Dez drogas, de Thomas Hager

Capa de Dez drogas, de Thomas Hager

Não há melhor momento para ler um livro como Dez drogas, de Thomas Hager (Todavia, tradução de Antônio Xerxenesky), do que este. Estamos a toda hora vendo notícias sobre a pandemia, aguardando por uma vacina, pelo momento de poder sair de casa. E o livro de Hager, além de ser uma leitura ótima para os naturalmente curiosos, faz um bom retrato de como a humanidade e a medicina se desenvolveram com a descoberta dos remédios.

Hager é jornalista e autor de outros livros de não ficção que tratam sobre a medicina. Dez drogas, segundo sua introdução, não é uma leitura voltada para médicos ou outros profissionais da saúde – embora eles estejam super convidados a ler. É um livro para leigos, sem termos técnicos, sem linguagem difícil, que conta as histórias por trás das drogas que nos curaram de várias doenças – e criaram outras.

“[…] os remédios causaram efeitos profundos”, ele escreve. “Aumentaram nossa expectativa de vida em décadas e tiveram um papel central no nosso envelhecimento. Mudaram as opções sociais e profissionais das mulheres. Alteraram a maneira como vemos nossa mente, modificaram nossas atitudes em relação à lei, transformaram as relações internacionais e provocaram a guerra.” Não são poucos os motivos para mergulhar nas histórias que Hager reúne. A começar pela primeira droga que ele apresenta: o ópio.

A semente da papoula é usada há milênios pelos homens. Mas não só para dar aquele barato, embora esse efeito seja bem desejado também. O que Hager conta é como o cultivo da papoula para a produção do ópio foi fundamental para acabar com as dores das pessoas. O ópio acalma, é um forte analgésico, e de quebra ainda te deixa felizinho. Mas tem seu preço: o vício. Podemos dizer, então, que o governo britânico, em busca de um produto para comercializar com os chineses, foi bem filho da puta em viciar a população da China em ópio – e aí está seu impacto social e histórico mais famoso. Conforme o ópio foi se popularizando, o vício se espalhou e transformou o uso da droga em questão social, política, econômica e de saúde.

As drogas que Hager apresenta logo a seguir estão conectadas ao ópio, pois sugiram justamente da busca por uma alternativa que diminuísse a dor e não viciasse. Drogas derivadas do ópio ou com elementos sintéticos que prometiam ser melhores, mais fortes e não viciantes, mas se mostraram iguais ou piores, como a morfina ou a heroína – que era usada, aliás, para curar a tosse. O que evidencia algo muito importante que o autor fala ao longo do livro: “nenhuma droga é boa, nenhuma droga é má. Todas são ambas as coisas”.

Há muito da evolução científica em Dez drogas. Apesar de não se aprofundar em termos da química ou da farmacologia, ele explica muito bem como aos poucos as técnicas e laboratórios foram se aprimorando e descobrindo novos remédios. Mas, ao mesmo tempo, muitos medicamentos que usamos hoje ou usamos no passado foram descobertos acidentalmente, quando os pesquisadores estavam procurando por outra coisa. A criação de novas drogas parece um negócio meio caótico, apesar da ciência ser exata e exigir extremo cuidado. Mas quantas substâncias manipuladas não foram colocadas no mercado com irresponsabilidade, sem se ter ideia dos efeitos que poderiam causar?

E é aqui que o autor apresenta o que se chama Ciclo Seige: um remédio novo e incrível é criado e amplamente usado. Logo depois, vários alertas sobre seu uso começam a surgir. Por fim, chega-se a uma maior compreensão sobre seus efeitos e o uso se estabiliza. Cada nova droga colocada nas farmácias acaba passando por esse ciclo de euforia e medo. Porque é isso: nenhuma droga é boa, nenhuma droga é má. Podemos ficar super empolgados com um novo remédio até ver o que seu uso pode nos causar a longo prazo.

É costurando o avanço científico com essas descobertas e as doenças que nos acometeram que Dez drogas fala da vacina para a varíola, uma das doenças mais mortíferas que tivemos que enfrentar; dos tranquilizantes e ansiolíticos, que trouxeram calma e sanidade para milhões de pessoas internadas em manicômios por quase toda a vida; do anticoncepcional, que permitiu que mulheres tivessem mais liberdade sobre seus corpos; e dos anticorpos monoclonais e da biotecnologia, que atualmente criam remédios especialmente direcionados para as doenças que tratam. Mas uma coisa é certa: o ciclo Seige continua girando, e ainda temos muito a entender sobre o nosso corpo.

Hager também faz a sua crítica à indústria farmacêutica que, como ele bem diz, é um dos mercados mais odiados do mundo. A forma que ele descreveu esse mercado me lembrou muito a maneira com que as editoras funcionam. Pesquisar e desenvolver um remédio custa dinheiro, muito dinheiro. E para continuar funcionando e financiando essas pesquisas, os laboratórios precisam de um grande sucesso farmacológico de uso contínuo e amplo para pagar as contas. Encontrar esse novo remédio milagroso – e o vender como milagroso – é fundamental para os laboratórios. Assim como uma editora precisa de um best-seller para pagar os livros que vendem pouco. Mas, claro, a indústria farmacêutica fatura bem mais do que o mercado editorial, e de quebra pode botar a vida de milhões de pessoas em risco. A crítica de Hager é direcionada a essa filosofia do dinheiro, de querer fazer as pessoas ficarem reféns de remédios pela vida toda, e da publicidade que coopta médicos e pesquisadores para convencer pessoas a tomarem drogas das quais não precisam – pelo menos não agora.

Voltando ao início do texto, agora é o momento de ler Dez drogas. Estamos passando por uma pandemia, ansiosos e com medo quanto ao que pode acontecer. Imaginando quando uma cura será criada, quando poderemos ser imunizados. Com as histórias que Thomas Hager conta, podemos ver como superamos doenças consideradas incuráveis numa época cientificamente escassa. E talvez até ficar com esperança de que, em algum momento, essa doença vai passar também. Pois novos remédios, drogas e vacinas continuarão surgindo. E até onde elas podem nos levar?


Ficou interessado pela leitura? Encontre aqui Dez drogas, de Thomas Hager.

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