Falso espelho, de Jia Tolentino

Capa de Falso espelho

Vocês devem ter percebido que as leituras de não ficção andam frequentes por aqui. Ando dando mais atenção a elas, seja por me interessar pelo assunto ou por querer conhecer mais sobre algo específico. Falso espelho (Todavia, tradução de Carol Bensimon) é um desses livros que mais aguardei a leitura. Jia Tolentino apresenta uma série de ensaios que refletem sobre a autoimagem, a internet, o discurso e tudo o que envolve nos expor e consumir conteúdos online. Além disso, traz boas questões sobre como enxergamos as mulheres nessas e em outras plataformas – como a literatura.

O primeiro ensaio, “O eu na internet”, é um dos que considerei mais importante no livro. Partindo de lembranças de seus primeiros anos como usuária da internet, a jornalista te leva ao passado onde tudo era ainda mato: os perfis em redes sociais pré-Facebook, os blogs pessoais, os sites construídos no GeoCities. E conforme os anos passam, mostra como nossa relação com a internet foi aumentando – e como a própria internet se tornou algo intrínseco à nossa identidade. E, por isso mesmo, aprimoramos diariamente nossa vida dentro dela.

“Mesmo quando nos tornamos cada vez mais tristes e feios na internet, a miragem do nosso melhor eu virtual continuou a brilhar. A internet é um meio em que o incentivo à performance é inerente. No mundo real, você pode simplesmente andar por aí e ser visível; para que os outros o vejam, você precisa agir, precisa se comunicar caso deseje manter uma presença virtual. E uma vez que as plataformas mais relevantes são construídas em torno de perfis pessoais, pode parecer – primeiro em nível mecânico, depois como um instinto codificado – que o principal objetivo dessa comunicação é fazer com que você pareça interessante. Os mecanismos de recompensa online imploram para substituir os offline, e então os ultrapassam. É por isso que todo mundo tenta parecer tão lindo e viajando no Instagram; é por isso que todo mundo se comporta de forma tão orgulhosa e triunfante no Facebook; é por isso que, no Twitter, fazer uma declaração política justa, para muitas pessoas, tornou-se um bem político em si mesmo.”

Esse trecho, que termina falando que postar no Twitter é um ato político em si mesmo, é uma das questões mais importantes desse ensaio. Para Tolentino, o discurso na internet atingiu um nível igual ao de uma ação fora dela. Para muitos usuários, se posicionar é uma maneira de atestar sua validação moral, sua sensatez, mesmo se isso não signifique que, na “vida real”, isso seja realmente praticado. Aliás, cada vez mesmo me refiro ao mundo offline como “vida real”. A internet já está tão arraigada no nosso cotidiano – no trabalho, na nossa comunicação, em tudo – que o que acontece nela é, sim, a vida real. Mas como a autora deixa claro, somos muito mais performáticos nas redes sociais do que fora delas. Porque essa é a lógica de funcionamento desses espaços: você precisa ser interessante, você precisa aparecer, você precisa despertar um anseio. Seja o anseio de consumir o que um influencer indica ou de se revoltar com algum conteúdo. Na internet, todo mundo reage. Gerar indignação também é um ato que se tornou tática política.

Um produto característico da nossa geração são os reality shows. Em “Entrando em um reality show”, Jia Tolentino comenta sobre sua experiência de adolescente de participar de um reality de competição entre meninos e meninas. Durante algumas semanas, quando tinha 16 anos, ela viveu em uma ilha paradisíaca com outros jovens e construía, lá dentro, uma personalidade que se adequasse aos perfis propostos pelo programa. É, também, um resgate de sua memória, já que nunca havia visto o reality show quando adulta. Neste ensaio, ela mostra como todos querem ter, de alguma forma, alguns minutinhos de fama, e como consumimos incessantemente esses programas mesmo sabendo que nem são tão reais assim. Observamos a vida do outro o tempo todo, nesses programas ou nas redes sociais. Ansiamos pela vida real.

