Kentukis, de Samanta Schweblin

Capa de Kentukis de Samanta Schweblin

Lembro da descrença que as pessoas tiveram pelo Big Brother Brasil quando ele estreou lá em 2002. Qual a graça de ficar vendo pessoas desconhecidas presas dentro de uma casa? A experiência com a Casa dos Artistas, programa pioneiro no país e seu grande “rival”, foi um sucesso, mas como o próprio nome diz, haviam pessoas conhecidas lá. Certamente você estaria curioso para observar a intimidade do Supla. Bem, mais chamativo do que ver desconhecidos, né? O que a gente não esperava era que gostássemos tanto de ver a vida do outro pela telinha. Ficamos viciados nisso. Eu sou viciada nisso. Então, pra mim, o enredo que Samanta Schweblin apresenta em Kentukis (Fósforo, tradução de Livia Deorsola) não é nada fora da realidade. 

Porque gostamos de observar os outros, conhecidos ou não. Fazemos isso vendo BBB, olhando a timeline do Instagram, observando a janela dos vizinhos. O que o livro apresenta é só um passo além possibilitado pela tecnologia. Kentukis são pequenos robôs em forma de bichos aleatórios dotados de câmeras nos olhos e rodinhas para se movimentarem. Ao comprar um kentuki, você se torna o seu amo, e o bichinho — que pode ser um coelho, um corvo, um panda ou até um dragão — vai te seguir pela casa toda. Por trás dele, contudo, está outra pessoa, que do conforto de seu lar em algum lugar do mundo está movimentando o robô e observando tudo o que você faz. É um jogo de observar e ser observado. 

Schweblin apresenta diferentes personagens para tratar desse mundo em que qualquer pessoa com dinheiro pode entrar na sua casa — sempre com a sua permissão, claro. Se você é um amo, você não tem ideia de quem estará controlando o seu robô, muito menos sabe de onde essa pessoa é. Se você é um kentuki, você não tem informações prévias de quem será seu amo nem que tipo de bicho você é. Tudo é descoberto através da observação e de tentativas rudimentares de comunicação, já que os kentukis apenas emitem grunhidos. 

Logo no começo a autora trabalha com uma das possibilidades óbvias da invenção: o uso do kentuki para exploração sexual e extorsão. Três adolescentes mostram os peitos para seu bichinho de pelúcia, que logo dá um jeito de tentar chantageá-las. Depois, uma senhora de um país latino ganha do filho, que mora na China, um código de acesso para ser um kentuki e passa a observar a vida de uma jovem alemã. Um pai compra para seu filho um kentuki por recomendação da terapeuta infantil, para que o garoto não passe por grandes traumas durante a separação dos pais. Alguém do leste europeu aproveita as brechas legais e éticas para fazer dos kentukis um negócio lucrativo vendendo conexões pré-estabelecidas. Um menino que deveria estudar perambula por uma cidade longe de onde vive como um kentuki liberto, sem amo. Uma jovem no México compra um robô de pelúcia para aplacar o tédio em um retiro de artistas. Schweblin procura explorar todas as possibilidades que uma tecnologia como essa tem a oferecer. 

Enquanto alguns personagens duram apenas um capítulo, pois cada história dura o tempo da conexão, outros aparecem no livro todo. Assim que um kentuki é ligado e conectado com alguém, essa conexão nunca pode ser perdida. Se o kentuki quebrar, ela acaba. Se ele não voltar para a bateria, ela acaba. Se o kentuki encerrou de seu computador uma conexão, nunca poderá voltar a ela. É como se observado e observador estivessem ligados para sempre, e para muitas personagens essa ligação toma outros níveis de importância. 

Sempre tem aquela pessoa que diz que “no mundo da internet, as pessoas estão cada vez mais desconectadas”. Estão sozinhas. Nesse caso, eu tenho que concordar. Não que a internet seja a culpada disso, muito pelo contrário. Para as personagens de Schweblin, os kentukis são uma maneira de estabelecer intimidade com alguém, enquanto os lugares em que estão não oferecem o entretenimento ou o entendimento que gostariam. O mundo de Kentukis é um mundo extremamente solitário. Tanto que, para alguns, o robô acaba virando um depósito de afeto. E a pessoa que o controla se sente querida, amada, como não se sentia antes de entrar nessa maluquice toda. 

“[…] Pouca gente estava disposta a expor sua intimidade diante de um estranho, e todo mundo adorava espiar. Comprar um dispositivo era obter algo tangível, algo que ocupava um lugar na casa, era o mais parecido no mercado com ter um robô doméstico; comprar um código de conexão, por outro lado, era gastar uma soma grande de dinheiro em troca de apenas dezoito dígitos virtuais, além do que as pessoas adoram tirar coisas novas de caixas sofisticadas.”

A linha narrativa que mais me pegou foi a de Alina, a jovem que acompanha o namorado artista no México durante seu retiro. É o corvo que compra numa loja de eletrônicos e que custou mais do que gostaria de admitir quem a acompanha durante o dia, enquanto o namorado fica em seu ateliê. Ela é a personagem que mais vai mais testando o uso do kentuki e seus limites, ora tratando ele com cuidado, ora o “machucando” — as pessoas levam os kentukis muito a sério. Acho que a solidão dela é a mais palpável, porque não temos nem ideia de quem está observando ela, qual o objetivo dessa pessoa. E enquanto ela faz esses “experimentos”, ainda passa por toda uma situação de ciúmes e dúvidas, uma personagem que está perdida sobre o que fazer da vida. 

Kentukis foi um livro que fui apreciando mais depois de terminá-lo. Na hora parecia apenas uma história boa, criativa até, mas fui avaliando cada relação que a autora apresenta, cada consequência, e considerei que ela abordou de um jeito ótimo essa necessidade que temos do contato humano, mesmo que seja virtual. Um produto como os kentukis, que tem o poder de observar tudo o que fazemos, sem regulamentação ou muitas regras, é um produto com grande potencial para coisas horríveis. Elas acontecendo ou não, essas personagens se jogaram nessa brincadeira porque a necessidade de afeto era maior do que questões de segurança. Eu consigo ver isso acontecendo de verdade. Amizades que nascem e morrem quando a vida real invade os sonhos, e nem todo mundo consegue conviver com isso. 


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