Contato, de Carl Sagan

Capa de Contato Carl Sagan

Existe uma coisa com histórias de vida inteligente fora da Terra retratarem uma possível ameaça, ou naves gigantescas entrando no nosso espaço aéreo. Histórias bem cinematográficas, com imagens impactantes, sejam elas descritas em um livro ou criadas com grandes efeitos especiais nos filmes. Os “visitantes” podem ser ameaçadores e quererem destruir o mundo e escravizar os humanos. Ou podem ser seres tão confusos quanto a gente, que apenas querem se comunicar, mas não sabem como. Essas histórias mexem com nossos medos e esperanças, nos colocam naquele lugar de pensar: o que eu faria se isso fosse verdade?

Lá em 1985, Carl Sagan pensou uma história que explora essa pergunta. Só que, ao invés de abordar nossa relação com extraterrestes por um viés pessoal, ou até heroico, ele o fez por um viés social e científico. O que realmente aconteceria caso uma civilização desconhecida enviasse uma mensagem para a gente? Como os cientistas, o governo, a humanidade reagiria a isso? Contato (Companhia das Letras, tradução de Donaldson M. Garschagen), seu único livro de ficção, é uma resposta a essa questão.

Ellie Arroway é uma radioastrônoma que dedica a sua carreira à busca de sinais de que não estamos sozinhos no universo. Desde pequena ela foi curiosa e se interessou pela comunicação, mas mais pelo lado técnico da coisa, desmontando e montando rádios, captando sinais vindos de lugares longe de sua casa nos EUA. Seu pai foi quem sempre a incentivou a olhar além, para o céu, por onde essas ondas se propagam. E esse incentivo continuou dentro dela mesmo depois da morte do pai.

Ellie é diretora do Projeto Argus, que utiliza radiotelescópios no Novo México para detectar sinais enviados do espaço profundo. Depois de quatro anos de pesquisa ininterrupta, com vários alarmes falsos, nenhuma evidência de comunicação extraterrestre foi detectada e o projeto está ameaçado. Até que sinais incomuns começam a vir da constelação de Vega, há 25 anos-luz da Terra.

Sagan é bem metódico em sua narrativa, empregando os conceitos do método científico no desenrolar dos fatos. O sinal é captado, mas antes de bater o martelo sobre a sua autenticidade, diversos testes devem ser feitos para confirmar que ele não foi fruto de algum tipo de interferência humana. E esse sinal, por si próprio, é algo que apela muito para a ciência e o conhecimento. Numa primeira camada, ele contém uma sequência de números primos, o que mostra que há alguma inteligência por trás da mensagem – e a matemática é a linguagem universal que todos devem conhecer. Atrás dessa sequência de números, os cientistas descobrem uma outra camada de mensagem, que consiste em uma transmissão da abertura das Olimpíadas de 1944, o discurso de Hitler, uma das primeiras transmissões televisivas já feitas. Imagina o susto que é ver a cara e ouvir a voz de Hitler em um contexto desses. Mas tudo não passa de outra maneira de chamar a atenção, de mostrar que durante esse tempo tínhamos sido notados por uma outra civilização.

O que importa mesmo está em outra camada de onda, mais profunda, que esconde o que pensam ser um manual para a construção de alguma coisa, indicando materiais que deveriam ser usados, coisas que sequer existiam na Terra. Milhares e milhares de páginas com orientações em uma linguagem estranha que deve ser decifrada. É a decodificação dessa mensagem e a construção da máquina descrita nesse manual que vai ocupar a maior parte de Contato.

Até agora parece que tudo é muito científico, técnico, mas essa não é a principal característica do livro. Enquanto Ellie e seus colegas tentam desvendar a mensagem, há todo um movimento acontecendo em volta deles que engloba pessoas das mais diversas esferas. O governo, claro, é uma das entidades que logo se coloca no projeto, levantando objeções e preocupações quanto a segurança dos EUA. Líderes religiosos utilizam a mensagem para pregar a volta de Deus ou o fim do mundo. Cultos em volta da mensagem surgem, teorias conspiratórias sobre seu objetivo são criadas, e no meio disso tudo Ellie tem que manter a sanidade e tentar explicar para o mundo todo o que está acontecendo, quais serão as implicações disso no nosso futuro.