Um dos meus ensaios preferidos é “A otimização constante”. Ao falar da prática de exercícios e de todas as tentativas de se manter ativa – yoga, barre –, Tolentino reflete sobre um mercado de otimização das mulheres. Um negócio que diz a todas nós que precisamos ser melhores em nossos corpos e em nossas atitudes – uma otimização constantemente vendida pelas grandes influencers. Das roupas de ginástica ao self care, ainda somos cobradas pela nossa aparência, mesmo em uma sociedade que aceite mais as diferenças. É a busca pela “mulher ideal”, que faz tudo e dá conta de tudo e ainda continua linda.

“A mulher ideal, em outras palavras, está sempre se otimizando. Ela tira vantagem da tecnologia tanto da maneira de transmitir sua imagem quanto por meio do meticuloso aprimoramento dessa imagem. […] Tudo nessa mulher foi controlado a ponto de permitir uma imagem de espontaneidade e, mais importante, uma sensação disso; tendo se esforçado para se livrar dos obstáculos da vida, ela com frequência se sente despreocupada de maneira legítima.”

Com todo esse discurso feminista, o mercado se apropriou dessas novas exigências das mulheres por mais igualdade e respeito e o virou a seu favor. É um “feminismo convencional e simpático ao mercado”, em que produtos de beleza são tratados como self care, em que autocuidado virou sinônimo de ir ao salão, fazer as unhas, tomar um banho – e não necessariamente cuidar da saúde ou fazer terapia. É um feminismo que não entra em embate com questões “difíceis”, porque ele tem que alcançar o maior número de pessoas. Um feminismo que nos diz o que consumir, com o que se preocupar e, principalmente, com o que gastar. Como ela bem diz, “quando você é mulher, as coisas de que você gosta são usadas contra você. Ou, na verdade, as coisas que são usadas contra você foram prefiguradas como coisas de que você iria gostar. A disponibilidade sexual se enquadra nessa categoria, assim como a bondade básica e a generosidade. Desejar a beleza, e ter prazer na busca por ela, também faz parte dessa categoria”. Mulheres que seguem isso são as recompensadas pela sociedade, pois ainda estamos presas entre o capitalismo e o patriarcado. A própria autora enxerga que ela mesma, muitas vezes, se beneficiou com isso.

Uma das frases que mais me marcaram nesse ensaio foi que “na vida real, as mulheres são muito mais obedientes”. Neste trecho, Jia Tolentino elencou vários filmes ou livros em que personagens se rebelam contra seus criadores: Frankenstein, Hal-9000, os robôs de filmes como Ex-Machina. E nós, as mulheres reais, como nos rebelamos? Pouco, e ainda seguimos usando aquilo que, em alguma medida, nos explora e oprime.

Essas exigências quanto ao comportamento feminino também são analisadas no âmbito literário. “Heroínas puras” é o texto em que Tolentino fala de sua relação com as personagens literárias que marcaram sua vida de leitora. Dividido entre as leituras da infância, adolescência e vida adulta, ela cria um panorama de comportamentos esperados ou transgressores dessas personagens que se tornaram um exemplo de comportamento.

“Meu relacionamento com protagonistas femininas mudou drasticamente na adolescência: as heroínas da infância me mostraram quem eu queria ser, mas as heroínas da adolescência me mostraram quem eu tinha medo de me tornar: uma garota cuja vida girava em torno do fato de ser desejável, e que era interessante na medida em que sua vida parecia fora de controle.”

As personagens dos livros infantis eram aventureiras, curiosas, enquanto aquelas de sua adolescência só tinham uma história ao se envolver com algo – geralmente um homem – extraordinário, como a Bella de Crepúsculo. Já na vida adulta, as coisas não ficam muito melhores: não faltam livros sobre mulheres preocupadas com a família, com a carreira, com paixões, mulheres que não têm mais aquele encantamento das heroínas de sua infância. Tudo é difícil e complicado. E apesar desse ser um dos ensaios mais pessoais, é possível enxergar o que Tolentino fala em minha própria experiência de leitora. Como uma mulher solteira que não espera se casar ou ter filhos, como é difícil encontrar histórias onde o objetivo da protagonista mulher não gire em torno de um homem ou da maternidade.

