O amigo, de Sigrid Nunez

Capa de O amigo, de Sigrid Nunez

Histórias sobre suicidas têm um certo apelo para mim. Houve uma época, anos atrás, que eu estava numa fase de ler só sobre suicídios: As virgens suicidas, do Jeffrey Eugenides; Norwegian Wood, do Haruki Murakami; Suicídios exemplares, do Enrique Villa-Matas. O que talvez diga muito sobre o meu psicológico daqueles dias. Sempre fui voltando para essas histórias, mas com parcimônia. A desse ano foi O amigo, de Sigrid Nunez (Editora Instante, tradução de Carla Fortino), vencedor do National Book Award de 2018.  

Nunez é uma autora com vários livros publicados, mas este é seu primeiro a ser traduzido aqui no Brasil. Narrado por uma escritora de meia-idade, é sobre o luto após a perda do melhor amigo, também escritor e um pouco mais velho do que ela. Se conheceram em uma de suas oficinas literárias e engataram uma daquelas amizades baseadas em discussões intelectuais e companheirismo que durou pela vida toda. Desolada com o suicídio do amigo – ele não deixou nenhum bilhete de despedida –, a narradora relembra conversas, acontecimentos e leituras não só para tentar entender o que pode ter acontecido, mas também para manter a sua memória viva.  

Nas palavras da escritora, o amigo era um homem inteligente e mulherengo. Não tinha vergonha de seduzir as alunas de sua classe de escrita criativa. Foi casado por três vezes, e uma das mulheres morria de ciúmes da amizade que eles tinham. Era um homem que parecia não pertencer mais a esse mundo, pois mantinha hábitos e pensamentos que hoje seriam tratados como machistas, abusivos. Ela não doura a pílula para o amigo, mas também não se foca em seus defeitos. A dor maior é pelo companheirismo que tinham, como se ele fosse a pessoa mais importante da sua vida – e era.  

“Não fui a única que cometeu o erro de pensar que, por ser algo de que você falava muito, era algo que não faria. E, afinal, você não era a pessoa mais infeliz que conhecíamos. Nem era a mais deprimida (pense em G., D. ou T. R.). Nem mesmo era – por mais estranho que pareça dizer isso – a mais suicida.” 

Além de ter que lidar com o luto, ela recebe da Esposa 3 desse amigo a responsabilidade de cuidar de Apolo, um dogue alemão de mais de 80 quilos que foi adotado por ele anos antes. Mesmo correndo o risco de ser despejada do seu apartamento, ela aceita a tarefa e passa a conviver com esse animal imenso e tão triste quanto ela. Apolo é uma lembrança viva de quem foi o amigo, e o objetivo da narradora passa a ser, então, tentar deixá-lo feliz. Dar a ele um resto de vida boa.  

Sigrid Nunez é bem direta na narrativa, que não escorrega em nenhum momento para o sentimentalismo. A dor da narradora é forte, mas são as lembranças de todas as discussões sobre livros e arte que acabam colocando sua tristeza em um patamar mais racional. Assim como suas experiências com o sofrimento dos outros – ela dá aula de escrita criativa para mulheres vítimas de tráfico humano. Por isso mesmo são inúmeros os escritores e livros citados em O amigo: Virginia Woolf, Milan Kundera, Marguerite Duras, Elizabeth Bishop, Tolstói, Ernest Hemingway e muitos outros.  

Essa narradora fala muito sobre o ambiente intelectual em que os dois viviam, e eu gostei da maneira com que ela retratou esse lugar como altamente competitivo e desolador. Como diz em um trecho em que fala sobre a inveja, a falta de amizade e a comparação constante com os outros, “se a leitura realmente aumenta a empatia, como nos dizem com frequência, parece que o ato de escrever leva um pouco dela embora”. Os escritores são mesquinhos, pensam só em si mesmos e nas próprias obras, desprezam aqueles que conquistam um pouco de sucesso, são fechados e complicados. Pelo menos nesse mundo altamente literário.

Há uma ótima discussão, também, sobre os rumos que a ficção vem tomando: a necessidade de representatividade nos livros, o desprezo e a vergonha que há no ato de escrever, a falta de vontade de ler mais uma história escrita por um homem-branco-hétero-cis-da-cidade-grande. O amigo certamente era da categoria daqueles escritores que não nos interessam mais, não dialogam com o tempo atual, e ele se ressentia por isso.  

“Para se tornar um escritor profissional em nossa sociedade, você tem que ser privilegiado desde o início, e o sentimento é de que as pessoas privilegiadas não deveriam mais estar escrevendo… a não ser que encontrem uma maneira de não escrever sobre si mesmas, porque isso só aumenta a supremacia branca e o patriarcado em evidência. Você zomba, mas não pode negar que escrever é uma atividade elitista e egoísta, realizada para chamar a atenção e se promover no mundo não para tornar o mundo um lugar mais justo. É claro que há de existir certa vergonha associada a ela.”  

A narradora de Sigrid Nunez faz uma reflexão lúcida sobre a morte, a amizade e o meio literário, tudo isso costurado com a sua vocação para a escrita. O amigo é, mais do que tudo, uma história sobre o lugar da escrita nas nossas vidas. Apolo e a narradora não esperam que seu sofrimento pela morte do amigo escritor diminua ou desapareça. Como ela mesma admite, ela não quer superar, pois não quer esquecer quem ele foi e o que tiveram – ou a paixão que ela sempre teve por ele, mas uma paixão além da atração física. “Você escreve alguma coisa porque está esperando resolvê-la”, ela diz. “Você escreve sobre experiências em parte para entender o que elas significam, em parte para não perdê-las no tempo. Perdê-las no esquecimento.” Ao escrever, ela mantém esse amigo vivo, de alguma forma.  


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui O amigo, de Sigrid Nunez.

Leituras relacionadas:
Suicídios exemplares, de Enrique Villa-Matas
The bell jar, de Sylvia Plath

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