O que eu amava, de Siri Hustvedt

Capa de O que eu amava

Meu primeiro contato com Siri Hustvedt foi com o livro O mundo em chamas, uma trama feita de retalhos que contava a história de uma artista plástica e seu experimento sobre como o mercado da arte, a mídia e o público recebem de formas diferentes o que é produzido por uma mulher e o que é produzido por um homem. Com digressões sobre a arte em si, sobre neurologia e psicologia, O mundo em chamas se tornou um dos meus livros favoritos. Mas quando fui ler outras obras da autora, como Os encantamentos de Lili Dahl e O verão sem homens, o furor que senti com seu romance mais recente não veio.

O verão sem homens é uma boa obra sobre relacionamentos, separação e a rede de apoio que existe entre as mulheres, mas Os encantamentos de Lili Dahl não me pegou nem um pouco. Realmente achei sem sal. Mas faltava ler um romance dela: O que eu amava (Companhia das Letras, tradução de Sonia Moreira, lançado no Brasil em 2004). E esse, sim, confirmou Siri Hustvedt como uma das minhas autoras favoritas.

Logo quando comecei a leitura pensei que talvez ela se saia melhor com narrativas longas, o que é o caso de O mundo em chamas e O que eu amava. Mais espaço para trabalhar as reflexões que ela propõe fazer, mais liberdade para se aprofundar nas personagens? Foi uma impressão que se confirmava a cada capítulo. Neste romance que também explora o mundo da arte, Leo Hertzberg é um historiador da arte e professor universitário nascido na Alemanha, mas criado nos EUA. Em 1973, numa galeria do SoHo, ele fica vidrado numa pintura intitulada Autoretrato, de Bill Wechsler, em que o objeto principal é uma mulher deitada no chão. Os pensamentos despertados pelo quadro o levam a conhecer Bill pessoalmente, a comprar a obra e, a partir desse primeiro encontro, engatar uma amizade longa com o pintor. É um um grande romance sobre… bromance.

“’Deitada no chão do estúdio’, Violet escreveu na quarta carta, ‘eu o observava enquanto você me pintava. Ficava olhando para os seus braços, para os seus ombros e principalmente para as suas mãos enquanto você trabalhava na tela. Queria que você se virasse, andasse até mim e alisasse a minha pele como alisava a pintura. Queria que você afundasse o polegar em mim como fazia na tela e tinha a sensação de que enlouqueceria se você não me tocasse. Mas não enlouqueci, e você não me tocou, nem uma única vez. Você nem sequer me dava um aperto de mão’.”

Apesar de ser um pouco mais velho que Bill, ele e Leo estão praticamente no mesmo estágio da vida. Porém, o professor tem muito mais sucesso na carreira do que o novo amigo, que ainda trabalha como pintor de parede para pagar as contas. Mas essa conexão que cria com Leo é benéfica, e ele começa a aparecer para o mercado da arte nova-iorquina. Casado com Erica, Leo descreve as alegrias do início de seu relacionamento com ela e, também, o laço estranho que liga Bill a sua esposa, Lucille. Quando Erica engravida, logo Lucille também anuncia que terá um filho, e os dois passam ao mesmo tempo pelas descobertas da paternidade. Leo tem Matt, Bill tem Mark – e essa semelhança entre os nomes pode até confundir em alguns momentos, já que as crianças se tornam inseparáveis, tanto pela amizade que os pais mantêm quanto por serem vizinhos.

Mas há outra personagem importante dessa história: Violet, a modelo do quadro de Bill. Anos após a pintura ser feita e vendida, ela reaparece na vida do artista, que deixa Lucille para viver com ela. Uma é poeta, com personalidade fechada e silenciosa, que parece estar sempre fugindo do afeto de Bill. A outra é uma pesquisadora curiosa e alegre, muito mais próxima do pintor. Violet logo vira amiga de Erica e Leo, e apesar das idas e vindas de Lucille e Mark após a separação, esse cotidiano familiar e a amizade dos dois homens seguem inabalados.