A questão da mulher também aparece nos ensaios “Com temor, eu te deposo”, um ótimo texto sobre o casamento e toda as tradições inventadas para a construção desse mercado de bilhões – o mote do texto é a falta de vontade da autora em se casar, e como sempre é questionada por isso. Aparece em “O culto da mulher difícil”, sobre a indisciplina de mulheres como Lindsay Lohan ou Britney Spears (de 2007) e como a cobertura midiática nos fez amar essas mulheres que não seguem a linha. Mas, como ela bem alerta, “a indisciplina também é frustrantemente ampla e amorfa. Tantas coisas são consideradas nas mulheres como fora das regras, de maneira que uma mulher pode parecer indisciplinada por simplesmente existir sem tem vergonha de seu corpo; indisciplinada apenas por seguir seus desejos, não importando se esses desejos são libertadores ou comprometedores ou, mais provavelmente, uma combinação dos dois”.

Em “Viemos da velha Virgínia”, a autora se volta para a exposição de crimes e abusos contra a mulher, partindo de uma análise de casos de estupro na própria universidade onde estudou. A partir de uma matéria publicada na Rolling Stone que expunha casos de estupro ignorados pela universidade ou pela polícia – uma matéria que, depois, confirmou-se cheia de problemas –, ela reflete sobre o sistema de irmandades, a impunidade de seus membros, a inércia de professores e reitores e, por fim, em como as coisas começaram a mudar daquele tempo para cá, com a mídia dando mais crédito às denúncias e enfrentando esses sistemas – como no caso de Epstein e Harvey Weinstein.

E ainda tem “Êxtase”, em que faz um paralelo entre a religião e o uso de drogas – ela estudou em uma escola católica, cresceu em uma família católica, mas ao entrar em contato com drogas como a maconha e o ecstasy percebeu como a “êxtase religiosa” está bem próxima dos efeitos alucinógenos causados por substâncias naturais ou químicas. É um texto interessante, mas que não falou tanto assim comigo.

Falei um pouquinho de cada ensaio, mas ainda falta um, “A história de uma geração em sete golpes”. É uma espécie de linha do tempo que nos leva até o resultado das eleições de 2016, que elegeram Donald Trump, e evidencia como os golpes são aclamados e também vistos como o único jeito de se “vencer na América”. Jia Tolentino aborda o fiasco do Fyre Festival, da garota que enganou toda Nova York dizendo ser uma princesa europeia, relembra a explosão da bolha imobiliária que quebrou bancos e deixou muitas famílias sem casa – enquanto os bancos foram salvos pelo governo. Fala dos empréstimos estudantis, da “Girl Boss”, do Facebook, de como o discurso nas redes sociais é distorcido, até chegar a Trump e seus negócios falidos e a eleição presidencial. É um dos ensaios mais pessimistas da autora, um balde de água fria em quem tenta, ao máximo, fazer as coisas do jeito certo. E que conversa muito com a realidade brasileira também, em que a cultura do “jeitinho” prevalece e todos são contra a corrupção, mas comentem pequenas corrupções diariamente para sair por cima. O certo não compensa. O golpe, sim.

Falso espelho já é uma das minhas melhores leituras do ano. Precisamos de livros como esse para entender um pouco o que estamos fazendo da nossa vida na internet. Para entender como chegamos aqui nesse cenário de notícias falsas e desconfiança generalizada. Para entender como consumimos os conteúdos que chegam até nós, em como nos portamos e nos mostramos para o mundo. Acredito que todo mundo que use minimamente a internet precisa refletir sobre esses temas. É comum criticarmos o sucesso de um influencer que vive de discursos polêmicos, mas ele não teria toda essa visibilidade se não a déssemos a ele. Precisamos entender que somos nós quem fazemos, também, a internet. Como nos apresentamos dentro dela e o que consumimos faz parte da construção dessa cultura da imagem.  

“O problema é que um feminismo que privilegia o indivíduo sempre estará, em sua essência, em desacordo com um feminismo que prioriza o coletivo. O problema é que, hoje, é muito fácil para uma mulher se apossar de uma ideologia na qual ela acredita e então explorá-la ou difundi-la de uma maneira que acaba, na verdade, por ir contra essa mesma ideologia. De fato, isso é exatamente o que, hoje, o ecossistema do sucesso incentiva uma mulher a fazer.”


Ficou afim de ler? Encontre aqui Falso espelho, de Jia Tolentino.

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