Lake Success, de Gary Shteyngart

Capa Lake Success Gary Shteyngart

Muitas vezes quando o mundo parece colapsar e tudo é envolto em medo e incerteza, o coletivo reflete no individual. Nos EUA em plena campanha que elegeu Donald Trump como presidente, esse medo, incerteza e caos invade a vida de Barry Cohen. Entrando numa famosa “crise da meia-idade”, o administrador de fundos vê sua vida desmoronar: seu trabalho vai mal, o casamento está praticamente destruído e seu filho lhe causa desconforto – um garoto autista de três anos de idade que não é nada daquilo que ele e sua esposa esperavam ao se tornarem pais. Confuso, ele abandona tudo – menos alguns relógios da sua rica coleção – e parte para uma viagem de ônibus pelos EUA em busca da namorada da faculdade, como se reencontrá-la fosse resolver a sua vida.

Lake Success, de Gary Shteyngart (Todavia, tradução de André Czarnobai) é uma das primeiras ficções ambientadas nessa era pré-Trump e, também, durante Trump. A iminência de sua eleição está incrustada em todo o livro, explicitamente ou não. Apesar deste não ser o tema principal do romance, o contexto político e social caótico daqueles tempos está presente nessa viagem do protagonista.

Judeu e bilionário, o dinheiro sempre foi o ponto principal da vida de Barry. Ele tem uma visão clara de quem é ou quer ser: é rico, mas não é como os outros ricos que atuam na sua área. Ele não é fútil como eles, demonstra ter cultura e inteligência. Ele tem a fantasia da vida perfeita, uma casa na região de Lake Success, onde viverá com sua família exemplar: esposa, quatro filhos, um retrato lindo e feliz. Sua mulher não é como as mulheres dos outros ricaços, modelos magrelas e desinteressantes: Seema é filha de imigrantes indianos que estava começando uma carreira na advocacia quando conheceu o marido. É ela quem confere a Barry seu status de “diferente”, faz com que ele seja alguém com “gostos autênticos”. Mas após o nascimento de Shiva e de uma série de problemas profissionais, tudo que ele almeja está longe de acontecer.

O autismo de Shiva afeta profundamente os seus pais, e Barry reflete muito sobre isso durante sua viagem para Richmond. Tanto ele quanto Seema escondem de todos, inclusive dos pais dela, a condição do filho. Há a constante preocupação sobre o que os amigos e vizinhos pensariam deles caso descobrissem. Na ânsia de que Shiva apresente avanços com todos os tratamentos e terapias caras que oferecem, eles se tornam impacientes com o filho. Não é que Barry e Seema não aceitem ou não amem o Shiva. O que eles têm é medo, medo do que ele terá que enfrentar quando for mais velho. Barry quer poder abraçar o filho, brincar, lhe contar histórias, ensinar sobre os relógios que tanto o fascinam, e não pode. E por não conseguir fazer isso, se sente extremamente angustiado, a ponto de achar que ama mais os seus relógios do que o próprio filho.

“[…] Um bom relógio o fazia sorrir da mesma maneira que seu filho fazia no passado, quando era apenas aquela coisinha perfeita e indefesa. Do jeito que Seema o fazia sorrir antes deles se casarem, quando ela rebatia tudo o que ele dizia sobre a vida, sobre política e estética. Ele achou quer seria legal para alguém em sua posição se casar com uma pessoa que discordava dele em todos os aspectos. Sua oposição leal. ‘Ela é a mulher mais bonita e inteligente que eu já conheci’, ele gostava de dizer aos amigos antes que eles deixassem de se amar.”

Shteyngart divide a narrativa entre o presente de Barry no ônibus e suas lembranças do passado distante e recente, lembranças que explicam como ele chegou a esse estágio de desespero. E também se aventura entre o presente e o passado de Seema, dando ao leitor não só a perspectiva do homem, mas também da mulher que pensa tão diferente dele, fazendo com que o livro tenha vozes conflitantes e complementares – caso contrário seria só mais um livro sobre um homem rico e privilegiado entrando em crise.

