a possibilidade de qualquer ‘troca igualitária’ dentro do capitalismo. Seu argumento é o de que o compromisso com o barateamento do custo da produção do trabalho, ao longo do desenvolvimento capitalista, exige o uso da máxima violência e da guerra contra as mulheres, que são sujeito primário dessa produção”.

O maior papel da mulher dentro do capitalismo, segundo Federici, é a produção de mão de obra. Se no feudalismo as mulheres trabalhavam no campo, podendo até serem independentes dos homens e terem seu próprio espaço de cultivo, essa estrutura não era bem vista no capitalismo, onde a mulher deveria estar à serviço da produção de novos trabalhadores – e à serviço dos homens. A autora faz um bom resumo de como essa transição de modelo econômico afetou as mulheres: pessoas perdiam suas terras para os grandes latifundiários, eram jogadas à pobreza, não conseguiam produzir o mínimo para o próprio sustento e nem produzir o bastante para pagar os impostos aos governos. Essa mudança gerou grande abalo social, protestos, resistência, e para Federici, esse clima de instabilidade foi fundamental para que o medo e as superstições se espalhassem pela sociedade. E foi assim que o movimento contra as bruxas foi crescendo.

A perseguição às bruxas também está ligada ao movimento dos hereges, que ao contrário do que o imaginário popular também diz, não eram adoradores do diabo, e sim pessoas favoráveis às reformas da igreja e da sociedade, grupos em que mulheres poderiam também ter posições de poder. Para perseguir esses grupos que iam contra os abusos da Igreja, obviamente que os taxaram como demoníacos, para justificar a perseguição. O mesmo, basicamente, foi feito com as mulheres que iam contra o que o capitalismo queria delas.

Para isso dar certo, as mulheres também deveriam ser desumanizadas. Se em algumas culturas as mulheres tinham posição de liderança e condições de se manterem sozinhas, no capitalismo elas perderam qualquer direito. Uma mulher solteira era mal vista, uma mulher casada tinha todos os seus ganhos – caso ganhasse alguma coisa – controlados pelos maridos. Ela não tinha liberdade para ir e vir, não tinha liberdade para viver sozinha – se tentasse, seria presa. E, obviamente, não tinha liberdade sobre o próprio corpo. Qualquer mulher que abortasse, que ajudasse em um aborto, que receitasse métodos contraceptivos, era taxada como bruxa. E perseguida. Porque a mulher, nesse modelo econômico, tem que procriar. É esse o papel dela. Até o estupro foi usado como arma oficial para a “domesticação” da mulher:

“[…] as autoridades municipais praticamente descriminalizaram o estupro nos casos em que as vítimas eram mulheres de classe baixa. Na Veneza do século XIV, o estupro de mulheres proletárias solteiras raramente tinha como consequência algo além de um puxão de orelhas, até mesmo nos casos frequentes de ataque em grupo. O mesmo ocorria na maioria das cidades francesas. Nelas, o estupro coletivo de mulheres proletárias se tornou uma prática comum, que se realizava aberta e ruidosamente durante a noite, em grupos de dois a quinze que invadiam as casas ou arrastavam as vítimas pelas ruas, sem a menor intenção de se esconder ou dissimular.”

Silvia Federici desenha bem como tudo isso foi se desenvolvendo. Começa com a perda dos direitos sobre o trabalho, escala para a perda de direitos sobre o corpo, e quem é contra isso é perseguido, julgado (sem provas) e morto. Depois de dar esse panorama geral sobre a sociedade da época e das mudanças que ocorreram, Federici se concentra, então, na caça às bruxas.

Mudanças sociais e grandes tragédias foram fundamentais para o controle da mulher. Com a população diminuindo por conta das pestes e a necessidade de mão de obra crescendo, as mulheres tinham que servir como procriadoras. Segundo a autora, “[…] a principal iniciativa do Estado com o fim de restaurar a proporção populacional desejada foi lançar uma guerra contra as mulheres, claramente orientada a quebrar o controle que elas haviam exercido sobre seus corpos e sua reprodução. […] essa guerra foi travada principalmente por meio da caça às bruxas, que literalmente demonizou qualquer forma de controle da natalidade e de sexualidade não procriativa, ao mesmo tempo que acusava as mulheres de sacrificar crianças para o demônio.”

Isso tudo só foi possível porque, em momentos de instabilidade, a população aceita qualquer desculpa para seus infortúnios. Falta de dinheiro, plantações morrendo, doenças: as lendas criadas e espalhadas sobre as bruxas serviram de “desculpa” para tudo o que de ruim acontecia em uma vila ou cidade, e assim a população se voltava contra essas mulheres e permitiam que fossem presas, torturadas e mortas. O imaginário estava infestado de medo e superstições. E a arte também contribuiu para que isso ocorresse: histórias de bruxas, opiniões de filósofos e pensadores, a literatura, a música, o teatro serviram também para espalhar o medo entre a população, um medo que justificasse essa violência contra as mulheres.

Uma coisa interessante que Federici mostra nesse livro é que a caça às bruxas não foi algo organizado homogeneamente. Cada país ou região foi desenvolvendo essa perseguição a seus modos, iniciando e terminando a caça às bruxas em períodos diferentes. Isso fazia com que a perseguição às mulheres fosse mais branda ou mais violenta, dependendo da região.

Eu não sou grande conhecedora da teoria marxista, mas isso não é um impedimento para a leitura de Calibã e a bruxa. Federici usa a teoria como base de seu estudo, mas também é bem crítica a Marx ao apontar como ele enxergou o capitalismo apenas sob o viés masculino, excluindo a mulher desse processo e não se atentando para as ameaças contra ela. Porque se os homens, no capitalismo, eram explorados, com grandes jornadas de trabalho, condições insalubres, salário baixo, totalmente à mercê do patrão. As mulheres sofriam essa exploração toda também dentro de casa. O trabalho da mulher foi diminuído a ponto de não ser considerado trabalho digno de remuneração – e essa visão permanece até hoje.

Por ser um livro teórico, a leitura pode ser um desafio para quem não é acostumado com essa linguagem. Por isso demorei um pouco para começar a ler, com medo de que seria muito “cabeçudo” pra mim. Mas assim que comecei, tudo fluiu muito bem. O que Federici narra sobre a Idade Média é bem relacionado com o que ainda acontece hoje com as mulheres. É como se a caça às bruxas nunca tivesse acabado. Nós só não somos mais presas e mortas sob a acusação de bruxaria, mas ainda somos controladas. A visão que se estabeleceu na Idade Média sobre as mulheres está viva, e atuante, ainda hoje.

Por isso a leitura de Calibã e a bruxa é tão necessária. Para entender como chegamos até aqui e como ainda somos ameaçadas com uma perseguição às escuras, uma perseguição cultural calcada nessa visão de que a mulher não pode ter independência nem controle sobre o próprio corpo. Quem se interessa por essa discussão precisa ler esse livro.

“Se o capitalismo foi capaz de reproduzir-se, isso se deve somente à rede de desigualdades que foi construída no corpo do proletariado mundial e à sua capacidade de globalizar a exploração. Esse processo segue desenvolvendo-se diante dos nossos olhos, tal como se deu ao longo dos últimos quinhentos anos.”


Ficou afim de ler? Encontre aqui Calibã e a bruxa, de Silvia Federici. O PDF do livro também está disponível para download no site do Coletivo Sycorax.

Leituras relacionadas: 
Belas Maldições, de Neil Gaiman e Terry Pratchett (sim, só porque tem bruxaria, rs)

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