O impulso, de Ashley Audrain

Capa de O impulso

Blythe Connor sonhava em ser mãe, apesar de ter crescido num ambiente familiar com muitos problemas. Tanto a mãe quanto a avó passaram longe de serem mães exemplares. Há anos ela não vê a própria mãe, que abandonou ela e seu pai quando era adolescente. Casada com Fox, vê nessa recém-formada família a oportunidade de poder fazer diferente — de ser uma mãe amorosa, acolhedora, coisa que ela nunca teve. É Blythe quem conta sua história e a história da sua família em O impulso, romance de Ashley Audrain publicado pela Editora Paralela com tradução de Lígia Azevedo. 

No começo já sabemos que algo de muito errado aconteceu com Blythe e sua família. Na véspera do Natal, ela observa a nova família de seu marido. A nova mulher, as crianças felizes, o clima de festa. Ela está sozinha e pronta para deixar na porta da casa um manuscrito contando o seu lado dos acontecimentos dos anos anteriores. E é aí que vamos começar a desvendar o que aconteceu nesta família. 

Blythe e Fox tiveram Violet, uma menina que não era nada do que ela esperava que fosse. Aqui a história me lembrou muito Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver, pois a criança demonstra comportamentos bem parecidos com a psicopatia. Desde bebê, Violet sente desprezo pela mãe, e são vários os sinais que a deixam confusa. O choro incessante da criança que não deixa com que ela trabalhe — uma escritora que não consegue escrever. A falta de carinho e contato físico, pois a menina se esquiva das suas aproximações. Blythe relembra sua infância e, com isso, tenta de todas as formas dar o que gostaria de dar para a filha, mas ao mesmo tempo que sente amor pela menina, ela também sente medo. É o jeito de olhar, seus movimentos, as falas, tudo indica que há algo de “errado” com Violet. São preocupações que a narradora compartilha com o marido, mas como ele é super apegado e carinhoso com a filha, descarta os receios da esposa dizendo que é tudo coisa da sua cabeça. E aqui temos um grande motivo para já odiar esse homem. 

Poucos anos depois Blythe engravida novamente e tem Sam. Ele é tudo o que ela esperava da maternidade: Sam vira o menino dos seus olhos, uma criança amorosa e carinhosa. Ela passa a ter as experiências que não teve com Violet, a sentir o que seria o verdadeiro amor incondicional de mãe. Violet é, também, carinhosa com o irmão, mas sempre tem alguma coisa dizendo para a narradora que algo não está certo, que algo ruim pode acontecer. E, claro, tem Fox reclamando que ela deixou de dar atenção para a filha, que tem claramente um filho favorito, apesar de todos os esforços para que se aproxime mais de Violet. 

O impulso segue bem o modelo do romance de suspense. Esperamos a cada página que algo terrível aconteça, e Audrain vai deixando elementos na trama que aos poucos se encaixam para se transformarem em uma tragédia maior. Sua protagonista lida sozinha com as incertezas da maternidade e seus medos. Porque sua mãe está longe, sua avó, que nunca conheceu, está morta. Tem poucos amigos, no máximo conversa com a sogra, e tem um marido que não a suporta em nada, e ainda tem a pachorra de fazê-la duvidar de suas próprias conclusões. E essa solidão é, para mim, o que há de mais aterrorizante no livro. Mostra como a mulher muitas vezes é desacreditada e não recebe ajuda alguma de quem deveria a ajudar. 

Violet certamente é uma personagem amedrontadora também. Eu, pelo menos, em nenhuma vez duvidei da capacidade da menina de causar algum mal. “Ah, mas é só uma criança”. Sim, uma criança, mas que tem noção de que suas escolhas têm consequências graves e utiliza da sua inocência infantil para, por exemplo, conquistar a simpatia do pai e fazer com que ele duvide da esposa. Toda vez que Violet e Blythe estão sozinhas, eu sentia uma tensão enorme. Audrain conseguiu muito bem transmitir esse medo na leitura. 

Apesar de não ser o estilo de livro que mais leio — um romance de pegada bem comercial, o famoso “não consegui parar de virar as páginas” —, foi um livro que gostei bastante. A construção da trama é boa, o suspense prende, mas o que me pegou mais foi justamente a temática ao mostrar que a maternidade nem sempre é uma benção. Bom livro para ler num final de semana. 


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