Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia

Capa de Enterre seus mortos

Edgar Wilson trabalha recolhendo restos de animais mortos na beira da estrada. Quem já andou pelas estradas do interior sabe bem o quanto essa cena é comum: gambás, tatus, aves, cachorros, gatos, vacas… Não são poucos os animais que colidem com veículos e que assustam e até matam quem é surpreendido por eles. Mas Edgar não não se preocupa com quem atropela, e sim com o atropelado. Seu trabalho é recolher os animais, não os humanos. Ele é o protagonista de Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia (Companhia das Letras), livro que foi finalista do Prêmio Jabuti.

Enterre seus mortos tem uma narrativa bem curta e direta, assim como parece ser seu protagonista. Edgar Wilson é caladão, seus maiores diálogos se dão com Tomás, ex-padre e colega de profissão – a pessoa que dá a extrema unção aos mortos, humanos ou não, que encontra todos os dias. Pouco se sabe sobre quem ele é, pois não revela nada de sua vida, só sabemos que antes de recolher animais mortos havia trabalhado em um abatedouro. A morte, como ele diz em vários momentos, sempre esteve presente em sua vida.

Mas um dia Edgar Wilson encontra outro tipo de cadáver: uma mulher enforcada em uma árvore prestes a ser comida pelos urubus. Com a falta de viaturas da polícia que parecem ignorar o corpo, ele decide resgatá-lo até que se possa dar um fim digno à mulher. A partir desse ponto, o clima da região parece pesar, como se alguma coisa de errado existisse com aquele lugar.

Vi muita gente colocando Enterre seus mortos na categoria de livros de terror, e de certa forma o terror está sempre presente. Como quando Edgar Wilson comenta que não sente a presença do mal nas estradas que percorre, o que indica que nem o bem está lá. Como se as duas forças que equilibram o mundo tivessem abandonado de vez a região, deixando a todos e permitindo que tudo pudesse acontecer. E é esse o clima que o livro passa, que esse canto do interior brasileiro é abandonado, hostil e todo mundo está acostumado com isso.

Porém, não consigo colocar ele numa categoria de terror mais “tradicional”, daquela coisa de dar medo ou de colocar as personagens em risco. Durante certo tempo permanece esse mistério dos corpos, quem são e como foram parar lá, mas o desfecho disso é apenas um acaso, sem grande importância para a trama. O que é importante, aqui, é a relação do protagonista com a morte.

“[…] Observava diariamente a vida evoluir para a morte. Para ele, estar na presença de um cadáver o deixava um passo atrás da morte, como se ele não pudesse alcançá-lo, pois assim como o fluxo da vida segue sempre em frente, também o da morte avança.”

O que Edgar Wilson quer é que todos os corpos tenham um fim. Seja parando no moedor de carnes do depósito que recebe os animais mortos, seja enterrando alguém em uma cova rasa. Apesar do jeito taciturno, ele se empenha em buscar por essa dignidade para quem não está mais aqui para pensar nisso. Porque ele mesmo pensa que, quando a morte o pegar, ele não vai querer terminar sendo comido por urubus ou tendo seus órgãos vendidos para estudantes de medicina. Ao lidar com a morte, Edgar Wilson – e Tomás também – demonstra ter um respeito grandioso pela vida.

Enterre seus mortos foi uma leitura diferente da que eu pensei que seria, mas que gostei justamente por não ser o esperado. Ana Paula Maia cria muito bem esse ambiente desolado onde tudo parece ter sido deixado para trás. Há uma decadência humana, social, mas há pessoas como Edgar Wilson e Tomás que trabalham para que, pelo menos no fim, os mortos tenham algum tipo de respeito. Não podemos fugir da morte ou ignorar a sua existência, largar os corpos num canto e esquecer que eles existem. Precisamos lidar com nossos mortos de frente. E enterrar aquilo que já acabou.

“[…] Só uma coisa realmente o apavora: morrer sozinho e ser deixado para trás. O medo da própria destruição é inato a todo animal. O medo de Edgar vai além: é esse medo de ser devorado por abutres, comido ao ar livre por vermes necrófagos, de ter sua carne exposta ao vexame.”


Ficou afim de ler? Encontre aqui Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia.

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