Rastejando até Belém, de Joan Didion

Foi um amigo maravilhoso quem me mandou um livro de Joan Didion, Play it as it lays, e me apresentou à ela (obrigada, João <3). Era um romance que se passava em Los Angeles, sobre uma atriz enfrentando diversos problemas pessoais — a depressão, um casamento fracassado, a separação de sua filha. Eu amei o livro, mas não cheguei a resenhar ele aqui. Não me senti apta. Logo depois ele me presenteou com Slouching Towards Bethlehem, seu mais famoso livro de ensaios, e por mais que eu quisesse muito ler, acabei deixando para trás. 

Mas neste ano a Todavia lançou uma edição nova de Rastejando até Belém, com tradução de Maria Cecilia Brandi, e pensei: agora vai. Fico muito mais confiante lendo a tradução do que o original em inglês. Publicado em 1968, é um passeio pelos Estados Unidos dos anos 1960. O livro é dividido em três partes: Estilos de vida na terra do ouro, Pessoais e Sete lugares da mente, que dão conta de diferentes temas e aspectos da vida norte-americana. 

Vou tentar falar dos ensaios que mais me tocaram. Em “Sonhadores do sonho dourado”, Didion apresenta a narrativa de um crime diferente do que conhecemos das histórias de true crime. Ao falar de uma mulher acusada de matar o próprio marido, ela faz um retrato da imagem que as pessoas têm da vida em Los Angeles, de como aquele lugar alimenta sonhos que podem acabar em tragédia. Um lugar com uma aura de esperança, mas também com um clima que leva ao desespero, como neste trecho logo no início do texto: 

“Outubro é o pior mês de ventania, o mês em que é difícil respirar e as colinas ardem espontaneamente. Não chove desde abril. Toda voz parece um grito. É a estação do suicídio, do divórcio e do pavor arrepiante, onde quer que o vento sopre.”

“Romaine Street 7000, Los Angeles 38” é outro texto em que, ao falar de uma personalidade, Didion fala na verdade das figuras que idolatramos e dos nossos desejos. Howard Hughes foi um dos grandes ricaços excêntricos dos EUA, um homem de negócios ligado a Hollywood e que usou de seu dinheiro para realizar os próprios sonhos. Ao falar de seus anos de reclusão, Didion mostra como esse tipo de personagem cresce no nosso imaginário. Pessoas difíceis, complexas, que fogem do normal com seus comportamentos errantes. “O fato de termos tornado Howard Hugues um herói diz algo interessante sobre nós mesmos”, ela escreve, “algo pouco lembrado, diz que a finalidade secreta do dinheiro e do poder nos Estados Unidos não é o que o dinheiro pode comprar nem o poder pelo poder […], mas a absoluta liberdade pessoal, a mobilidade e a privacidade.”

É isso: não há nada que o norte-americano preze mais do que a liberdade. Para falar, para enriquecer, até para se isolar de tudo e de todos e, ainda assim, ser considerado um herói. O dinheiro e o poder não são o fim, mas sim os meios para a liberdade. 

“É impossível pensar em Howard Hughes sem ver o abismo, aparentemente sem fundo, entre o que dizemos que queremos e o que de fato queremos, entre o que oficialmente admiramos e o que secretamente desejamos e, no sentido mais amplo, entre as pessoas com quem casamos e aquelas que amamos. Numa nação que parece valorizar cada vez mais as virtudes sociais, Howard Hughes continua sendo não apenas antissocial, mas brilhante e surpreendentemente associal. Ele é o último homem privado, o sonho que já não admitimos.”

O trecho acima foi escrito em 1967, e como se conecta com 2021. Como podemos, sim, invejar um homem “louco” como Hughes porque ele tem aquilo que não podemos mais ter: uma vida reclusa. Como parece que, lá naquela época pré-redes sociais, Didion previu um aspecto importante da época das redes sociais. Como Jia Tolentino escreveu em Falso espelho, ter um perfil público, hoje, é incentivado e cobrado pela sociedade, mesmo se você é um “ninguém”. Podemos ainda hoje invejar Hughes. 

