Digo te amo para todos que me fodem bem, de Seane Melo

Capa de Digo te amo para todos que me fodem bem

É ridículo que, ainda em 2019, as pessoas viram a cara ou dão um a risadinha vergonhosa quando falamos de literatura erótica. Acho que já estamos em um tempo em que o fato de as pessoas transarem – e de gostarem disso – não deveria ser motivo para tanta comoção. É claro que, na literatura, temos muitos exemplos de cenas sexuais pobremente narradas, outras totalmente constrangedoras, outras tão obscenas que é até ok dar aquela corada. Desde sempre se escreveu sobre sexo, de forma explícita ou não, então isso não é nenhuma novidade. A novidade é quando é bem escrito, sem tocar no assunto como algo vergonhoso ou escrachado.

É o caso de Digo te amo para todos que me fodem bem, da Seane Melo (Quintal Edições). Seu primeiro livro impresso publicado – pois a autora já lançou vários e-books por aí – reúne as experiências sexuais da protagonista Vanessa, uma mulher de 27 anos, com João, Mateus e Thiago, os famosos contatinhos. Com um formato de diário, Vanessa se aproxima muito de uma mulher real que só quer transar bem, trabalhar e pagar suas contas, contando as idas e vindas com esses homens, destrinchando suas expectativas e desilusões.

O que mais atrai na narrativa de Seane Melo é justamente essa naturalidade com que cada história é desenvolvida. João, dono do primeiro capítulo, é aquele cara com quem a protagonista vive flertando via mensagens na internet, mas que quando se encontram pessoalmente, se alimentam da tensão sexual e não do sexo em si. O que enlouquece Vanessa, mas ao mesmo tempo a diverte. Enquanto está às voltas com João, ela relembra sua história com “Ele”, um cara que a afetou muito física e psicologicamente, o exemplo do relacionamento que serve de régua para medir todos os outros – para o bem e para o mal.

É errado, aqui, pensar que Vanessa seria um tipo de ninfomaníaca. Não é porque uma mulher gosta de sexo ou gosta de falar sobre sexo que ela seja uma viciada. Vanessa quer uma transa boa, de qualidade, e é aberta quanto aos seus desejos e preferências para atingir aquele orgasmo esperado. Ela só é uma mulher normal, nada demais.

Uma transa casual não fica, infelizmente, só nessa casualidade. Ao se envolver fisicamente com uma pessoa, o emocional não fica quieto num cantinho esperando para ser chamado. Por mais que goste de sua liberdade de solteira, Vanessa sente uma carência de intimidade real, de gostar e ser gostada. Nada mais excitante, segundo ela, do que fazer aquele programa típico de casal em um domingo: dormir até tarde, transar, sair para fazer o mercado, jantar, voltar para casa, transar de novo, ver um filme… O problema é que nem todos os caras – ou melhor, a maioria – entendem que isso não é necessariamente sinônimo de relacionamento sério. E as pessoas somem, e Vanessa se questiona sobre suas atitudes, sobre seus sentimentos, sobre como, às vezes, é cansativo de novo e de novo entrar nesse joguinho de flerte e conquista.

Porque Vanessa procura por uma certa estabilidade e conforto, mas mais pela preguiça de começar tudo do zero do que por querer firmar matrimônio. Com Mateus e Thiago, os personagens de seus próximos casos românticos, as coisas se repetem. O papinho que começa numa DM do Instagram, o encontro, a transa, o nervosismo quanto ao que vai acontecer depois. É como se a tranquilidade em uma relação sexual fosse inalcançável.

Perceba que, até aqui, falei mais dos sentimentos e consequências do que de sexo. Isso é proposital, porque Seane mistura muito bem essas reflexões com as cenas eróticas que cria. Cenas essas que não têm vergonha de chamar as coisas pelos nomes, de deixar explícito os desejos das personagens e nem de esconder aqueles momentos constrangedores que todo mundo uma hora ou outra vai vivenciar durante o sexo. A escrita de Seane é atraente, sincera, real e divertida.

Ela também apresenta boas reflexões sobre o sexo e o prazer. Vanessa é dessas mulheres que cresceu num mundo que ainda dita como uma mulher deve se portar, o que pode fazer por vontade própria e o que pode fazer só quando solicitada. Nas suas experiências amorosas, a maior lição que ela aprendeu, e que passa adiante em seu relato, é que o prazer é só seu, que tudo bem ser egoísta e ir incessantemente atrás dele. Sem essa de seguir um manual para enlouquecer um homem na cama, sem essa de “sinto prazer ao ver o outro sentir prazer”. O prazer é individual e intransferível, não tem por que ela fazer mil malabarismos para fazer o cara gozar sem pensar, primeiro, no prazer próprio.

Digo te amo para todos que me fodem bem é dessas leituras que você gosta pela qualidade da escrita e pela identificação certeira que você tem com a Vanessa. Todo mundo já passou pelo cara que só fala, mas não faz nada. Todo mundo já passou por aquele que passa a mesma cantada para todas as mulheres que conhece. Todo mundo já ficou tentando entender as atitudes de um cara que, quanto mais analisamos, menos sentido faz.

E, óbvio, todo mundo aqui já ficou subindo pelas paredes querendo transar, sem ter ninguém disponível para isso, assim como já ficou com zero vontade de transar quando todo mundo parece estar disponível. Seane quis se afastar do estereótipo das histórias eróticas. Não quer chocar, nem quer pagar de a libertadora do prazer feminino. Só quer contar uma história mais próxima do real possível, e faz isso muito bem.


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Digo te amo para todos que me fodem bem, de Seane Melo.

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