Copo vazio, de Natalia Timerman

Capa de Copo vazio de Natalia Timerman

Muita gente recomendou que eu lesse Copo vazio, de Natalia Timerman (Todavia) por causa do podcast PPKANSADA. Caso você não saiba, sim, participo de um podcast com esse nome. Um dos episódios foi uma conversa sobre ghosting, a prática de sumir sem dizer nada e deixar a outra pessoa lá só divagando o que pode ter acontecido. Odeio sofrer ghosting, mas não vou mentir dizendo que nunca dei um. Todo mundo passa por isso em algum momento da vida, principalmente se a pessoa em questão foi um match do Tinder. Com a protagonista de Copo vazio não foi diferente. 

Mirela tem trinta e poucos anos, é arquiteta, está solteira e conhece Pedro em um aplicativo. Desde o começo sabemos que essa história não teve o fim esperado — amor e companheirismo. Com sua filha, Mirela tromba com Pedro no supermercado após não vê-lo por anos. E o motivo disso é porque ele simplesmente sumiu. Meteu o ghosting justo quando ela pensou que as coisas poderiam evoluir para algo mais sério. 

Narrado por Mirela, o livro explora muito bem os sentimentos de alguém que é deixado de lado sem maiores explicações. Em um momento, estamos procurando motivos para o afastamento da pessoa, procurando gatilhos em cada lembrança de momentos com ela. E essas memórias, por mais que não sejam exatas, vão deixando claro que esse afastamento foi estranho. Pedro e Mirela pareciam ter se entrosado perfeitamente. Não foi uma idealização de Mirela os sentimentos que Pedro despertava. Ela não foi nenhuma mulher emocionada e desesperada por atenção, forçando uma intimidade. Muitos dos avanços na relação foram dados pelo próprio Pedro, então ele sumir sem deixar recado após convidar Mirela para conhecer sua avó realmente não fez sentido. Ela não estava louca. Mas por que ele sumiu? 

Você pode ser a mulher mais esclarecida, bem-sucedida, inteligente e bonita, e mesmo assim vai procurar nos mínimos detalhes o que você poderia ter feito para afastar alguém. Natalia Timerman descreve muito bem como toda essa insegurança vai se instaurando na gente quando isso acontece. Paramos de acreditar em nós mesmas porque, mesmo sendo a mulher mais feminista do mundo, ainda temos no fundo aquele desejo pela validação de um homem. Crescemos ouvindo que precisamos dessa validação, e não é do nada que abandonamos essa “regra” sem sentido. A falta de Pedro atrapalha Mirela em sua vida pessoal e profissional, leva ela a apelar para métodos que nunca antes teria cogitado só para poder falar com ele novamente. 

O mais doloroso quando você é deixada de lado por alguém que gosta é deixar essa história inacabada. Terminar sempre é ruim, mas quando esse término vem do nada, sem explicações e nem sequer um adeus, é como se não tivesse acabado. A falta de conclusão nos enlouquece porque sentimos que aquilo segue crescendo dentro da gente. Como se recuperar de um fim que você nem sabe exatamente se foi um fim? Quando você tem esperança de que a pessoa dará um sinal de vida a qualquer momento?

“O que eu ia dizer? Ah, tava falando que as pessoas têm me falado pra virar a página, que eu sou uma mulher xis, ípsilon, zê, mas isso não me serve de porra nenhuma, até piora,  se eu sou tão foda quanto falam por que um cara que nem o Pedro, inseguro, travado, desaparece? Sei lá.”

Outra questão que fica evidente é a incompatibilidade de expectativas. Por mais que Pedro desse todos os sinais da relação estar caminhando para “algo mais”, eles nunca tiveram uma conversa concreta sobre o que era essa relação. Não há acordo de fidelidade, ou de não fidelidade. Não tem um martelo sendo batido dizendo “oh, estamos juntos e é isso”. É uma coisa indefinida, e todas essas lacunas sentimentais acabam sendo preenchidas pelas expectativas de Mirela. Porque ela mesma nem sabe o que Pedro quer ou o que espera dela. É como se o relacionamento tivesse apenas um agente, Mirela, enquanto Pedro é essa figura meio assombrosa, difusa. Um fantasma que deu um ghosting.  

Copo vazio é um desses livros que explora bem essa insegurança feminina tão comum nos relacionamentos modernos. É um livro que não pega apenas pelo fator de identificação. É bem escrito, bem estruturado nas idas e vindas no tempo que Natalia Timerman coloca na trama. É essa construção da narrativa que te mantém interessado, curioso. Mas como a identificação é forte, ela acaba se sobressaindo. Mirela pode ser qualquer uma de nós. 

“As coisas seguirão assim, naquele futuro: ainda que se sonhe repetidamente, se invente memórias, envernize o que se espera de momentos especiais, eles desdenharão dos clamores ao destino e, se decidirem acontecer, serão banais, murchos, imperceptíveis.”


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