O ponto zero da revolução, de Silvia Federici

Capa de O ponto zero da revolução

Segundo Silvia Federici, “o ponto zero é tanto um local de perda completa quanto um local de possibilidades, pois só quando todas as posses e ilusões foram perdidas é que somos levados a encontrar, inventar, lutar por novas formas de vida e reprodução”. No contexto de O ponto zero da revolução, o segundo livro da autora de Calibã e a bruxa publicado pela Editora Elefante (tradução do Coletivo Sycorax), isso significa reconhecer a realidade em que vivemos e fazer um chamado para uma política em que as mulheres sejam reconhecidas como os principais sujeitos da reprodução de sua comunidade.

Federici é uma intelectual militante feminista, e quem já teve contato com sua obra com a leitura de Calibã e a bruxa conhece bem as suas ideias. Se no primeiro livro ela conta como se deu a opressão da mulher pelo capitalismo – por meio da retirada de direitos e da construção da imagem “feminina” que se perpetua até hoje –, em O ponto zero da revolução ela aborda a falta de reconhecimento do trabalho doméstico como um trabalho real, que merece ser remunerado. O livro reúne uma série de artigos publicados por Federici a partir dos anos 1970 até os dias atuais, em que lança ideias e discussões sobre a necessidade da remuneração do trabalho doméstico.

Para entender melhor esses textos, acredito que é importante ter lido Calibã e a bruxa antes. Isso porque a argumentação de Federici parte dessa opressão feminina que ela cita, aqui, por cima. Mas fazendo um resumo geral: num contexto de mudança do feudalismo para o capitalismo, em uma época de grande mortalidade infantil e baixa natalidade, as mulheres perderam seu direito ao trabalho remunerado e ao próprio corpo para servir ao capital reproduzindo mão de obra de trabalho. Reproduzir, aqui, não significa apenas ter filhos, mas ser responsável por toda a manutenção da família e da casa: limpar, lavar, cozinhar, cuidar, consolar, animar. Enfim, manter funcionando a casa para que o marido tenha condições físicas e mentais de sair para trabalhar nas fábricas.

“[…] do ponto de vista do trabalho, nós podemos reivindicar não apenas um salário, mas muitos salários, porque nós temos sido forçadas a trabalhar de várias maneiras. Nós somos donas de casa, prostitutas, enfermeiras, psiquiatras, essa é a essência da esposa ‘heroica’ celebrada no Dia das Mães.”

A luta principal de Federici nesse sentido é reivindicar o salário para as trabalhadoras domésticas. Um salário a ser pago pelo governo, o maior interessado na produção e na manutenção da força de trabalho. Ao falar sobre isso, ela cita movimentos como o das mães de crianças com necessidades especiais nos EUA nos danos 1960 e 1970, que lutaram para conseguir assistência do governo pelo trabalho que o próprio deveria estar fazendo. Outra questão importante para a independência da mulher – quero dizer, para que a mulher possa se manter sozinha – é que mesmo aquelas que trabalham fora e ganham um salário não são capazes de sustentar uma casa com o que ganham. O pagamento das mulheres é muito baixo comparado ao salário dos homens, e trabalhar fora, ao invés de ser libertador, na maioria das vezes significa ter uma dupla jornada, em que a mulher ainda tem que cuidar da casa sem ganhar nada por isso.

A remuneração é importante, segundo Federici, porque é a partir da precificação do trabalho que ele é visto e considerado, realmente, um trabalho. Quantas vezes não ouvimos homens e mulheres dizendo que uma dona de casa não trabalha, porque ela “só cuida da casa”, como se isso não fosse um trabalho digno e desgastante? A remuneração, então, é uma forma de legitimar esse trabalho, de torná-lo visível para que as pessoas entendam que, sim, cuidar da casa, criar filhos, transar, tudo isso faz parte do escopo do trabalho de uma mulher. E ao ser visto como trabalho, abre caminhos para que as mulheres possam recusá-lo.

O motivo da reivindicação da remuneração do trabalho doméstico ser tão mal visto está enraizado na percepção do que é ser uma mulher e do que é o trabalho doméstico. Silvia Federici explica muito bem como a opressão foi criando essa “fantasia” de que uma mulher plena é uma mulher que se casa, tem filhos e cuida do marido.

“A diferença em relação ao trabalho doméstico reside no fato de que ele não só tem sido imposto às mulheres como também foi transformado em um atributo natural da psique e da personalidade femininas, uma necessidade interna, uma aspiração supostamente vinda das profundezas da natureza feminina. O trabalho doméstico foi transformado em um atributo natural em vez de ser reconhecido como trabalho, porque foi destinado a não ser remunerado. O capital tinha que nos convencer de que o trabalho doméstico é uma atividade natural, inevitável e que nos traz plenitude, para que aceitássemos trabalhar sem uma remuneração.”

E essa visão persiste até hoje. O homem acha que tem o direito de exigir obediência e servidão da sua esposa. As mulheres, também, ainda pensam que ser mulher é ser servil – isso nas camadas conservadoras da sociedade, claro. Mas ser mãe, lavar a roupa, fazer o almoço, isso tudo não é um desejo ou habilidades intrínsecas à mulher. E remunerar esse trabalho é imprescindível, segundo Federici, para que ela possa recusar essas tarefas.

Outro ponto abordado em O ponto zero da revolução é a opressão das mulheres de países pobres por conta dos programas do Banco Mundial e do FMI. Uma parte mais complicada de entender para quem não tem muito conhecimento sobre como essas organizações funcionam, mas que a autora explica muito bem. Silvia Federici foi professora durante um tempo na Nigéria, e lá viu como esses programas de crédito para o desenvolvimento de países de “terceiro mundo” precarizaram ainda mais a vida das mulheres. A perda de terras para a industrialização deixou comunidades sem ter onde plantar e o que comer. Os salários baixos e perda de assistências sociais para o pagamento da dívida externa contribuíram para o crescimento da pobreza, levando mulheres (e homens também, claro) a deixarem suas famílias e procurarem por emprego em outros países – onde recebem pouco. Nenhum desses programas que visam o desenvolvimento, segundo Federici, realmente trouxe qualquer tipo de benefício para a população local.

O que fica de mais importante após a leitura de O ponto zero da revolução é a importância do trabalho da mulher na manutenção do tecido social. As mulheres, em períodos de crise, se mostram as grandes organizadoras da comunidade, se unindo para lutar pelos seus direitos, para alimentar a família, para terem onde morar. São elas a base da sociedade, e nada mais justo e necessário do que reconhecer isso como um trabalho digno de salário. Federici deixa o apelo para a revolução, mostrando que é necessária uma nova política, uma nova maneira de se organizar socialmente não apenas para o benefício da mulher, mas para o benefício de todos.

“Nada sufoca tão efetivamente nossa vida quanto a transformação em trabalho das atividades e das relações que satisfazem nossos desejos. Do mesmo modo, é pelas atividades do dia a dia, através das quais produzimos nossa existência, que podemos desenvolver a nossa capacidade de cooperação, e não só resistir à nossa desumanização, mas aprender a reconstruir o mundo como um espaço de educação, criatividade e cuidado.”


Ficou afim de ler? O Coletivo Sycorax disponibiliza gratuitamente o PDF de O ponto zero da revolução e de Calibã e a bruxa em seu site.

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