Segredos, de Domenico Starnone

Capa de Segredos de Domenico Starnone

Para mim é difícil separar a obra de Domenico Starnone da de Elena Ferrante. Mesmo que os boatos de que os dois autores italianos sejam casados seja apenas isso, boatos, é inegável que seus livros conversam, e muito. Como Laços Dias de abandono, em que um parece ser o contraponto do outro. Durante a leitura de Segredos, seu mais recente romance lançado no Brasil (Todavia, tradução de Maurício Santana Dias), vi elementos de Ferrantes em vários momentos da história. Mas as semelhanças que, no começo do livro, me faziam lembrar Nino e Lila da tetralogia napolitana logo se desfizeram.  

Pietro, o narrador da primeira parte, é um professor de 33 anos de idade que dá aulas de literatura em uma escola da periferia de Roma. Ele engata num relacionamento com Teresa, dez anos mais nova e sua ex-aluna, que é cheio de brigas. Apesar de se amarem ardentemente, eles entram em conflito com a mesma disposição. Entre idas e vindas, Teresa propõe a Pietro que um conte ao outro seu segredo mais obscuro, algo que nunca revelariam a ninguém. Logo após compartilharem esses segredos, o romance misteriosamente acaba, sem brigas.  

Depois do término com Teresa, Pietro conhece Nadia, professora na mesma escola em que trabalha, com quem acaba se casando e tendo filhos. Mas mesmo apaixonado, ele não tira da mente Teresa, mas ao invés de desejo o que ele sente é uma eterna angústia: e se ela, com seu comportamento errante, contar para Nadia, para seus colegas ou amigos, o seu segredo?  

“Tivemos medo que nossas más ações nos perseguissem e se apoderassem para sempre de nós.” 

No começo eu relacionei muito Pietro com Nino: ambos originados de bairros pobres de Nápoles que “cresceram” na vida através dos estudos. Ambos tiveram relacionamentos conturbados, emanam aquela aura de homens preocupados com a sociedade, com os menos afortunados. Ambos com uma certa visão utópica do que o mundo poderia ser. E Teresa, para mim, era como Lila: inconstante, combatente, com uma intelectualidade fora do comum e que não se dobra aos homens. Só que, na verdade, todas essas personagens são bem diferentes.  

Pietro, por exemplo, se transforma num homem exemplar conforme sua fama em Roma cresce. Por conta de um artigo sobre as escolas na Itália, ele passa a ser visto como referência no tema, escreve livros e dá palestras. Mesmo querendo ajudar Nadia com a casa e os filhos, sua carreira acaba sendo prioridade, mas ele se esforça para dar conta de tudo, para não sair da linha — já que seu maior medo não é o que ele pode fazer, mas o que Teresa poderia fazer com ele.  

Na primeira parte de Segredos, que ocupa mais da metade do livro, Starnone desenvolve muito bem essa relação entre o protagonista e sua ex que vivem, agora, separados por um oceano, mas que está constantemente presente em forma de medo. E é isso o que vai deixando a leitura mais interessante: o que o deixa tão amedrontado? Teresa é assim tão má a ponto de, por capricho, querer acabar com a sua vida contando o seu segredo? E que segredo é esse? O que ele também sabe sobre ela?  

Infelizmente, essas perguntas não são respondidas por Starnone, o que foi uma grande decepção para mim. As duas outras partes do livro, uma narrada por Emma — filha mais velha de Pietro —, e outra pela própria Teresa, não oferecem respostas, mas diferentes visões sobre a vida que o professor teve. São capítulos curtos que não chegam nem perto da profundidade que o seu relato inicial teve. Isso porque você vai, realmente, gostando de Pietro conforme sua vida avança. E ver essa história resumida por outras pessoas, por mais próximas dele que elas sejam, não me foi convincente.  

Segredos é, então, um livro que se desenvolveu muito bem, mas que não entregou o que eu esperava no final. Mas literatura é assim mesmo, surpreende para o bem ou para o mal. E o que é bom e ruim é, sempre, muito subjetivo. Recomendo a leitura, claro, mas com a ressalva de que, se você espera grandes revelações — ou uma grande tragédia —, é melhor baixar as expectativas.  

“A gente se apaixona por pessoas que parecem verdadeiras, mas não existem, são uma invenção nossa; essa mulher firme, de frases escondidas, essa mulher sem timidez, cortante, não é a que conheço, não é Nadia. Uma coisa é a pessoa amada, outra é a pessoal real que, enquanto a amamos, nunca vemos realmente. Quanto tempo, disse a mim mesmo, desperdiçamos nas relações amorosas.” 


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Segredos, de Domenico Starnone.

Leituras relacionadas:
Laços, de Domenico Starnone
Dias de abandono, de Elena Ferrante

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