Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso

Capa de Crônica da casa assassinada

Nada como uma tragédia familiar para te fazer ficar presa em um livro. Sou da opinião de que todo leitor de ficção é um grande fofoqueiro, então essas histórias são perfeitas para a sede de fofoca que habita em nós. Histórias de gente que podemos imaginar como sendo nossos vizinhos, fuxicando uns com os outros sobre a vida alheia e seus segredos. Foi com isso em mente que li Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, um sucesso literário dos anos 1950 que ganhou nova edição pela Companhia das Letras. 

Por meio de cartas, confissões, diários e depoimentos, somos apresentados aos Menezes, uma família respeitada do interior de Minas Gerais. Na pequena Vila Velha, os Menezes são quase que um mito, uma lenda, que chamam a atenção de toda a cidade. Família rica no passado e dona de um casarão imponente, a Chácara, o dinheiro é escasso faz tempo. Mas o interesse e o respeito pelos Menezes permanece. Na casa vivem três irmãos e vários funcionários que parecem incapazes de abandonar esse lugar que já viveu do luxo. 

Demétrio, o mais velho, cuida do que ainda resta dos bens da família. É casado com Dona Ana, uma carola quieta e recatada que se esconde pelos cantos. Timóteo, o filho do meio, vive trancafiado em seu quarto por ser considerado um párea da família. Por se vestir com roupas de mulheres, é mantido escondido do mundo e nutre um ódio grande pelos irmãos por conta disso — apesar dele ter liberdade de andar pela propriedade quando quiser, é como se ele estivesse preso mas também se mantivesse preso. Valdo, o caçula, está prestes a se casar com uma jovem carioca, Nina, dona de uma beleza exuberante e que acaba com o restinho de equilíbrio que a família tinha. É em torno dela que todo o drama se desenrola. 

O destino dos Menezes é apresentado logo nas primeiras páginas. Pelo diário de André, filho de Nina e Valdo, sabemos que ela já está morta e um grande escândalo envolve a família. André fala sobre Nina como uma grande amante, a mulher que primeiro e mais amou. Se você pensou “incesto”, é isso mesmo. A relação de André com a mãe não envolve apenas amor materno. 

O que Cardoso propõe é nos levar por todos os caminhos que vão até esse velório tumultuado de Nina, em todos os detalhes possíveis. É como um pesquisador da tradição familiar procurando o maior número de testemunhas possíveis para narrar o que aconteceu naquela casa. Porque não eram só Valdo, Demétrio e Timóteo quem chamavam a atenção do povoado. A beleza de Nina e seu comportamento errático eram tão atraentes quanto os misteriosos Menezes. Sua presença lá ia contra todas as regras que a família tinha se imposto. 

Crônica da casa assassinada começa com o diário de André, passa pelas confissões de Dona Ana, os relatos do farmacêutico, do padre e do médico, as palavras de Betty, a governanta, os desabafos de Valdo e Timóteo, as cartas de Nina. É um grande quebra-cabeça de narrativas que vai fazendo sentido aos poucos. O que era mistério para um será revelado pelo outro. E tudo isso para retratar a decadência familiar, as disputas, os segredos escondidos que acabam com qualquer reputação. 

Como uma história que perdura por anos e anos, é basicamente um épico da treta em família. E a cada novo capítulo, Cardoso acrescenta um ingrediente dessa torta de climão. Tudo isso movido à desejo, inveja, tabus a serem quebrados. Nina é a faísca, o gatilho dos problemas que a Chácara enfrenta. O início do fim. Mas enquanto muitos pintam ela como o diabo, no fundo ela só fez aflorar aquilo que já existia de cada um dos Menezes. Ela está longe de ser uma vilã e mais perto de ser uma vítima — afinal, Valdo lhe garantiu dinheiro e conforto, coisa que já não podia lhe proporcionar. 

“[…] Essa mulher não se deterá nunca, pela simples razão de que ela não sabe se deter; é um elemento desencadeado, uma força em ação, e decerto terminaria seus dias atada a uma fogueira, se ainda vivêssemos nos dias sombrios da Inquisição.”

Prova disso é que mesmo quando Nina está longe, sem contato com os Menezes, eles continuam a ser assombrados. Assombrados pela ideia da família do passado, rica e influente, pela decadência que abateu a eles, e de certa forma até pela inveja que têm de Nina, pois ela não se contenta com uma vida provinciana como a deles. A paz que eles afirmavam existir antes de Nina na verdade nunca existiu. Ela só fez a perturbação explodir. E aí até a pessoa mais santinha se vê envolvida em casos de traição, desejo, morte, segredos, inveja — e, bem, incesto. 

Crônica da casa assassinada já é um dos meus livros favoritos da literatura brasileira. São mais de 600 páginas que te deixam obcecado com o que mais pode acontecer. Quem mostrará as suas garras a seguir, como as personagens vão se afundando cada vez mais nesse lugar e por que não há salvação para Nina ou os Menezes. É uma baita história que merece toda a atenção, literariamente excelente. A escrita de Lúcio Cardoso é algo que impede você de deixar o livro de lado. 

“[…] Eu sei, eu sei — exclamou a um gesto meu — tenho tudo o que eu quero, casa, família, vivo ao lado de meu marido. Mas a felicidade, Betty, é uma condição íntima. Eu não nasci para ser feliz como todo o mundo.”

“[…] Não há tempo para mim, nem passado e nem futuro, tudo é feito de irremediável permanência. O inferno é assim — um espaço branco sem fronteiras no tempo.”


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