Nessa história criada por Sagan as mulheres têm um papel protagonista. Não só Ellie é uma das pessoas responsáveis por todo o projeto que envolve a mensagem – por ser quem a detectou primeiro –, mas a própria presidente dos EUA é uma mulher. Sagan não quis escrever apenas uma história sobre um futuro próximo que falasse de vida inteligente extraterrestre, ele também procurou colocar as mulheres em uma posição muito mais importante do que elas tinham lá nos anos 1980. O que é uma atitude e tanto. Mas mesmo assim, há alguns vícios de linguagem e de contextualização que, lendo hoje, parecem meio ultrapassados – como a atenção excessiva que o narrador dá à aparência da protagonista. Mas isso pode ser facilmente ignorado durante a leitura. Sagan é certeiro em relatar como o meio científico, o governo e a sociedade em si são machistas ao questionarem as descobertas e o trabalho de uma mulher.

“Ellie tinha de lutar contra a tendência a formar uma personalidade demasiado agressiva ou tornar-se uma misantropa. Em dado momento, percebeu a situação estranha. Misantropo é a pessoa que detesta todas as demais, e não apenas os homens. E decerto havia uma palavra para designar uma pessoa que não gosta de mulheres: misógino. No entanto, os lexicógrafos, todos homens, haviam deixado de criar uma palavra que designasse a aversão aos homens. Quase todos eles eram homens, pensou ela, e tinham sido incapazes de imaginar que houvesse necessidade dessa palavra.”

Além de Contato colocar a mulher nesse papel de protagonista dentro da ciência, o livro fala muito sobre solidariedade e cooperação. A troca de informações e a união entre as nações é fundamental para colocar a construção da máquina em curso. Ellie e outros cientistas que pensam como ela, são sempre muito claros ao defender o compartilhamento de conhecimento com cientistas de outros países – enquanto o exército norte-americano continua a querer cuidar apenas do próprio umbigo, em nome da “soberania”. A própria mensagem, em si, é o compartilhamento de algum tipo de conhecimento, enviada por sabe-se lá quem para os humanos. Então Sagan bate bastante nessa tecla de que a cooperação é quem vai levar a humanidade adiante, vai fazê-la evoluir.

Essa visão mais realista de algo tão fantasiado quanto a vida extraterrestre também é carregada pelas emoções das personagens, principalmente de Ellie. Ela é extremamente dedicada ao trabalho, enquanto a vida pessoal fica em segundo plano – a mãe doente, com quem mal fala, os embates com o padrasto, as saudades do pai. Cientistas são humanos como qualquer outra pessoa, e Sagan sempre coloca, mesmo nos seus livros de não-ficção, algum ingrediente emocional em seu texto. Isso faz com que a história não fique tão técnica, truncada – embora a linguagem científica esteja bem evidente no livro, o que até causa algumas risadas pela forma meio “robótica” com que alguns assuntos comuns são tratados. Mas no geral, ler Sagan é sempre essa mistura de emoção e razão. Ele sabe unir as duas coisas muito bem.

“Esta é a primeira vez que dispomos da possibilidade de procurar inteligência extraterrestre. Você construiu o detector capaz de procurar civilizações nos planetas de milhões de outras estrelas. Ninguém está garantindo sucesso. Mas você é capaz de imaginar alguma questão mais importante do que essa? Imagine que eles estejam lá, enviando sinais para nós, e que ninguém na Terra esteja escutando. Isso seria uma brincadeira de mau gosto, uma coisa grotesca. Você não teria vergonha da nossa civilização se, sendo capazes de prestar atenção, nós não nos dispuséssemos a isso?”

Há também uma questão de fé abordada no livro. Não só a fé religiosa, mas também a fé na ciência, em fazer o que se considera certo. Considero o desfecho de Contato bem planejado, porque o que ele faz é justamente aproximar Ellie de pensamentos antes distantes dela. Há várias passagens da história em que ela entra em embates com líderes religiosos, defendendo a ciência do que ela considera ser uma fantasia criada pelos homens. Mas a própria experiência que vive durante esse projeto é algo difícil de descrever, algo próximo do divino. E tem também esse desfecho clássico de que estamos olhando para longe afim de entender melhor nós mesmos. Os radiotelescópios estão apontados para outras galáxias. Mas fazemos isso justamente para conhecer a Terra.

Contato é um dos meus livros favoritos de ficção científica, não só por ser uma fã declarada de Carl Sagan, mas porque é um livro que consegue ser bem pé no chão ao tratar de um assunto que rende tantas teorias e histórias fantásticas. Durante a leitura, você se pega pensando diversas vezes: “sim, é assim que aconteceria”. Porque grandes descobertas não precisam vir acompanhadas de muita pirotecnia. O conhecimento não é instantâneo. E podemos estar errados por muito tempo até descobrirmos o caminho certo.

“[…] Durante toda a sua vida, estudara o universo, mas desprezava sua mais clara mensagem: para criaturas pequenas como nós, a vastidão só é suportável através do amor.”


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