Sobre a beleza, de Zadie Smith

Capa de Sobre a beleza

Sempre que falo dos livros de Zadie Smith ressalto a questão da identidade. Esse é um tema constante em seus romances: filhos de pais brancos e negros buscam se encaixar em algum lugar, refletem sobre sua cor e o que isso significa para a sociedade. Sobre a beleza, seu terceiro romance, alia isso ao embate intelectual e social entre duas famílias.

Os Belseys são ingleses que vivem nos EUA. Howard se muda com toda a família ao se tornar professor no departamento de arte da universidade de Wellington. Sua pesquisa fala sobre arte, pinturas clássicas e sua beleza – e um livro sobre Rembrandt nunca finalizado. Branco, ele é casado com Kiki, uma mulher negra, americana, com quem teve três filhos: Jerome, Zora e Levi. Quando Sobre a beleza começa, Smith apresenta uma “troca de e-mails” unilateral entre Jerome e Howard. O filho, fazendo um intercâmbio na Inglaterra, tenta reestabelecer contato com o pai. O motivo do rompimento é o lugar em que Jerome está: na casa de seu maior inimigo acadêmico.

Monty Kipp e Howard Belsey trocaram muitas ofensas públicas no passar dos anos, um criticando o trabalho do outro. Negro, casado com uma mulher negra e com dois filhos, Monty tem um posicionamento extremamente conservador sobre a universidade, o mundo e a vida. E é nesse conservadorismo que ele bate de frente com Howard. Jerome conta para o pai que a família Kipp não é assim tão horrível, mostra que está cada vez mais se alinhando às visões conservadoras e religiosas deles e, para horror dos Belsey, diz que vai se casar com Victoria, filha mais nova dos Kipp. E isso Howard não pode permitir.

A partir do segundo capítulo, a narrativa dá um salto de um ano no tempo e adquire a estrutura usual de Zadie Smith. Jerome está de volta em casa, ainda tendo seus embates com o pai, enquanto Zora está se gabando da vida na universidade. Levi, o caçula, ensaia em casa o dialeto das ruas, fingindo que a elas pertence, escondendo da família, também, seu trabalho em uma loja de departamentos. Os filhos dos Belseys são bem diferentes entre si: um conservador, uma nerd dos estudos arrogante e um adolescente revoltado por sentir que não pertence àquele lugar – além deles, não há nenhuma outra família de negros na cidade universitária. Jerome quer fugir das visões eruditas do pai, Zora que se apoderar integralmente desse ambiente e Levi quer de qualquer forma fugir dele.

O drama retorna quando todos ficam sabendo da mudança dos Kipp para os EUA, onde, no ano seguinte, Monty deve dar uma série de palestras que Howard quer impedir pelo seu teor retrógrado. A partir daí, Zadie Smith se concentra na relação de cada personagem com essa vida em Wellington. Além disso, uma traição de Howard no ano anterior abala seu casamento, e neste momento ele tenta retomar as boas relações com a esposa.

Mas deixa eu falar da personagem que realmente mais se destaca em Sobre a beleza, Kiki. Quando se casou com Howard, Kiki era uma jovem mulher negra alta e magra, uma beleza que atraiu rapidamente o seu marido. Mas depois de mais de 20 anos de casamento, tanto a mulher quanto o seu corpo se transformaram. As inseguranças de Kiki com o marido não dizem respeito apenas ao corpo que agora é gordo, mas tem a ver com o próprio lugar em que vive. Não há ninguém igual a ela em Wellington, nesses anos todos que eles vivem lá. Não há nenhuma mulher com quem se identifique, nenhuma amiga, nada. Kiki, apesar de rodeada pela família, é solitária. E a família não supre mais sua necessidade de companheirismo. Por isso que, quando os Kipps se mudam, ela se aproxima da esposa de Monty e estabelece uma amizade com ela mesmo com todo o histórico entre seus maridos.

Sobre a beleza é uma mistura de romance de universidade com drama familiar. Os colegas de Howard se misturam com sua vida em casa, sua visão sobre o que é belo dita como é a sua casa, o que deve ser considerado bonito ou não. E como um homem de meia-idade em crise no casamento, é claro que ele se deixa levar pela “tentação” de uma beleza jovem. Smith deixa em todo o livro essa sensação de que alguma coisa muito errada vai acontecer a qualquer momento, que a fachada de vida tranquila dos Kipp e dos Belsey vai cair a qualquer momento.

E acontece, claro. E, como sempre, é tudo muito bem construído. Sobre a beleza é uma dessas histórias familiares cheias de tretas e segredos que ficamos ávidos por descobrir, essa coisa intrometida de querer ver a vida do outro em todos os detalhes. Não tem uma linha narrativa que seja entediante, todas as personagens possuem conflitos individuais interessantes – conflitos que, em algum momento, vão se unir em uma coisa só. Uma história que mostra que pertencimento é importante, e que manter uma família unida é uma das coisas mais difíceis de se fazer. (Eu li a edição em inglês, mas no Brasil Sobre a beleza foi lançado pela Companhia das Letras com tradução de Daniel Galera.)


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