A vida mentirosa dos adultos, de Elena Ferrante

Capa de A vida mentirosa dos adultos

Sim, já recebi e li o novo livro de Elena Ferrante, A vida mentirosa dos adultos (tradução de Marcello Lino). A edição que comprei foi a do clube de assinatura Intrínsecos, da editora Intrínseca, que lançará o livro no formato padrão em setembro. Quando anunciaram um novo livro de Ferrante, nem me atentei muito sobre o que ele seria. Era Ferrante, já queria, e foi assim mesmo que comecei a leitura, sabendo pouca coisa.

Narrado por Giovanna, o romance explora conflitos familiares e a transformação de uma menina em adolescente. Tretas de família são constantes na obra da autora, como foram na Tetralogia Napolitana, em Dias de abandono e A filha perdida. Aqui não é diferente: o cenário é uma Nápoles do século passado, dividida entre os que moram nos bairros pobres a aqueles dos bairros mais abastados. Esse conflito começa quando a protagonista, aos 12 anos, ouve uma conversa em que seu pai, Andrea, diz que a filha está ficando feia, cada vez mais parecida com Vittoria.

Vittoria é tia de Giovanna. De origem humilde, Andrea deixou os bairros industriais de Nápoles e se tornou professor. Casado com uma mulher também professora, criaram Giovanna na parte alta da cidade, longe dos familiares que ele deixou para trás. Por conta dos desentendimentos do passado, ele e Vittoria nunca mais se falaram, e Giovanna conhece pouco dessa mulher que, na visão deles, é feia, ignorante e malévola. O comentário do pai afeta muito a protagonista, antes sempre elogiada por ele, de quem recebia mimos e carinhos. É o momento em que Giovanna percebe que, talvez, não será uma menininha para sempre.

“Eu, por outro lado, escapei para longe e continuo a escapar também agora, dentro dessas linhas que querem me dar uma história, enquanto, na verdade, não sou nada, nada de meu, nada que tenha de fato começado ou se concretizado: só um emaranhado que ninguém, nem mesmo quem neste momento escreve, sabe se contém o fio certo de uma história ou se é apenas uma dor embaralhada, sem redenção.”

Mantida longe das origens do pai e de sua família, Giovanna decide conhecer Vittoria. Sua curiosidade é ver de perto se realmente ela é uma mulher tão desprezível, se é feia. Mas ao encontrar a tia, ela conhece uma mulher linda, energética e que a trata com igualdade. Neste primeiro encontro, Vittoria ataca seus pais, que se consideram tão superiores por terem estudado e por viverem num lugar mais nobre da cidade. Chama eles de ignorantes por darem valor a coisas materiais e à aparência – zomba, até, das roupas cor-de-rosa que Giovanna usa. Conta para a sobrinha em detalhes sua grande história de amor com Enzo, um homem casado de quem se separou por culpa do irmão. E alerta a menina a observar atentamente os pais, para enxergar o que eles escondem por trás de toda a educação e do italiano bem falado. É o embate entre a miséria e os intelectuais que Ferrante tanto explorou na sua tetralogia: tudo o que é considerado culto ou intelectual é, para Vittoria, um sinal de falta de caráter.

Personagens como Giovanna estão neste momento da vida em que tudo é uma descoberta, e as certezas não existem mais. As mudanças ocorrem com velocidade, a inocência da infância deixa de existir. A transformação da protagonista é representada pela tia Vittoria, que lhe apresenta a um mundo totalmente diferente daquele em que ela cresceu – mas que é, ainda assim, o mundo em que sua história pertence.

O medo da tia se transforma em fascínio. Por mais receosa que esteja com Vittoria, ela não esconde a aproximação que nasce logo no primeiro encontro. Mas nesse ponto da história, a narradora está dividida entre a fidelidade aos pais e a fidelidade à tia que acaba de conhecer. Quer agradar aos dois lados, sendo a aluna educada e estudiosa que seus pais a ensinaram a ser, mas também sendo inteligente e esperta como Vittoria. Quer fazer parte daquele mundo que também é habitado pelos filhos do amante morto da tia, Giuliana, Tonino e Corrado. É como se esse choque de mundos lhe arrancasse uma identidade que ela considerava imutável, e ela sente necessidade de se encaixar nos dois porque se está “esmaecida”, sem uma fisionomia verdadeira. E dessa necessidade também começam as pequenas mentiras que conta para os pais, as amigas, e a própria Vittoria.

