Mulher, solteira e feliz, de Gunda Windmüller

Capa de Mulher, solteira e feliz

Li Mulher, solteira e feliz, de Gunda Windmüller (tradução de Petê Rissati) a convite da Primavera Editorial para o lançamento do livro aqui no Brasil. Uma leitura que chegou no tempo certo e que tem tudo a ver comigo e o que estou vivendo agora. Eu tive poucos namoros na vida e estou solteira há quase 10 anos. Por muito tempo achei que havia algo de errado comigo por estar solteira por tão longo período – e não vou mentir que, às vezes, ainda penso isso. Também não tenho grandes pretensões de, um dia, me casar, e a cada dia penso que o único futuro possível para mim é ficar solteira para sempre. E eu não vejo isso como algo ruim.

Windmüller é uma jornalista alemã de trinta e poucos anos – eu vou fazer 31 no próximo mês – e pensa, basicamente, como eu. Essa identificação aparece logo na introdução do livro, em que ela resume rapidamente o tema que quer discutir: é possível, sim, estar sozinha e feliz, e precisamos mais do que nunca de narrativas de mulheres que estão muito bem resolvidas com isso. Nos capítulos que se seguem, ela vai trazer diversos exemplos históricos, sociais e da cultura pop que mostram como as mulheres ainda são “obrigadas” pela sociedade a namorarem e se casarem. Por isso um livro como esse pode ser visto como uma libertação para quem, como eu, prefere estar solteira a estar com alguém.

Dividido em três partes, o livro trata do amor, das convenções sociais, da opressão da mulher, das expectativas que a sociedade tem sobre a gente e do papel que quer que desempenhemos. Trata de sexo, família e amizade, e como uma mulher solteira lida com tudo isso. Importante dizer que o recorte feito pela autora é baseado em relacionamentos heterossexuais, embora algumas coisas sejam válidas para os LGBT também. Mas o mais importante, para mim, foi ver como toda essa história de romantismo, casamento e união é muito mais uma construção social e econômica do que, realmente, algo que faça parte do ciclo da vida.

Uma das coisas que Mulher, solteira e feliz deixa bem evidente é que as mulheres são muito mais cobradas sobre relacionamentos do que os homens. São cobradas a se relacionarem, a consumirem o amor, a procurarem pelo “cara certo”, a buscarem pelo casamento como se esse fosse, ainda, o ponto alto de sua vida. São as mulheres os maiores alvos dessa indústria do amor que vende revistas que ensinam você a conquistar o homem que ama, a se vestir assim ou assado para passar essa ou aquela impressão, a entrarem em aplicativos para sair da solteirice e, quem sabe, encontrar sua alma gêmea. São elas as maiores consumidoras de livros de autoajuda que prometem te ensinar a arranjar um namorado. São elas as telespectadoras de incontáveis filmes e séries românticos que ainda retratam mulheres em busca do casamento. E são elas, também, as maiores “vítimas” do que Windmüller chama de single shaming.

O single shaming é uma coisa enraizada na nossa cultura. Ele não é necessariamente um ataque doloroso à vida que a mulher solteira escolheu viver, mas sempre vem embalado em forma de preocupação em pequenas frases ditas por amigos e familiares quando você diz que está solteira. “Ah, não se preocupe, o cara certo vai aparecer”. “O amor é assim, uma hora acontece”. “Você ainda vai encontrar alguém bacana”. Ao falar de suas interações com amigas casadas, a autora deixa evidente como esse tipo de reação à solteirice é uma espécie de passada de mão na cabeça que busca consolar a mulher sozinha, mas só a coloca numa situação vergonhosa. Quem disse que eu preciso do cara certo? Quem falou que eu quero encontrar um homem e dividir a vida com ele? Por que eu sou obrigada a querer um relacionamento sério?

