Meu pequeno país, de Gaël Faye

Capa de Meu pequeno país de Gaël Faye

Identidade é aquela coisa que sempre estamos desenvolvendo, ou que estamos buscando descobrir qual é. É mais fácil quando sua família toda cresceu no mesmo lugar, com as mesmas referências sobre quem se é e onde vive bem claras e definidas. Para o protagonista de Meu pequeno país, romance de Gaël Faye (Rádio Londres, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto), a identidade e o lugar em que pertence não é uma questão tão clara assim.

O romance se passa em 1992, mas Faye inicia a sua história num passado mais recente, em que Gabriel, o narrador, conta um pouco sobre a sua vida na França. Imigrante, ele é visto com um olhar curioso, daqueles em que as pessoas ficam tentando colocá-lo numa caixa para classificar quem ele é e de onde veio. Um mistério que ele usa a seu favor para conquistar as mulheres. Mas além disso, é um mistério que ele mesmo tem que desvendar às vezes. E retornar à infância é uma maneira de fazer isso.

Gabriel é filho de um francês com uma ruandesa, refugiada dos conflitos do país. Com 10 anos de idade, vive com seus pais e a irmã mais nova no Burundi, uma vida baseada nas brincadeiras com seus vizinhos e colegas de escola nas ruas onde vive. Uma vida calma, simples, confortável – já que o pai é um empresário, e num país pobre como o Burundi, isso significa que ele é rico. Mas desde pequeno há essa questão da identidade rondando a personalidade de Gaby. Ele enxerga Burundi como sua casa, mas o sonho da mãe sempre foi retornar à Ruanda, e ela sempre lhe contou as histórias de sua vida lá. Contudo, a iminência de uma guerra civil no país amedronta a mãe, que quer convencer o marido a partir para a França para oferecer uma vida melhor aos filhos.

Gaby ama seus amigos, sua família, o lugar em que vive, mas aos poucos vai perdendo tudo o que mantém sua vida no lugar. A começar pela separação dos pais. O comportamento do pai tem muito a ver com essa separação. Ele é aquele homem branco europeu que enxerga a África como algo exótico, uma pessoa que foi para o Burundi em busca de aventuras, como se fosse uma criança deslumbrada. Ele se reconforta com a pobreza do país, pois comparado aos outros habitantes, ele é rico e bem-sucedido – status que perderia ao voltar para a França. Ele tem esse comportamento colonizador, de olhar com condescendência para o lugar em que vive, listando todos os seus defeitos, mas vivendo lá justamente porque esses defeitos são o que fazem dele um homem importante. Visão que existe, claro, somente em sua cabeça e na de outros homens brancos estrangeiros como ele.

A separação dos pais é um prenúncio para todos os conflitos que virão depois. A guerra civil do Burundi, que faz seus vizinhos irem aos poucos abandonando suas casas. A determinação da mãe em voltar para Ruanda para reencontrar parentes e amigos enquanto ainda é possível – e o perigo que enfrenta durante o genocídio. Enquanto o país inteiro pega fogo, Gaby enxerga aos poucos a vida tranquila que tinha desmoronando mais e mais, se vendo obrigado a amadurecer antes da hora.

Meu pequeno país é um livro que começa leve, com relatos do cotidiano simples de Gabriel e sua família, até com passagens engraçadas – uma das mais divertidas é a em que ele e os funcionários de seu pai rondam os vilarejos atrás de sua bicicleta roubada. Mas conforme os conflitos se levantam, o mundo protegido de Gaby o obriga a enxergar que a vida não é nada simples e fácil. A melancolia vai tomando conta do garoto, assim como o medo.

E é nesse momento também que ele se confronta com a questão da identidade. Meio francês, meio ruandês, mas que nunca colocou os pés em nenhum desses lugares. Há toda a questão também das diferentes etnias do Burundi e de Ruanda, conflitos que se originam nessa divisão entre culturas, características físicas, poder. Gaby é só uma criança que agora tem que entender o que significa ser o que ele é. Seu relato no começo do livro mostra muito bem esse deslocamento dele com o lugar onde vive agora – e por isso ele quer preservar essas memórias de infância, para lembrar do tempo em que ele tinha um lugar para chamar de casa.

“Não moro em lugar algum. Morar significa fundir-se carnalmente à topografia de um lugar, aos meandros desiguais do ambiente. Aqui não sinto nada disso. Apenas transito. Alojo-me. Hospedo-me. Albergo-me.”

Meu pequeno país é o resgate dessas memórias. Gabriel sabe que jamais poderá retornar para aquela vida, que seu país não existe mais da forma que ele se lembrava. Mas as memórias ninguém pode tirar dele, e é nelas que ele encontra uma resposta sobre quem ele é.  


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