A estrangeira, de Claudia Durastanti

Capa de A estrangeira

Existe uma coisa na vida que todo mundo procura: encontrar o seu lugar. Ele pode ser onde nascemos, onde crescemos, ou pode estar distante de qualquer um desses locais. Encontrar o seu lugar é se sentir confortável, acolhido, querido por quem está à nossa volta. A estrangeira, de Claudia Durastanti (Todavia, tradução de Francesca Cricelli), é uma história sobre isso. 

Assim como a autora do livro, a protagonista de A estrangeira não tem uma nacionalidade bem determinada, não no seu íntimo. Nascida nos EUA, é filha de imigrantes italianos e, ainda criança, voltou com a mãe para a Itália, vivendo em uma vila no interior do país. Na vida adulta estudou na Inglaterra e sempre vivenciou essa coisa de não enxergar o lugar onde está como a sua casa. Nem perto de sua própria família. 

Mesmo assim, é a família o que mais a conecta ao mundo no início de sua vida. Tanto é que sua narrativa começa com o encontro de seus pais. Da mãe, ouve que ela salvou seu pai de se jogar de uma ponte, e a partir desse encontro passaram a se ver mais vezes até namorarem e se casarem. Do pai ouviu uma história diferente: ele é que a tinha salvado. Mas não importa quem salvou quem: os dois se encontraram, tiveram dois filhos, foram aos EUA, se separaram, voltaram para a Itália. Outra característica importante é que seus pais são surdos,  e foi isso o que os uniu primeiramente. Já ela e seu irmão escutam, e não passam pelas mesmas dificuldades dos pais. 

“Como os cães de estimação da minha mãe, que antes eram dóceis e nos últimos anos enlouqueceram, qualquer coisa que seja tocada por meus pais se adequa à sua decadência, são um rei e uma rainha taumaturgos que, em vez de curar os feridos ou fazer milagres, convencem qualquer criatura na presença deles a se desarticular e abandonar-se à própria possível loucura.”

A surdez tem papel importante no relacionamento familiar. Ambos se recusam a utilizar a linguagem dos sinais, se comunicam de maneira própria, entendem os outros com a leitura dos lábios. Não querem que a surdez os limitem, os coloquem como pessoas diferentes, mas também não “facilitam” a comunicação. E essa comunicação não tão clara cria um ambiente soturno e uma preocupação dos filhos com o bem-estar dos pais. Mas estar com eles, apesar dos fortes laços, não transmite aquele conforto. São muitas as variações de humores, os problemas, as preocupações que os filhos têm. Desde a infância até a vida adulta. Não é uma relação fácil, mas não é, também, de toda triste. “Não há um só ato de violência na minha vida”, afirma, “do qual eu possa me lembrar sem dar risada”. 

A protagonista de Durastanti é uma estrangeira não importa onde esteja: em Nova York, onde nasceu e passou a infância, ela é a filha da surda, da italiana que não fala inglês direito. Tem sotaque e se recolhe para não ser motivo de riso. Na vila italiana, é uma estrangeira por ter vivido numa cidade grande em outro país, e se recolhe, também, para não ser vista como esnobe. E já na faculdade ainda é uma estrangeira, agora com uma síndrome de impostora que lhe diz que a qualquer momento ela será descoberta e expulsa dos círculos que frequenta pois não pertence a esse mundo. 

“Cheguei ao ponto de sentir vergonha de dizer onde vivo, porque me faz sentir como se reivindicasse uma autoridade sobre este lugar, quando não a tenho; quanto mais eu vivo em Londres, mais aumenta minha síndrome de impostora. Ainda não aprendi como viver numa cidade, não sei como atravessá-la sem transformar tudo num testamento ou num susto.”

Estar longe de casa, seja onde for essa “casa”, é o momento em que a narradora passa a trilhar uma vida separada daquilo que conhece. É quando percebe que ela não é seu pai, ou sua mãe ou seu irmão. Ela é uma pessoa diferente, não tem as limitações dos pais e não é, também, uma limitação geográfica. Essas descoberta sobre si mesma vêm com o amor, com o primeiro relacionamento com outra pessoa que também é diferente de tudo o que ela conhece e desperta essas conclusões nela. “Eu pensava todos os dias ser definida pela minha família, pelas minhas circunstâncias econômicas e geográficas”, escreve, “depois me dei conta que o impacto mais profundo e determinante em mim foi causado por outra pessoa, com quem não tinha irmandade nem ligação consanguínia”. Sua “casa” pode estar onde menos se espera. 

Ler A estrangeira foi encontrar vários paralelos com a minha vida. Quem muito se muda sente, em algum momento, essa coisa de não estar onde se pertence. Não é uma questão de aceitação dos outros, mas de entender, dentro de si mesmo, o que as coisas significam. Eu sou essa cidade? O lugar onde nasci? As pessoas que me criaram? Sim e não. Somos uma união de todas essas coisas, das memórias de infância, das viagens, das pessoas que entraram e saíram de nossas vidas. Claudia não é só a sua família e seu local de nascimento, e era isso o que ela precisava descobrir para ficar em paz com o lugar em que vive, não importa que lugar seja esse. E até para ficar em paz com a própria origem, com os pais, para entender os pais. A partir disso, tudo o que acontece é uma construção que vai adicionando mais e mais camadas a quem você é. Estrangeira para os outros, mas não para si mesma. 

“Escrever-se a si mesma significa lembrar que você nasceu com raiva e que foi um despejo de lava denso e contínuo, antes que sua crosta endurecesse e rachasse para deixar aflorar uma espécie de amor, ou que a força inútil do perdão viesse polir e achatar qualquer formação de um vale em você.”


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