À bordo do ônibus, Barry disseca todos os seus sentimentos, revelando o que realmente está por trás da sua fuga – uma prisão iminente – e apresentando uma versão sua que era inocente antes dele ser mordido pelo bicho do dinheiro. A viagem é como que uma tentativa de voltar a ser o Barry da faculdade. Shteyngart faz isso de um jeito bem humorado, ele não quer que você sinta pena das personagens, ele evidencia as suas atitudes ridículas e o ambiente em que vivem. Mas também as coloca na posição do medo – Barry tem medo de perder tudo, por mais que tente viver sem dinheiro algum durante a viagem, enquanto Seema teme pelo futuro do filho em um país que provavelmente elegerá um troglodita como presidente.

É no ônibus, também, que Barry tem contato com o “mundo” real. Mas do mesmo jeito que ele enxerga Seema como uma pessoa exótica por conta de sua origem, ele oferece as mesmas conclusões sobre os outros passageiros, observando com uma admiração exagerada os negros e mexicanos, as mães pobres e solteiras, os traficantes de drogas e os red knecks que defendem a campanha de Trump. Ele se “encanta” com a vida dessas “pessoas normais”, porém, é um encantamento distante, porque ele nunca chega a se ver como uma dessas pessoas. Porque ele ainda é um bilionário que está privilegiadamente invadindo o terreno dos outros.

“[…] Barry começou a suspeitar de uma coisa sobre o nosso país. O fato de que éramos, no fundo, intensamente regimentados e militaristas. Apesar de todo aquele éthos de caubói, na verdade todos nós estávamos seguindo ordens, e tudo que disséssemos ou fizéssemos em protesto poderia ser interpretado como ‘ser mal-educado’, e poderíamos acabar expulsos do ônibus. Aquele Greyhound era como um braço das nossas Forças Armadas. E Barry era um soldado raso.”

Enquanto Barry está “sumido”, empenhado em encontrar a namorada da faculdade, Seema está às voltas com um caso amoroso com seu vizinho, um escritor “semi-guatemalteco”, como Barry se refere a ele. Seema sente falta de alguma coisa, de um amor real que não seja baseado em dinheiro, de uma aventura, e a resposta dessa falta está nesse escritor – pelo menos ele a faz esquecer brevemente do marido fujão e do filho. Seema é uma das melhores personagens de Lake Success, pois considero que ela possui mais complexidade. Ela busca a emancipação e a felicidade, mas tem medo de abandonar o marido por causa do conforto financeiro que conquistou. Seema sabe que é capaz de trabalhar e se manter, mas se acostumou com a vida luxuosa. Ela é inteligente, mas sente que é tratada com condescendência por todos – marido e amante. É uma mulher solitária, distante dos pais, sem amigas, que só tem o filho como pessoa mais próxima – um filho que não demonstra afeto.

E é ela quem tem mais medo da eleição de Trump. Pela própria segurança, por ser filha de imigrantes e mulher, e pela segurança de Shiva. Sua falta de paciência com Barry também vem disso, o círculo em que ele vive é composto por pessoas que vão acabar elegendo um homem asqueroso para o cargo mais importante do país. Não demora muito para que ela se irrite até com o amante.

É a preocupação de Seema com a eleição que desperta Barry para a questão política. Há o conflito entre a sua personalidade conservadora, que visa só o dinheiro – e aí Trump teria o seu voto – com o medo que enxerga em Seema. E ao ver nela essa preocupação, passa a procurar nas “pessoas comuns” indicadores de suas preferências. Ele quer conhecer o que a América de verdade pensa sobre tudo isso, a América da qual foi tão protegido pelo conforto da conta bancária bilionária. Ao ler sobre isso, não é difícil relacionar os pensamentos de Barry sobre os EUA com a nossa própria visão de um Brasil em tempos de Bolsonaro.

Lake Success se estende pela busca de Barry, a traição e medos de Seema, sua separação e recuperação. Com episódios muitas vezes cômicos e até absurdos, Shteyngart entrega um romance bem redondo sobre essas personalidades e o clima de tensão pré e pós eleição. É o público e coletivo invadindo o privado e individual. E um retrato de muitos pontos de vista sobre a vida nessa América que antes era tão almejada, mas que hoje não passa de uma bagunça difícil de entender.


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