Notre-Dame: a alma da França, de Agnès Poirier

Nunca fui à Paris, não sou religiosa e O corcunda de Notre-Dame é uma da animações da Disney que menos assisti na vida — sei lá, nunca me atraiu muito a história. Mas quando vi Notre-Dame: a alma da França, da jornalista Agnès Poirier (DBA Editora, tradução de Ana Guadalupe), logo fiquei com vontade de ler. 

Vamos lá: por mais que eu não seja católica e até critique muito a religião, uma coisa que não posso negar é que catedrais, igrejas, basílicas etc., são uns baita trabalhos de arquitetura. E no caso da Notre-Dame, além da grandeza da construção, é um prédio que viveu muita história. E aí estão duas coisas que me atraem bastante: história e coisas construídas pelo homem. 

Para falar de Notre-Dame, Poirier parte de uma tragédia: o incêndio de 15 de abril de 2019, que derrubou boa parte do teto e a torre central da catedral. Como se fizesse uma cobertura minuto a minuto, ela acompanha funcionários, padres, autoridades francesas, turistas e moradores da cidade enquanto veem as chamas tomando a construção. Além de um relato objetivo e prático, ela explora também as emoções sentidas pelas pessoas que testemunharam o incêndio: a tristeza, o espanto, a incredulidade. “Se Notre-Dame podia desmoronar ante os nossos olhos e deixar de fazer parte de nossa vida”, escreve, “o mesmo poderia acontecer com aquelas outras certezas — a democracia, a paz, a fraternidade”. 

Não é exagero escrever isso. Há muitos anos estamos passando por diversas ameaças, mas grandes monumentos que sempre estiveram no imaginário das nossas vidas seguem de pé e trazem certo conforto. Ao ver a catedral pegando fogo, o sentimento dos parisienses era de que realmente nada mais era garantido. Notre-Dame enfrentou guerras, revoluções, ocupações, e sempre se manteve de pé. Ao constatar isso, Poirier parte, então, para a narrativa histórica da catedral. 

A primeira pedra de Notre-Dame foi colocada em 1163. Não se tem conhecimento sobre quem foram seus arquitetos originais, nem quem financiou realmente a construção. Segundo documentos, parisienses pobres e ricos contribuíram financeiramente com o projeto, principalmente um bispo, Maurice de Sully. Na época, Paris tinha cerca de 72 mil habitantes, a França era um país majoritariamente rural e a Igreja possuía muitas terras — e muito dinheiro. Era o começo da expansão das cidades, e Notre-Dame fazia parte de um projeto de engrandecer Paris e reformular a Île de la Cité. A partir daí, Poirier ressalta momentos históricos que tiveram a catedral como cenário, ou então momentos em que ela passou por reformas e renovações. 

A história da catedral passa pelos Bourbon, que tornaram Notre-Dame a maior catedral de Paris, sediando cerimônias reais e guardando muitas obras de arte cristã, como pinturas e esculturas; passa pela Queda da Bastilha, tempos em que foi praticamente abandonada; passa pela coroação de Napoleão, pela invasão dos alemães durante a Segunda Guerra, pela libertação da cidade por De Gaulle. São mais de 850 anos de história que a jornalista resume no livro para mostrar como a Nossa Senhora representa a França e Paris. 

The Right Hand of God Protecting the Faithful against the Demonsca. Jean Fouquet, 1452–1460. Notre-Dame tá lá no fundo, bonitona.

Uma das partes mais interessantes do livro é quando Poiriers fala sobre Victor Hugo e Notre-Dame. Colocando a catedral como protagonista de um de seus romances mais famosos, o escritor reascendeu o interesse pelo prédio e praticamente “salvou” Notre-Dame do abandono. Tanto o romance de Hugo quanto seus textos e panfletos falavam sobre a urgência de se preservar a arte e a arquitetura da França, e por consequência a sua história. Ao criticar a demolição de prédios históricos, ele discursou a favor da preservação: “Quando falamos de um edifício, há duas questões: seu uso e sua beleza. Seu uso cabe ao dono, já sua beleza pertence a todos; a você, a mim, a nós. Portanto, quem o destrói extrapola seus direitos”. 

O sucesso de Notre-Dame de Paris (ou o popular Corcunda de Notre-Dame, obrigada, Disney) levou à restauração da catedral, e seu grande responsável foi o arquiteto Eugène Viollet-le-Duc, que observou muito a arte e arquitetura góticas e restaurou o prédio conforme suas características. A torre central, por exemplo, que o incêndio de 2019 destruiu, foi uma contribuição de Viollet-le-Duc, fazendo com que essa novidade construída no século XIX se parecesse com um elemento original do século XIII. E isso gerou muito debate após a sua morte, pois enquanto ele foi visto como um gênio por ter dado tanto destaque para o estilo gótico, outros o tratavam apenas como um “falsificador” de uma estética antiga. O que é, aliás, um debate que segue ainda hoje, enquanto Notre-Dame é novamente restaurada: seguir a tradição ou adicionar elementos modernos?

Lendo Notre-Dame: a alma da França, fiquei com aquela vontade de ver tudo com meus próprios olhos. Não tendo nem dinheiro para viajar, nem passaporte e, bem, vivendo em tempos de pandemia, fiquei observando por muito tempo as imagens que estão no livro, procurando por vídeos de passeios pela catedral, vídeos do incêndio, procurando ver e ouvir o que Agnès Poirier descrevia — há um capítulo dedicado apenas aos seus sinos, e eu precisava ler ouvindo eles tocarem. 

Você vê a primeira figura do livro, uma gravura do século XV que mostra Paris com suas casas da época e Notre-Dame se destacando ao fundo como a maior construção, e pensa: “caralho, isso ainda está de pé. Esse lugar viu esses anos todos passarem”. É de se lamentar, sim, o incêndio que quase a destruiu, e de entender porque tantas pessoas ficaram tão comovidas com isso. É triste ver grandes feitos desmoronarem, ver a história sendo destruída. Agnès Poirier faz uma biografia incrível desse lugar que faz qualquer pessoa torcer pela sua restauração e entender como um prédio pode ter sido tão importante para o mundo. 


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