A vida mentirosa dos adultos é um livro em que Ferrante explora bastante a sexualidade que desponta na protagonista. Antes mesmo de conhecer Vittoria, Giovanna já tinha suas “brincadeiras” com Angela e Ida, filhas de amigos de seus pais. Quando ouve a tia falar sobre sexo, o jeito que o amante a pegava, o que fazia com ela, Giovanna divide essas histórias com as amigas, e elas fantasiam sobre um futuro em que serão amadas do jeito que Vittoria foi. Conforme vai conhecendo as nuances das relações amorosas, ela passa a enxergar que o casamento dos pais não é nada tranquilo como ela imaginava: nessas observações atentas, Giovanna nota uma faísca de traição, e apesar de não estar certa em suas conclusões, a história acaba ocasionando na separação dos pais – não é spoiler, ok, a narradora já conta isso logo na primeira página. Essa é a vida real dos adultos que Giovanna passa a enxergar, onde eles são tão perdidos e ignorantes quanto uma criança.

A separação é o grande divisor de águas na vida de Giovanna. Da menina de 12 anos que usava rosa, ela vira uma adolescente de 15 anos rebelde que adota o preto nas roupas e trata a todos com grosseria – uma maneira de se tornar, para horror do seu pai, cada vez mais igual a Vittoria. Se os pais esperam que ela estude, ela deixa as tarefas de lado e passa os dias lendo romances e vendo filmes. É o momento em que ela começa a flertar abertamente com homens mais velhos como Corrado, desafiando o próprio corpo a fazer coisas que seus pais reprovariam. Porque é neste ponto da vida que Giovanna perde a confiança em todos os adultos que a rodeiam: os pais, a tia, os amigos dos pais. Aquilo que ela foi ensinada a ver quando criança, a ideia de que os adultos sempre a protegeriam e estão sempre corretos em tudo, se despedaça. A narradora adota um tom desafiador com todas essas pessoas que, antes, considerava serem um exemplo de vida.

“O que se passava, afinal, no mundo dos adultos, na cabeça de pessoas extremamente racionais, em seus corpos carregados de saber? O que os reduzia a animais dentre os menos confiáveis, piores que os répteis?”

Elena Ferrante usa vários elementos de seus outros livros em A vida mentirosa dos adultos. Vittoria, por exemplo, vai lembrar muito a Lila da Tetralogia Napolitana, o comportamento das duas é bem próximo. Porém, Vittoria é mais aberta, fala e briga, enquanto Lila escondia mais seus sentimentos. A Nápoles desse livro é a mesma da tetralogia, com a miséria dos pobres e as hipocrisias dos intelectuais. Mas Giovanna é bem diferente de Lenu. Giovanna é ativa, toma as rédeas de suas ações, é mais esclarecida. E acho que isso enriquece muito a história, porque por mais que ela seja ingênua no começo, é nítido o crescimento que ela tem no decorrer da trama.

Giovanna chega perto de se tornar destrutiva, abominando tudo o que as pessoas consideram ser saudável: ter um namorado, casar, ter filhos. Ao mesmo tempo em que quer experimentar o sexo e conquistar o amor – principalmente quando aparece Roberto, noivo de Giuliana –, ela também desenvolve certa repulsa aos homens. Pois o homem que tinha como exemplo, seu pai, não era aquilo que ela pensava que fosse. Tonino é fraco demais, Corrado ignorante demais. A verdade é que o amor, para Giovanna, é algo que não é tão claro como nos romances que devora. Como lhe diz Vittoria, “o amor é opaco como os vidros das janelas dos banheiros.”

A vida mentirosa dos adultos já é um dos meus preferidos de Ferrante. Gostei da evolução da narradora, na maturidade que vai conquistando através dos capítulos curtos. Gostei da honestidade com que Ferrante escreve sobre esse período da adolescência em que você ainda está num limbo: não é novo demais para ser criança, mas nem velho demais para saber das coisas. Giovanna se equivoca muito, claro, mas não mais que os adultos de sua vida. E ao saber disso, começa a traçar um caminho que é diferente tanto do dos pais quanto do da tia. Os adultos não são melhores que os adolescentes, não sabem, necessariamente, mais do que eles. E de filha obediente Giovanna se transforma em uma garota que sabe tomar as próprias decisões e não vai abrir mão do que quer por causa de amigos, do pai, da mãe ou da tia. O livro termina como se ela tivesse conquistado uma liberdade, sem depender mais da aprovação dos adultos e não sendo mais arrastada pelas mentiras deles.


A vida mentirosa dos adultos será lançado pela Intrínseca em setembro.

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