Qual é o melhor livro que você já leu?

Há semanas tem uma pergunta no meu Curious Cat que deixei lá sem resposta. “Qual o melhor livro que já leu?”

É uma pergunta que qualquer pessoa que lê vai receber um dia. Se é alguém que lê e está na internet, vai receber umas 5 vezes por ano, para chutar baixo. 

Durante um tempo havia uma resposta que eu usava sempre, e muita gente também: essa é uma pergunta impossível. São muitos os livros, cada um bom na sua proposta. Cada um me tocou de uma forma diferente. 

Essa resposta livrou a gente muitas vezes. Quem perguntava ficava satisfeito por receber várias indicações de uma vez, ou bem insatisfeito caso tenha recebido uma resposta evasiva, sem alguns exemplos. 

Mas essa resposta já ficou manjada demais, e no meu caso não faz mais sentido. Percebi que ela me livrava de realizar um exercício de pensamento difícil, que é fazer a escolha desse livro único, o seu favorito mesmo. Tão difícil que essa pergunta está aqui desde o dia 8 de junho, e eu penso nela sempre que entro no Curious Cat de novo. 

Então eu quero, aqui, fazer esse exercício agora. Pensar em qual é o melhor livro que eu já li. Sem titubear nem ser evasiva.

Isso vai levar um tempo. Preciso pensar em diversos critérios, em todos os livros que gostei muito em toda a minha vida de leitora. 

Vou tentar primeiro com algo que já é complicado: elencar meu top 10 da vida. Vou colocar aqui um cronômetro para contar quanto tempo vou levar para fazer isso. Felizmente, tenho anotadas todas as minhas leituras desde 2009, mas tem coisas anteriores que preciso lembrar. Valendo!

Enquanto isso, dê um passeio pelas ruas do Japão:

Olhando a lista inteira, cheguei a 18 livros. Para diminuir a 10, levei meia hora. Pode parecer pouco, mas ultimamente tá difícil me concentrar por esse tempo. E o Top 10 é:

  1. Os enamoramentos, de Javier Marías
  2. Contato, de Carl Sagan
  3. Dentes brancos, de Zadie Smith
  4. 4 3 2 1, de Paul Auster
  5. Lincoln no limbo, de George Saunders
  6. Quem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet
  7. A amiga genial, de Elena Ferrante
  8. Tirza, de Arnon Grunberg
  9. A história secreta, de Donna Tartt
  10. O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

Agora preciso definir as categorias. Vou analisar cada um desses livros conforme esses critérios, dando notas de 0 a 5.

As categorias que defini foram:

  • Tenho orgulho de dizer que gosto: é uma leitura que me desafiou, então gosto de sustentar que li e gostei muito.
  • Não é manjado demais, para surpreender: é fácil dizer que um clássico mundial é seu livro favorito. É respeitoso. Então o meu favorito tem que ser algo diferente do que esperariam. 
  • Li e fiquei WOOOOOW: tem o li e fiquei UAU, mas tem o li e fiquei WOOOOW. Que é quando me pego pensando em cenas ou estruturas do livro mesmo anos depois da leitura.
  • Chances de reler: tem coisa que gosto e pronto. Tem coisas que gosto e quero continuar voltando para elas. 
  • Originalidade: aquele livro que quando eu li eu pensei “caralho, nunca vi nada igual”. 

Então vamos lá, hora de avaliar cada um e descobrir meu favorito. 

Os enamoramentos, de Javier Marías

Esse é um dos que mais recomendo para as pessoas, porque simplesmente amo. Me identifico com a protagonista, uma mulher solitária que observa de longe um casal apaixonado, até que as coisas desandam e ela acaba entrando na vida deles. Eu gosto muito da maneira com que o Marías trabalha boa parte da história dentro dos próprios pensamentos da narradora. As suposições, as vontades, os medos. Perfeito.

Tenho orgulho: 4
Não é manjado: 4
Woooow: 4
Chances de reler: 3 (já reli recentemente)
Originalidade: 3

Contato, de Carl Sagan

Foi o primeiro livro de Carl Sagan que eu li, e foi justamente a ficção. Eu amei porque considero ele o retrato mais próximo do que aconteceria caso fôssemos contatados por outra forma de vida — as implicações científicas, políticas, sociais, religiosas… Acho inteligentíssimo. 

Tenho orgulho: 3
Não é manjado: 4
Woooow: 4
Chances de reler: 3 (também reli não faz muito tempo)
Originalidade: 3

Dentes brancos, de Zadie Smith

Fiquei muito na dúvida entre colocar Dentes brancos ou Ritmo louco aqui, mas acho que o que eu gosto mais na Zadie Smith é como ela constrói muito bem múltiplas personagens. Não tem um protagonista definido, é um grupo de pessoas que impulsiona a história. E Dentes brancos é assim, sobre um grupo de jovens de diferentes origens familiares convivendo e se descobrindo em Londres. 

