Origens: uma grande história de tudo, de David Christian

Capa de Origens uma grande história de tudo

É bem provável que a primeira história sobre a origem do homem e do mundo que você ouviu é aquela sobre um ser superior e divino que criou tudo em sete dias – ou melhor, seis, porque no último dia ele descansou. Não importa o nome que essa entidade tenha, cada um a chama de uma forma diferente. Mas o negócio é que havia alguma coisa mágica que deve ter pensado “tenho nada para fazer, vou criar o universo e vai ser daora”. Cada civilização tem sua história das origens, pois desde sempre precisamos de narrativas para orientar as nossas vidas. Origens, de David Christian (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares) não é um livro sobre essas histórias.

David Christian é um historiador que fundou com Bill Gates o Big History Project, um projeto global que visa ensinar uma história unificada do nosso mundo. Origens: uma grande história de tudo é consequência desse projeto. O objetivo de Christian é contar uma história das nossas origens que seja universal, válida para orientais e ocidentais, de países ricos e de países pobres. Uma história que não seja calcada em crenças e culturas, mas em dados científicos – sem, no entanto, desmerecer diferentes crenças e culturas.

Considero o projeto de Christian algo importante e grandioso. Por mais que devemos respeitar e levar em consideração diferentes culturas, o fato é que somos todos feitos dos mesmos materiais, todos vivemos num mesmo mundo, num mesmo sistema solar, numa mesma galáxia, num mesmo universo. Assim, de certa forma, todos temos a mesma “origem”. Compartilhamos os recursos naturais do planeta, compartilhamos o planeta, então não podemos nos enxergar como coisas diferentes – nem superiores nem inferiores. Origens é uma narrativa neutra sobre como chegamos até aqui – quer dizer, neutra para quem leva a ciência a sério.

Outro ponto importante do projeto é que Christian pretende reunir todas as áreas de conhecimento nesta narrativa. Não é um livro de física, ou de história ou de biologia, com temas separados como aprendemos na escola. É uma narrativa que reúne tudo isso em um lugar só, interligando as matérias e mostrando como, sim, literatura tem tudo a ver com matemática, física tem tudo a ver com filosofia.

Para começar a contar a história das nossas origens o autor parte, claro, do início: o Big Bang. Não que tudo esteja 100% comprovado, e Christian deixa isso claro em vários momentos, mas ele apresenta as teorias mais aceitas na comunidade científica sobre o início do universo e como ele funciona. Ele conta como essa grande explosão aconteceu, o que se originou através dela, que elementos químicos compuseram o universo em seu início, como esses elementos se combinaram para formar novos elementos, como funciona a estrutura desses elementos – pensa só, se você teve dificuldade com matérias de exatas como eu, finalmente vai entender como prótons, elétrons e nêutrons funcionam. E, principalmente, qual é a relação entre matéria e energia, tão fundamental para o universo. A partir daí o autor narra a formação das estrelas, dos planetas, dos sistemas solares, até chegar na Terra e em nós.

Origens poderia se chamar, também, “Cachinhos Dourados”. Segundo o autor, foram diversas condições Cachinhos Dourados que permitiram que a Terra surgisse – e que a vida surgisse na Terra. Assim como no conto infantil, em que Cachinhos Dourados procura pelo mingau perfeito que não fosse nem muito quente, nem muito frio, uma série de condições amenas foram determinantes para o desenvolvimento do nosso planeta. Ele não está perto o bastante do Sol para ser quente demais, nem longe o bastante para ser congelado. Sua atmosfera também é composta pela combinação de elementos certa para que a vida surgisse e nela se desenvolvesse. Do nascimento do universo até o surgimento das civilizações, foram muitas as condições Cachinhos Dourados que atuaram do jeito certo, o que mostra como a vida é tão única e, quem sabe, aleatória.

Como base para essa narrativa, Christian usa uma linha do tempo apresentada logo no início de Origens que divide nossa história em limiares e apresenta a data absoluta aproximada em que esses fenômenos aconteceram. Além disso, apresenta uma escala em que essa data absoluta é dividida por 1 bilhão, já que é complicado para nossa mente, muitas vezes, conceber coisas tão grandiosas. O primeiro limiar, então, que é o Big Bang, ocorrido há cerca de 13,8 bilhões de anos, na escala aconteceu há 13 anos e 8 meses. As primeiras estrelas começaram a brilhar há 13 anos e 2 meses. Essas estrelas passaram a forjar novos elementos em seus núcleos também há 13 anos, e continuam fazendo isso até agora.