A maneira com que Siri Hustvedt apresenta essa trama me lembrou muito 4 3 2 1, romance de Paul Auster publicado muito tempo após o lançamento de O que eu amava. Essa semelhança está na impressão de que a história acontece vagarosamente, que o que é narrado são acontecimentos cotidianos e simples que mostram como a vida dessas pessoas passa por um ou outro problema que mudam todo o seu curso. Auster fez o mesmo em 4 3 2 1, lentamente mostrando a passagem do tempo. Só que, assim como na vida, algo acontece e muda tudo. Um dia você tem um filho, no outro não tem mais. Hustvedt conta isso de um jeito natural e chocante, aquele tipo de abordagem que te espanta porque até um segundo atrás tudo estava bem.

A partir de agora não tem como eu falar de O que eu amava sem recorrer à spoilers, então siga por sua própria conta e risco.

Aos 11 anos, Matt, filho de Leo, morre em um acidente durante um acampamento de férias. Se tudo parecia normal e tranquilo, aqui Siri se aprofunda nas dores de Leo e em sua incapacidade de entender como Erica se sente – e como ele mesmo se sente, até certo ponto. O casal é abalado fortemente pela morte de Matt, e ela parte para outra cidade sem se separar legalmente e afetivamente de Leo. O narrador fica em Nova York contando apenas com a presença de Bill e Violet para superar o luto.

É nesse momento que a amizade de Bill e Leo vai ganhando contornos mais dramáticos. Bill é o artista que Leo admira, o amigo que ele sempre ajudou da melhor forma que pôde, mas também é o homem que ele mais inveja. Leo inveja o fato de que Bill tenha Violet por perto, uma mulher dedicada e extremamente inteligente. Ele inveja o fato de que o amigo ainda tenha um filho, por mais que ele seja uma pessoa cheia de complicações – e boa parte do romance se concentra, depois, nos problemas causados por Mark em sua adolescência. Até Lucille, tão fria e distante, chega a ser cobiçada por Leo. É um caso de admiração que é tanto benéfica quanto maléfica: claro que ele nunca faria nada para magoar o amigo, mas secretamente a inveja e os desejos estão todos lá.

O que eu amava é recheado de descrições das obras fictícias de Bill, das pesquisas sobre histeria e distúrbios alimentares de Violet, das impressões de Leo sobre as obras de Bill e outros artistas. Tudo o que o narrador absorve, observando ou ouvindo os outros, ele processa e apresenta sob a sua visão. O livro fica rico em informação, pois a exposição dos interesses do protagonista nos aproxima muito dele. Enxergamos a personalidade de Leo através do que chama a sua atenção. O que ele faz é observar e aprender, e isso é fundamental na sua narrativa.

Por isso considero que Siri Hustvedt se sai muito melhor nos romances mais longos, pois seus personagens se tornam mais “reais”. Conhecemos uma pessoa de verdade e nos tornamos íntimos dela quando passamos a conviver proximamente, ouvindo seus interesses, suas chateações, estando por perto nos momentos tediosos e nos agitados. E o Leo que vemos está, na maior parte do tempo, narrando sua vida em todos os pormenores – assim como Karl Ove Knausgard faz na série Minha Luta. E é justamente por ser algo tão comum e cotidiano que as reviravoltas, quando acontecem, chocam tanto. Porque ficamos tão apegadas às personagens que qualquer mudança em suas vidas nos afeta também. Hustvedt provoca a empatia.

O que eu amava foi minha terceira leitura de 2020 e já posso reservar seu lugar entre as melhores do ano – e dos anos anteriores também. Para quem ainda não leu Siri Hustvedt, fica a recomendação de começar por este ou por O mundo em chamas. Pode parecer demais para leitores engajados ler mais um livro sobre a vida de um homem hétero, rico, branco e de meia-idade, mas deixe de lado o ranço por esse tipo de literatura porque Hustvedt merece.

“[…] Estar vivo é inexplicável, pensei. A própria consciência é inexplicável. Não existe nada de banal no mundo.”


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui O que eu amava, de Siri Hustvedt.

Leituras relacionadas:
O mundo em chamas, de Siri Hustvedt
4 3 2 1, de Paul Auster
Minha Luta, de Karl Ove Knausgard

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