Pessoas normais, de Sally Rooney

Capa de Pessoas normais

Quando lançou Conversas entre amigos, Sally Rooney recebeu o “título” de A Escritora dos Millennials. Não que eu ache saudável sair logo colocando rótulos em escritores estreantes, mas considero que, no caso de Rooney, é uma boa definição de suas personagens. Elas são millennials, a autora é millennial, a história usa ferramentas e a linguagem dos millennials. Em seu segundo livro, Pessoas normais (Companhia das Letras, tradução de Débora Landsberg) esse rótulo persiste. E não, não estou dizendo isso de forma negativa, muito pelo contrário – até porque já é tempo de parar de enxergar o termo como algo negativo.

Pessoas normais começa em janeiro de 2011. Marianne é uma adolescente rica desprezada no colégio. Não tem amigos, não tem uma relação saudável com a mãe e o irmão e pouco se importa com isso. Por mais que seja alvo do desprezo dos colegas, o sentimento é recíproco. Ela odeia a pequena cidade irlandesa onde mora e mal vê a hora de ir para a faculdade onde a sua vida, na sua concepção, finalmente vai começar.

Connell é o contrário de Marianne. Popular, amigável, querido, tem uma mãe amorosa e é cheio de amigos. Joga no time de futebol na escola, vai a festas, se diverte. Mas a família de Connell é pobre, sua mãe trabalha como faxineira na casa de Marianne. Só assim para que duas pessoas tão diferentes se encontrarem e iniciarem uma relação de amizade e amor. Mas como pessoas tão distintas, essa relação permanece escondida. No início por vontade dos dois, mais tarde por vontade apenas de Connell, sempre preocupado com o que os amigos – e todo o resto da escola – pensariam caso soubessem que ele sai com Marianne.

A partir disso Sally Rooney passa a narrar o vai e vêm de Marianne e Connell através dos anos. Diferente de Conversas entre amigos, a autora é bem mais direta e seca na narrativa. Os diálogos são curtos, as descrições são sucintas e o tempo passa como numa transição de novela (meses depois, dias depois etc.). Isso dá uma dinâmica bem diferente à leitura, como se Rooney não quisesse despejar todas as informações importantes da trama em cima do leitor, mas querendo deixar certo mistério, aquela curiosidade sobre o que aconteceu entre um tempo e outro.

Logo ela vai dando conta dos acontecimentos desse intervalo. Após se formarem na escola – e de encerrarem a relação –, Marianne e Connell se reencontram na faculdade em Dublin em situações ainda diferentes. É a garota agora quem é a popular, cheia de amigos ricos e cultos com quem divide as aulas e as festas. Connell se sente fora do aquário nesse cenário, todos os amigos ficaram na cidade onde cresceu, seu único contato mais íntimo é o colega de quarto e nada mais além disso. É como se a falta de dinheiro de Connell o impedisse de se enturmar. Mas o reencontro com Marianne o coloca dentro desse círculo social dos alunos esnobes da faculdade.

Apesar das coisas terem mudado tanto para os dois em poucos meses, o laço que os uniu na escola ainda é forte. Mesmo finalmente enturmada, Connell é a pessoa com quem Marianne se sente mais confortável. Só que ainda existem mágoas e receios, então a história de amor dos dois não é aquela coisa bem definida e tranquila. E aqui está um dos pontos que mais gosto nos livros de Rooney: como ela consegue expressar a falta de intimidade que temos com nossas próprias vontades e emoções.

Para Connell e Marianne é difícil admitir como um afeta a vida do outro e, ao mesmo tempo, ambos acham que não são merecedores da atenção que trocam entre si. Enquanto um entende uma atitude ou frase de um jeito, o outro interpreta de maneira totalmente diferente, gerando ruídos na relação e afastando os dois. Como estão nessa época da vida de descobrir quem são e onde pertencem, ambos se debatem com os próprios pensamentos sobre o que querem. A insegurança dos dois é imensa, como se apenas pensassem nas consequências negativas, nunca na possibilidade de realmente serem amados.

Marianne certamente tem motivos para isso. O pai, já morto, agredia a família. O irmão mais velho segue o exemplo do pai, zombando e até agredindo Marianne toda vez que tem a oportunidade. E a mãe a trata como uma pessoa inferior, esquisita, indigna de amor. É essa relação familiar conturbada que está por traz de todos os receios dela sobre a relação com Connell. Seria ele capaz de amar de verdade uma pessoa tão machucada, tão “esquisita”?

O papel de Connell, aqui, é tentar entender Marianne, ser a âncora de uma pessoa tão distinta dele em todos os sentidos. Se não fosse a solidão que sentiu na faculdade, provavelmente os dois nem teriam se reaproximado. Mas agora que isso aconteceu, e que a vida na cidade do interior é oficialmente uma coisa do passado, é como se ele tivesse apenas ela no mundo. E assim, com uma narrativa tão direta e curta, Sally Rooney trata de emoções tão complexas.

Tenho minhas dúvidas ainda se gosto mais de Conversas entre amigos ou de Pessoas normais. O primeiro livro me conquistou logo de cara, já o segundo, pela estrutura diferente, precisou de mais tempo para que eu me envolvesse de vez com a história. Mas conforme a autora revela mais sobre os protagonistas e vai deixando essa relação mais complexa, mais o livro me conquistava. Os dois livros têm essa mistura de melancolia e beleza com foco nos sentimentos, não nos acontecimentos. E os dois têm personagens cujo maior desafio é deixar a vulnerabilidade aparecer para que sejam cuidados e amados pelos outros.

“Marianne tinha a sensação de que sua vida real acontecia em outro lugar, bem distante dali, acontecia sem ela, e não sabia se um dia descobriria onde era e se seria parte dela. Volta e meia tinha essa sensação na escola, mas não era acompanhada por nenhuma imagem específica de que aparência ou sentimento a vida real poderia ter. Só sabia que, quando começasse, não precisaria mais imaginá-la.”



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