Ainda nessa escala, nosso Sol e o Sistema Solar se formaram há apenas 4 anos e 6 meses. A mais antiga vida na Terra surgiu há 3 anos e 9 meses, enquanto os primeiros grandes organismos vivos surgiram só há 7 meses. E aí o tempo se encurta e percebemos como faz pouquíssimo tempo que estamos aqui – pensando na escala universal, claro. Os dinossauros foram extintos há 24 dias. As primeiras espécies de hominínios, dos quais somos descendentes, surgiram há 2,5 dias. O Homo erectus apareceu na Terra há 17 horas, enquanto nós, os Homo sapiens, estamos aqui há apenas 100 minutos. Os primeiros sinais da agricultura, fundamental para o desenvolvimento da espécie humana, surgiram há 5 minutos. As primeiras cidades, Estados e civilizações se desenvolveram há 2,5 minutos. Há 15 segundos, pessoas dos continentes europeu e africano começaram a se conectar com pessoas nas américas. E há 6 segundos, começamos a usar combustíveis fósseis – e foi aí que a coisa degringolou de vez.

Christian mostra no decorrer dos capítulos como as coisas levaram muito tempo para acontecer na Terra, e também como o planeta passou por várias extinções em massa até se estabelecer com os seres vivos que conhecemos hoje – incluindo nós mesmos. Se há milhões de anos os dinossauros comandaram o mundo, hoje definitivamente somos nós que reinamos na Terra. E como chegamos até aqui? Pela informação.

Diferente de outros animais, temos uma capacidade maior para coletar, interpretar e guardar informações. No início, comunidades de Homo sapiens não eram tão grandes como as cidades de hoje. Na verdade, os grupos não tinham mais que 150, 200 indivíduos. Nos tempos dos caçadores-coletores, esse era o número limite de pessoas que conseguiam viver juntas em harmonia. Com o advento da agricultura, porém, as coisas mudaram bastante. Começamos a desenvolver a escrita, fomos capazes de produzir mais alimento, mais energia, e com essa energia extra começamos a construir mais coisas. Conforme os grupos aumentavam, regras eram estabelecidas, uma sociedade surgia, e o grau de complexidade da vida humana ia aumentando.

É interessante pensar que, na época dos caçadores-coletores as coisas eram mais simples, e eram mesmo. Mas ser mais simples não significa o mesmo que ser fácil. E uma coisa que você nota com a leitura de Origens é que a vida humana nunca foi fácil, e provavelmente nunca vai ser. Porque o que nos difere dos outros seres vivos é justamente a crescente complexidade de nossos corpos e nossas relações. E essa complexidade vem crescendo num ritmo muito maior agora. Afinal, enquanto os primeiros homens passaram milhares de anos caçando sua comida, nós, em apenas 200 anos, desenvolvemos a ciência e a tecnologia. O mundo de 1900 é totalmente diferente do mundo de 2019, e pouco mais de 100 anos separam essas duas épocas. Já o mundo de, sei lá, mil a. C. não mudou muito em relação a 5 mil a.C. A partir do momento em que os combustíveis fósseis entraram no cotidiano da vida humana, tivemos um salto gigantesco de inovações tecnológicas que começaram a alterar a própria biosfera. Agora não é o planeta que determina o nosso destino, mas nós que somos os donos do destino dele.

Claro que, depois de contar a história da nossa origem, David Christian encerra o livro com a questão que mais nos amedronta: e o futuro? Conseguiremos frear o impacto humano na biosfera para que possamos viver mais? Até quando viveremos? Até quando a Terra irá existir? E o universo? Na escala de sua linha do tempo, a Terra ainda tem 4 anos e 6 meses de vida, tempo em que o Sol irá finalmente morrer. Enquanto o universo terá pela frente bilhões e bilhões de anos até desaparecer na escuridão. Pensar nesses termos traz essa sensação de insignificância, de que somos efêmeros se comparados às galáxias. E somos mesmo. Origens é uma leitura deliciosa para qualquer pessoa curiosa que ama ciência e quer entender mais sobre como o mundo funciona. E mesmo para aqueles que acham complicado entender todas essas teorias científicas, David Christian narra tudo de maneira bem didática e simples, então é uma boa forma de começar a ler mais sobre esses temas. Por mais insignificantes que nós somos, só nós conseguimos coletar e interpretar essas informações que o autor nos apresenta. E isso é grandioso demais.


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Origens: uma grande história de tudo, de David Christian.

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