Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado

Capa Na casa dos sonhos Carmen Maria Machado

Num dia você encontra o amor da sua vida. No outro começa a notar comportamentos estranhos na pessoa, um tom agressivo, uma fala grossa. Um relacionamento abusivo se constrói devagar, com o abusador aos poucos cercando a vítima e a isolando do mundo. Nem todo mundo percebe os sinais. Muitos não percebem os sinais. E quando percebem, já é tarde: as coisas estão muito piores e tendem a só piorar. O relato que Carmen Maria Machado fez sobre o relacionamento abusivo que sofreu deixa isso bem claro. 

Na casa dos sonhos (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe) é uma autobiografia desse abuso. Bissexual, Carmen Maria Machado encontra sua abusadora durante a faculdade. Após namorar e tar casos com vários rapazes, se encontra no seu primeiro relacionamento lésbico com uma mulher linda, culta, sexy e que demonstra ter desejo por ela. É o relacionamento dos sonhos: sem homens, apenas duas mulheres que se entendem e se amam. Mesmo que ela tenha outra namorada em outra cidade. Mesmo quando ela diz que não gosta dos seus amigos. 

De origem religiosa, Machado se sentiu livre para experimentar e se abrir para o mundo depois de sair de casa. Estar com sua namorada era uma extensão dessa liberação, alguém que lhe ensinaria a ter um relacionamento saudável e estável. Antes de mergulhar nas atitudes irracionais de sua ex, ela oferece um background de sua formação sexual e intelectual. Com uma autoestima baixa, foi fácil se encantar por uma mulher atraente e que a tratava como alguém especial. As reclamações, o gaslighting, as mudanças bruscas de humor parecem, para a pessoa encantada, obstáculos sem importância. Algo passageiro, porque logo ela volta a ser amável e carinhosa e a te fazer acreditar que ela é necessária em sua vida.

E aqui começa a parte ruim. Carmen Maria Machado escreve como se pedisse desculpa por não ter percebido antes a cilada em que estava se metendo. Por não ter gritado, se imposto, não permitido ser tratada com violência psicológica e (quase) física. Mas como ela mesma justifica, e com razão, o abusador é esperto e sabe como manipular a mente do abusado. Isolada dos amigos e da família na então “Casa dos Sonhos” em que vivia a namorada, tudo o que a autora tinha era aquela pessoa que tanto a amedrontava. Então enquanto chorava porque a namorada tinha gritado com ela sem motivo, ela pensava também no que poderia ter errado, buscar uma razão lógica para ter engatilhado essa explosão de fúria. Mas a questão é que não existe lógica. O objetivo é diminuir e aprisionar, e para o abusado, essa é uma opção impensável. Porque ela me ama. Ela me acha bonita. 

Um dos pontos importantes que Carmen Maria Machado coloca como dificuldade para entender o que lhe acontecia foi a falta de bibliografia sobre o abuso em relações queer. Resgatando séries, filmes e literatura que retrataram essas relações e até cunharam seus termos, ela encontra casais heteronormativos, e nunca um casal gay. Encontra muitos relatos sobre homens abusadores, e pouco sobre mulheres — ela vai trazer uma pequena relação de mulheres criminosas e abusadoras que pesquisou para entender as atitudes da ex. Essa ausência de relatos sobre crimes passionais envolvendo casais queer poderia ser causada pelas próprias vítimas, envergonhadas de relatarem o abuso, tanto pela vergonha e medo como para não exporem uma comunidade que já sofre com preconceito a receber ainda mais ataques. Algo como “claro que deu errado, eram degeneradas, duas mulheres juntas”, sabe? 

Então se tem a ideia de que a comunidade queer é só alegria, glitter e paetês, uma festa eterna onde nada de ruim acontece. Mas coisas ruins acontecem. Uma lésbica não é um ser mágico desprovido de falhas. Ela pode errar e machucar, ela pode ser, sim, uma pessoa tóxica que está sugando toda a sua energia e vontade de viver. Ela é humana. 

“Nós merecemos que nossas transgressões sejam representadas tanto quanto nosso heroísmo, porque, quando negamos a um grupo de pessoas a possibilidade da transgressão, estamos lhe negando a humanidade. Em outras palavras, indivíduos queer — os da vida real — não merecem representação, proteção e direitos por serem moralmente puros ou respeitáveis como grupo. Merecem tais coisas porque são seres humanos, e isso basta.”

É possível perceber como tudo isso a perturbou por muito tempo. Tente imaginar: quem te ama é quem mais te agride gratuitamente. A pessoa grita, você se assusta, e ela age como se não tivesse feito nada. Ela fala A, você ouve A, e depois ela diz que você está errada e que na verdade falou B. Ela critica tudo o que você faz, o que você diz, o que usa, te diminui física e intelectualmente para depois dizer palavras doces e amorosas. E você pensa: ela me ama, apesar de eu ser horrível. E por isso preciso dela. E a corda em volta do pescoço se aperta um pouco mais a cada incidente. Carmen Maria Machado narra muito bem como decaiu durante a relação. Como passou de uma jovem confiante a um rato amedrontado, medindo cada palavra para não irritar a namorada, passando fisicamente mal a cada discussão. 

Na casa dos sonhos é uma narrativa fundamental sobre os relacionamentos abusivos. Um alerta de que o abusador pode estar em qualquer lugar. Não havendo uma literatura satisfatória sobre abusos em relações queer, Carmen Maria Machado foi lá e fez o que sempre gostaria de ter lido. Um aviso importante de que é compartilhando nossas histórias que aprendemos, nos unimos e podemos evitar que outras pessoas passem pela mesma coisa. 

“[…] às vezes uma história é destruída, às vezes ela sequer chega a ser dita; seja como for, nossa história coletiva sofre a perda irreversível de algo grandioso.”


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado. Comprando com meu link você ajuda o blog com uma comissão.

Leituras relacionadas:
Pessoas normais, de Sally Rooney