Na primeira parte do livro, Joan Didion ainda escreve sobre a indústria do casamento de Las Vegas, sobre jovens que fogem para San Francisco em busca da liberdade e caem nas drogas — ensaio que dá o título do livro —, sobre outras pessoas excêntricas que vivem no leste dos EUA. É a parte do livro dedicada aos outros, ao que ela enxerga dos outros. 

E aí vem os Pessoais, os ensaios sobre ela mesma, suas visões e pensamentos. Eu sabia só pelo título que gostaria de “Sobre ter um caderno”, um texto que fala, de alguma forma, sobre seu processo criativo. Desde o ano passado, venho me propondo a escrever mais. Me botei a meta de manter um diário, e acho que, pelo menos agora, venho conseguindo. E como me senti acolhida por Didion quando ela escreveu que “em nenhum momento consegui ter êxito com um diário, minha abordagem da vida cotidiana varia da negligência extrema à simples ausência”. Isso definiu muito bem minha dificuldade de fazer um diário, mas ao contrário de Didion, eu não tenho lá muito talento para escrever sobre alguma outra coisa. 

Mas o que ela anota no seu caderno, então? Coisas que ouve. Coisas que despertam algum pensamento. Coisas que, se outra pessoa ler, não vai entender nada, pois não conhece o contexto das frases, quando e onde foram ditas. Mas ao anotar o comentário de uma pessoa qualquer, Didion lembra de detalhes dessa pessoa, do lugar, do que estava acontecendo no país naquele período. São anotações sobre os outros que despertam pensamentos dela. Como ela diz, “[…] nossos cadernos nos revelam, por mais respeitosos que sejam os registros do que vemos ao nosso redor, que o denominador comum de tudo o que vemos é sempre, de forma transparente e desavergonhada, o implacável ‘eu'”. 

É nessa parte do livro que Didion escreve sobre amor-próprio (“Certa vez, em plena estação seca, escrevi com letras enormes, cruzando duas páginas de um caderno, que a inocência termina quando arrancam da pessoa a ilusão de que ela gosta de si mesma.”), sobre família… E aí vem Sete lugares da mente, textos sobre cidades e regiões vistas sob o olhar da autora. “Minha própria infância foi coberta da convicção de que os melhores momentos vividos já haviam passado fazia tempos”, ela escreve em “Notas de uma nativa”. Eu não poderia me identificar mais com isso. É um texto sobre crescer em Sacramento e sobre a sua infância lá, sobre um tempo que não volta mais e um lugar que vem mudando a cada ano. 

Em “Carta do paraíso, 21º 19’N, 157º 52’O”, ela fala sobre uma viagem ao Havaí e como esse lugar tido como paradisíaco está cheio de marcas de conflitos e guerras. Em “A rocha secular”, apresenta outra visão sobre a ilha de Alcatraz ao visitar a prisão desativada. Em “Adeus a tudo isso”, relembra os anos em Nova York e conta como se apaixonou pela cidade até cansar de seus lugares e pessoas e voltar para o leste. 

Ao falar sobre esses lugares, Didion não oferece um relato histórico ou super detalhado sobre seus pontos turísticos mais visitados ou algo do tipo. São textos sobre como esses lugares, na sua mente, despertam sentimentos bem diferentes daquilo que o senso comum diz que eles são. A lente pela qual Didion enxerga as coisas é um pouco mais escura do que a das outras pessoas. Onde todos veem beleza, ela consegue enxergar algo sombrio, que só poucas pessoas percebem, e é isso o que me fez gostar tanto desses textos. Porque, para mim, ela está mostrando como esses lugares são importantes para ela mesmo com todos os seus defeitos. 

Na introdução de “Rastejando até Belém”, Joan Didion diz que “os escritores estão sempre traindo alguém”. Eu acho que isso é real, mas uma coisa que os escritores não fazem é trair a si mesmos. Eles podem entregar algo que o leitor não espera, mas eles estão entregando aquilo que eles querem. E Didion é muito fiel ao que ela pensa e escreve. Ela pode não dizer o que você pensava sobre Hollywood, a Califórnia, os EUA, mas ela diz muito sobre como todos esses lugares, todas essas pessoas, esses momentos, agiram sobre ela. E essa maneira de olhar o coletivo colocando o individual em perspectiva é algo que gostei muito em seus textos. 


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Feel Free, de Zadie Smith