Volto a falar de mim, eu não procuro um relacionamento sério. Obviamente quero um homem legal com quem passar um tempo junto, mas isso não quer dizer que eu queira dividir toda a minha vida com ele. E só o fato de eu estar tranquila e feliz nesse lugar que ocupo parece que é ofensivo para quem ainda acha que uma pessoa só é completa quando encontra um parceiro. Entendo que ainda crescemos em um mundo que diz que a vida é nascer, estudar, trabalhar, casar, ter filhos e morrer, e que leva tempo para se desfazer desse pensamento. Mas, de novo, esse é um padrão que é empurrado principalmente para as mulheres. Gunda Windmüller fala como a mulher de trinta e poucos anos solteira é vista como uma triste pessoa desesperada e desolada, cuja validade está acabando e, se não arranjar alguém agora, ficará sozinha para sempre. Enquanto os homens são vistos como caras viris que estão aproveitando o melhor momento de suas vidas. Há uma construção social horrenda por trás disso, que sempre visa diminuir e oprimir a mulher.

Outro ponto importante levantado pela autora é que o casamento é, na maioria das vezes, um mal negócio para a mulher – e como querem empurrar relacionamentos para a gente, fazendo parecer que isso é a coisa mais importante que podemos querer na vida, enquanto na verdade estão nos empurrando para uma convivência desigual. Por mais desconstruído que um homem seja, o grosso da responsabilidade do casamento ainda cai nos ombros da mulher. Ela ganha menos, ela trabalha mais. Ela descansa menos, ela tem mais responsabilidades. Ela é mais propensa a sofrer violência doméstica. E o homem, nessa conta, fica com a maior parte dos benefícios do matrimônio. Não é por pouco que mulheres de países como o Japão e a Coreia do Sul estão cada vez menos se casando: elas sabem que, naquela cultura que ainda guarda muitas ideias do século passado, casar significa abrir mão da carreira e, às vezes, da própria individualidade.

Obviamente existem relacionamentos saudáveis e que funcionam. Mesmo aqueles que acabam, porque nada é para sempre. Windmüller não é contra casamentos ou relacionamentos. Mas percebo que as mulheres hoje estão perdendo, aos poucos, a paciência com os homens que ainda precisam aprender muito sobre parceria e, bem, o que significa um relacionamento. Não estamos mais na época em que o papel da mulher era cuidar da casa, dos filhos e do marido. Não queremos mais ser serviçais. E em 2020 ainda topamos com homens que não são capazes de fazer o mínimo para serem, sei lá, funcionais. Quem vai querer o estresse de entrar num relacionamento com alguém assim? Quem vai querer ter que lidar com as emoções e problemas psicológicos dos outros quando já tenho meus próprios problemas para lidar?

“Mas você vai envelhecer sozinha, não vai ter ninguém para cuidar de você?” Essa é outra questão que a mulher solteira escuta, e aí Windmüller lembra que uma mulher solteira não é uma mulher sozinha. Ela tem amigos, ela tem família. Ela não é um ser vivo enjaulado sem contato social, como muitos parecem pensar – enquanto, na verdade, é muito comum que casais se fechem e interajam menos com outras pessoas. Existem outros tipos de relacionamentos, outros tipos de afeto, que são tão importantes e recompensantes quanto um relacionamento romântico. Estar solteira não é sinônimo de solidão.

Mulher, solteira e feliz é uma leitura que recomendo para quem está nesse mesmo estágio que eu: anos solteira, sem nem conseguir mais pensar em o que é ter um relacionamento. Ou para quem acabou de sair de um e se sente meio perdida. Gunda Windmüller equilibra muito bem as referências pop, como Sex and the City e O diário de Bridget Jones, com dados de pesquisas e contextos históricos que deixam claro como toda essa coisa de casamento e amor foi construída e empurrada para cima das mulheres. O principal objetivo da autora é querer desconstruir esse tipo de narrativa, deixar claro que somos totalmente capazes de sermos felizes com nós mesmas.


Ficou afim de ler? Encontre aqui Mulher, solteira e feliz, de Gunda Windmüller.

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