Uma tristeza infinita, de Antônio Xerxenesky

Capa de Uma tristeza infinita, de Antônio Xerxenesky

A pessoa quando deprimida não vê esperança e sentido em nada. A vida pessoal parece estagnada — e se não estagnada, em constante decadência. A crença no trabalho acaba, a pessoa duvida de suas capacidades e até da utilidade da sua existência. E é difícil identificar qual a razão dessa depressão. É uma tristeza que invade sua mente e seu corpo, e aos poucos vai se alastrando como um vírus, impossível de ser contido pelos nossos anticorpos — as frases motivacionais, os objetivos a serem alcançados, as pessoas que amamos. Antônio Xerxenesky escreveu em Uma tristeza infinita (Companhia das Letras) uma história que retrata muito bem essa sensação de que nada mais vale a pena e tudo vai desmoronar. 

Nicolas é um médico psiquiatra francês que se muda com a esposa, Anna, para uma pequena vila na Suíça. Um lugar rodeado de florestas e com poucos moradores, silencioso e calmo. É nessa vila que fica a clínica para onde trabalha, que recebe principalmente pessoas que apresentaram traumas após a Segunda Guerra. Anna, enquanto isso, consegue um emprego no CERN, um grande complexo de aceleradores de partículas, e por isso viaja constantemente para Genebra. 

Nicolas se vê muitas vezes sozinho e faz longas caminhadas pela floresta até sua casa. Caminhadas que começam como algo relaxante, mas logo se tornam assustadoras. Sons estranhos na mata sobressaltam o protagonista, e isso indica o começo das paranóias que vão atingindo sua mente. De amigos, possui apenas os outros médicos da clínica e, talvez, um ou outro paciente com quem gosta de conversar. O livro começa justamente com ele contando a Anna o caso de uma dessas pessoas que trata, e esses diálogos seguem reverberando dentro dele. Enquanto Ana, por sua vez, engata em explicações sobre o que constitui o universo na visão dos cientistas. O subjetivo da mente, pouco conhecido, sendo colocado lado a lado dos dados concretos do que já foi descoberto — apesar de muita coisa ainda ser mera teoria, o que encanta a ambos. 

“E assim a solidão se amplificava, e a floresta se distanciava tanto da cidade a oeste, como do Centro a leste, e não havia mais ser humano algum em um raio de centenas de quilômetros, talvez milhares, e ele estava só, absolutamente só no universo, na natureza, e podia compreender como ele era irrelevante, como toda a vida e o drama humano eram irrelevantes diante da indiferença da natureza, e a melancolia que experimentava podia causar um verdadeiro mal-estar físico, de modo que ele acelerava o passo em direção ao Centro, pensando que talvez agora compreendesse melhor a melancolia, mas que isso no fundo de nada adiantava, pois ainda não sabia como tratá-la.”

São vários os pacientes que deixam uma marca em Nicolas, mas os que mais colocam em xeque sua crença na profissão são aqueles que tiveram participação ativa ao lado dos nazistas, ou que se omitiram para salvar a própria pele. Ele mesmo viveu na França durante a ocupação alemã e se questiona sobre como contribuiu para que aquele horror acontecesse. Não seria ele tão culpado quanto seus pacientes? E estaria certo, de acordo com o juramento que fez, tratar pessoas que participaram do maior massacre do mundo? Até que ponto é possível ser neutro sem estar compactuando com o mal do outro? Questão, aliás, que envolve a própria Suíça no texto, que sempre se colocou como neutra durante as grandes guerras. Mas neutra em que sentido? Como nação, ela não teria que ter alguma responsabilidade e assumir um partido para evitar que algo terrível aconteça? É só lavar as mãos e dizer “não é comigo” mesmo? Não bate uma revolta em momento algum, um desejo de fazer algo sobre isso? Pois é, lembra demais certas discussões que vemos por aqui, né… 

“‘Sim, sim’, ironizou Ezra, ‘nada se compara à maravilhosa Suíça. Podem botar uma população inteira em uma câmara de gás, e nós continuaremos achando que é melhor não nos envolvermos nessa briga.'”

São essas questões que assombram a mente de Nicolas e o levam para uma tristeza profunda — que parece infinita. E além disso, avanços médicos colocam na jogada novos medicamentos que prometem curar os distúrbios mentais de um jeito muito mais rápido e eficaz do que a terapia que ele oferece. A crença no mundo já estava abalada, agora a crença na própria profissão é abalada. 

Antônio Xerxenesky coloca no livro temas que eu, pessoalmente, gosto muito: o que nos faz humanos, os motivos de estamos aqui, como a ciência pode explicar o mundo. E, claro, toda a questão da depressão que nos deixa paralisados e descrentes com a vida. É uma história sobre o abalo da fé, não só a religiosa — da qual ele aos poucos vai se aproximando —, mas da existência em si. E tudo isso usando como um background um passado que ainda nos assombra e que, infelizmente, tem muitas semelhanças com o Brasil de hoje. 

“‘É um fato da vida que a maioria dos seres humanos tem tendências racistas e fascistas? E que estão ansiosos para apoiar qualquer criatura doente que passe a verbalizá-las em público?’

‘Não apenas verbalizá-las. É preciso gritar, gesticular, ser enfático. A sedução da autoridade. Podemos localizar uma predisposição na personalidade das pessoas para se deixarem levar por discursos como os de Hitler e Mussolini. Como ovelhinhas que sonham em um dia ser o lobo que irá torturar todos os outros animais.’”

Uma tristeza infinita foi uma das melhores leituras que fiz neste ano — acho que dá para notar pela quantidade de trechos que coloquei aqui. Pela qualidade do texto e pela maneira que a história conversou comigo, com tantos pontos em comum entre o que penso e coisas que nem sei nomear direito, mas são angústias que existem e que Xerxenesky conseguiu descrever muito bem. Então recomendo mesmo esse livro para todo mundo, aos tristes e aos felizes, aos crentes e aos descrentes. A tristeza não é tão infinita quanto a gente pensa. Ainda é possível se reerguer depois dela. 

“Ele olhou para sua mulher e pensou, isso é a realidade, o mundo não está dentro do seu cérebro, ele existe, ele é outra pessoa, eu sinto o cascalho se esfacelando sob os meus pés, o mundo existe, eu estou aqui, e existe a tristeza histórica, a tristeza profunda de quem viu o horror a menos de um palmo de distância, de quem descobriu que o vizinho pode ser o torturador, e estou aqui e conheço todos os motivos racionais para ser horrivelmente triste, e preciso encontrar algo irracional a que me agarrar, preciso encontrar a matéria escura no universo que arrasta os corpos celestes, e eu estou aqui, embora não saiba os motivos, embora não saiba por quanto tempo, embora eu possa morrer amanhã e tudo deixará de existir, e meu corpo será cremado ou enterrado e eu voltarei a ser parte da natureza indiferente.”

“Uma hora vai parar. Porém, até lá, galáxias colidirão, planetas surgirão, sóis morrerão, estrelas irão se transformar em buracos negros.”


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