Tenho orgulho: 4
Não é manjado: 4
Woooow: 4
Chances de reler: 5
Originalidade: 3

4 3 2 1, de Paul Auster

Eu curto um grande livrão que narra o crescimento de um ser humano. Paul Auster aqui narra quatro possíveis desenvolvimentos de um mesmo ser humano. Para mim, isso foi genial. E mais ainda porque você se conecta com cada versão do protagonista, e tem aqueles momentos surpreendentes de te deixar de boca aberta. 

Tenho orgulho: 5
Não é manjado: 3
Woooow: 5
Chances de reler: 5
Originalidade: 4

Lincoln no limbo, de George Saunders

Quando li, eu fiquei extasiada. É lindo, é mágico, é triste, quem diria que eu amaria tanto uma história de fantasmas? Acho que, dentre todos aqui, é o mais original e o que eu mais fiz campanha na época do lançamento. George Saunders é um dos meus autores favoritos por falar de coisas cotidianas sempre de um jeito diferente, com algum elemento de estranheza que intensifica as coisas. Perfeito. 

Tenho orgulho: 5
Não é manjado: 5
Woooow: 5
Chances de reler: 5
Originalidade: 5

Quem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet

Eu não estava dando muito para esse livro quando comecei a ler, apesar de adorar a premissa da sinopse: e se a morte de Roland Barthes não fosse um acidente, e sim um crime? O resultado é uma obra que me fez ver utilidade nas minhas aulas de semiótica e um dos livros que mais me fez rir nos últimos anos. 

Tenho orgulho: 3
Não é manjado: 5
Woooow: 4
Chances de reler: 5
Originalidade: 3

A amiga genial, de Elena Ferrante

Não tem como não colocar Elena Ferrante aqui, e até hoje A amiga genial é o meu favorito dela. Tem uma nostalgia de como me senti lendo ele pela primeira vez, de como ele falou comigo e da sensação que deixou no fim. Um dramão como poucos. 

Tenho orgulho: 3
Não é manjado: 3
Woooow: 4
Chances de reler: 4
Originalidade: 3

Tirza, de Arnon Grunberg

Eu senti lendo a sinopse que teria algo sombrio em Tirza, mas não esperava que fosse tanto. E eu curto coisas sombrias. É um livro sobre um homem branco de meia-idade em crise? É, mas essa crise, minha gente, toma proporções assustadoras. E eu gosto de uma coisa perturbadora. 

Tenho orgulho: 3
Não é manjado: 4
Woooow: 3
Chances de reler: 4
Originalidade: 3

A história secreta, de Donna Tartt

Esse é o mais antigo dessa lista, li na adolescência e foi um dos primeiros “livrões” de literatura contemporânea que li e me pegou. Então tem todo um carinho especial. Como não gostar de uma história sobre assassinato numa universidade de riquinhos envolvendo orgias e um grupo de estudos metido a besta? 

Tenho orgulho: 4
Não é manjado: 4
Woooow: 3
Chances de reler: 3 (também reli não faz muito tempo)
Originalidade: 3

O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

E temos um clássico aqui. Dos clássicos, é meu favorito certamente. É uma simples história de amor trágica, daquelas que, para mim, definem muito bem o que é uma história de amor trágica — mais do que qualquer coisa de Shakespeare. E tem toda a riqueza que Fitzgerald coloca no livro, e eu amo ler sobre a vida doida dos ricos. 

Tenho orgulho: 3
Não é manjado: 1
Woooow: 2
Chances de reler: 5
Originalidade: 3

Análises feitas, notas dadas para cada categoria, e temos um vencedor.

Lincoln no limbo foi o único que recebeu 5 em todos os quesitos, e olha que eu me esforcei para ser bem justa nessa distribuição. 

Mas é que ele é realmente fora da curva, porque inova no plot, na estrutura e no desenvolvimento. Ele apresenta uma certa dificuldade no início por ser tão diferente — toda a história é contada pelas personagens como um grande drama oral, sem um narrador te dizendo a história ou narrando as cenas. E são dezenas de personagens, muitas, o que deixa a leitura bem desafiadora. 

É aí que está a grande cartada do Saunders: ele dá a cada personagem uma personalidade bem marcada, e a partir do momento em que você se acostuma com a estrutura do livro, você inventa uma voz para cada um deles. E aí a leitura deslancha. 

Além da questão de formato que acho genial, eu também adoro livros que reinventam momentos históricos — aqui, no caso, é a morte do filho de Abraham Lincoln. Eu adoro esse exercício de reimaginar as coisas, dar novos sentidos a elas. Ainda mais quando isso envolve situações absurdas, que você não esperaria encontrar em um livro sobre Lincoln… 

Então é isso: Lincoln no limbo é o meu livro favorito. 

Vai ser durante a vida toda? Aí terei que usar esse esquema daqui a alguns anos para saber. 


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Os enamoramentos, de Javier Marías
Contato, de Carl Sagan
Dentes brancos, de Zadie Smith
4 3 2 1, de Paul Auster
Lincoln no limbo, de George Saunders
Quem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet
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O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald