História da bruxaria, de Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander

Capa de História da bruxaria

História da bruxaria (Goya, tradução de Álvaro Cabral e William Lagos), de Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander, é um apanhado geral da trajetória das bruxas pela história – e, em parte, pelo mundo. Lançado originalmente nos anos 1980, o historiador Jeffrey B. Russell relançou a obra com novos capítulos em 2007, com colaboração do jornalista Brooks Alexander.

A proposta do livro é traçar as origens do que chamamos de bruxaria, partindo das diferenciações semânticas, passando pela caça às bruxas e chegando no revival da bruxaria nos tempos atuais. Antes mesmo de entrar nas suas origens, Russell explica as diferenças entre os termos que se referem àqueles que praticam o que se diz ser bruxaria. Enquanto wizard (mago) realmente deriva de uma palavra que significa “sábio”, witch (bruxa) não tem origem celta como muitos acreditam hoje, mas vem do inglês antigo, wiccian, que significa “jogar um feitiço”. “A explicação de que witchcraft [‘bruxaria’] significa ‘a arte dos sábios’ (craft of the wise) é inteiramente falsa”, escreve Russell. O historiador faz toda uma diferenciação dos termos como bruxo, curandeiro, mago, feiticeiro etc. para responder à pergunta: O que é uma bruxa?

As bruxas das histórias fantásticas, como as de A Branca de Neve e O mágico de Oz, estão bem longe das bruxas que os autores abordam no livro. “De fato, a bruxaria é considerada como uma religião de pleno direito por numerosas instituições”, explica. O maior erro, segundo Russell, ao se falar sobre as bruxas é tratá-las como algo fantasioso. As bruxas existem, mas não nos moldes que a ficção as colocou.

Na primeira parte do livro, os autores se concentram na bruxaria histórica, da origem da feitiçaria e das bruxas no mundo antigo, sua relação com a religião e suas raízes europeias. É nessa parte também que eles abordam a caça às bruxas, elencando alguns casos específicos de perseguição principalmente às mulheres, as principais acusadas de bruxaria durante a Idade Média. Não é uma abordagem profunda e completa, mais um apanhado de exemplos que ilustram como se deu essa perseguição. Como antes de ler História da bruxaria eu havia lido Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, não pude deixar de comparar essas duas abordagens.

Enquanto Federici se concentra na opressão feminina e na caça às bruxas como arma para submeter a mulher à máquina do capitalismo, Russell e Alexander ficam mais nas anedotas. Óbvio que a proposta dos dois livros é bem diferente, mas o que os autores narram sobre esse episódio está bem alinhado: quando as mudanças sociais causam grandes rupturas na vida comum e as pessoas precisam de algo para culpar, a superstição de que tudo o que de ruim acontece é culpa das bruxas se espalha e ganha força. E assim atos tenebrosos de perseguição, tortura e morte ganham a validação da população.

É interessante como eles mostram que, no caso da Grã-Bretanha, com uma cultura mais “aberta” ao mágico, a caça às bruxas foi bem mais branda do que no resto da Europa. Claro que prisões e mortes aconteceram, mas os julgamentos eram bem mais “justos” e não era raro uma pessoa acusada de bruxaria ser inocentada por falta de provas. Ao falar da Grã-Bretanha, os autores também narram brevemente como a bruxaria se desenvolveu nas colônias britânicas. Abordando o famoso julgamento das Bruxas de Salem, eles mostram como mesmo naquela época muitos viram o caso com atrocidade. Os tempos eram obscuros, mas tinha alguma sanidade ali.

Na segunda parte do livro, Russell e Alexander partem para a bruxaria moderna, contando como ela se reergueu depois de entrar em declínio com a caça às bruxas. A ligação da bruxaria com o paganismo se fortalece com esse ressurgimento, quando precursores famosos espalham a bruxaria como uma religião. A cultura pop também tem participação nesse retorno da bruxaria, como Jovens Bruxas, dos anos 1990, que apresentou uma nova abordagem das bruxas – não como velhas narigudas que andam de vassoura, mas como jovens bonitas que flertam com o oculto.

Dando uma passeada rápida pelo Instagram você vê como a bruxaria está novamente em alta. Simpatias, rituais de cura alternativa, cristais, cartas e afins: não enxergamos isso hoje como “coisa do diabo” – ou melhor, a recepção é mais amigável. A bruxaria é tomada como uma religião, ou como uma forma de ver o mundo, uma forma de se guiar nele. Nada de rituais satânicos ou flerte com o diabo – na real, o diabo é bem de boas.

História da bruxaria é um bom livro para quem se interessa pelo assunto e quer saber um pouco mais. Não é aquele estudo aprofundado sobre o tema, pois a proposta é mesmo fazer um resumo das suas origens, seu desenvolvimento e sua sobrevivência nos tempos atuais. Para os curiosos, é uma ótima leitura.


Ficou afim de ler? Encontre aqui História da bruxaria, de Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander.

Leituras relacionadas:
Calibã e a bruxa, de Silvia Federici
Belas maldições, de Neil Gaiman e Terry Pratchett

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