Nossa parte de noite, de Mariana Enriquez

Terror não é dos gêneros que mais leio, apesar de gostar muito. Ele remete a um tempo que não existe mais, quando eu era uma adolescente deslumbrada com as coisas macabras da vida — gótica suave que fala. Eu li uma cota de Stephen King (Saco de ossos é meu favorito), Edgar Allan Poe, Marion Zimmer Bradley, Anne Rice. E aí passou essa obsessão pelo oculto, apesar de ainda ver muitos vídeos de fantasmas no YouTube. Mas então chegou Nossa parte de noite, de Mariana Enriquez (Intrínseca, tradução de Elisa Menezes), e gente, como é bom ler uma boa história de terror. 

Juan é um argentino que está basicamente fugindo com seu filho, Gaspar, de seis ou sete anos de idade, para livrá-lo do destino do qual ele não conseguiu escapar. Rosário, sua esposa, morreu em condições misteriosas, e seu propósito é deixar Gaspar longe da família dela. Juan é médium, “sequestrado” por membros da Ordem para evocar a Escuridão. Rosário e sua família são alguns dos membros mais proeminentes desse grupo que não poupa ninguém de seus sacrifícios — nem os próprios familiares. Estamos nos anos 1980, em plena ditadura militar argentina, e a Ordem, pelo dinheiro e poder que possuem, se aproveita desse cenário para fazer o que quiser — e colaboram com os militares, claro. 

Rumo à fronteira, próximo às cataratas de Foz do Iguaçú, Juan vai armando o plano para evitar que Gaspar vire um fantoche na mão da Ordem. Isso porque o filho começa a dar sinais de que também se conecta ao oculto, e logo sofrerá as consequências de seu dom. Com poucos, mas bons amigos fiéis, a primeira parte desse romance de mais de 500 páginas apresenta todo esse contexto e deixa alguns mistérios para serem revelados depois. 

Mariana Enriquez explora muito bem os horrores dessa história. A Escuridão, quando se conecta com Juan, destrói tudo o que toca: pessoas são engolidas e mutiladas, e isso é visto pelos membros como uma benção, como se tivessem sido escolhidos. Os “marcados” ganham um novo status de importância dentro do grupo. Além disso, as experiências de Mercedes, sogra de Juan, e Florence, uma inglesa com grande importância na Ordem, são dignas dos horrores nazistas: sequestram e mutilam crianças que poderiam ser médiuns, procurando recriar as condições perfeitas para se conectarem com a Escuridão. São cenas de puro horror, e Enriquez não poupa a gente das descrições. Mas diferente daquelas histórias que eu curtia na adolescência, ela não faz isso gratuitamente, apenas para chocar. Tudo tem um propósito. 

Na segunda parte do livro, a narrativa foca em Gaspar, já um pré-adolescente que vive com o pai e afastado dos avós maternos — os esforços de Juan funcionaram, e a família não consegue se aproximar do garoto. Com um grupo de amigos fiéis, ele desbrava o bairro onde vive enquanto está descobrindo a vida — sem ter ideia do passado assustador do pai. É aqui que o livro se transforma em um romance de formação, pois acompanhamos de perto o desenvolvimento de Gaspar de um garoto sensível e inocente para um adolescente confuso e raivoso. Isso porque a relação com Juan é bem problemática. Ele sabe que o pai esconde sua história, e muitas vezes é vítima de agressões e ataques de raiva que ele não entende. Essa raiva passa para Gaspar quando ele vai morar com Luís, seu tio, que fica com a guarda do garoto quando ele completa 15 anos. A mudança de cenário é bem perceptível, mas cada parte se conecta perfeitamente uma com a outra. Acho que é essa capacidade de ir e voltar no tempo, de focar em personagens diferentes e ainda manter uma unidade, o grande feito do livro. Você se envolve em todos os momentos, e tudo se encaixa perfeitamente. 

“A verdadeira magia não se faz entregando o sangue dos outros, disseram-lhe uma vez. Ela é feita entregando o próprio sangue e abandonando qualquer esperança de recuperá-lo.”

A autora vai deixando vários mistérios para serem revelados aos poucos: o destino de Juan, os objetivos da Ordem, sua história, o envolvimento de Rosário com toda essa seita, a evolução de Gaspar de criança para homem… E as histórias paralelas são igualmente boas, principalmente as que envolvem os amigos de Gaspar: Pablo descobrindo a sexualidade, a ambiguidade comportamental de Adela, a sensibilidade de Vicky. É aquele grupo de amigos que todo mundo gostaria de ter, bem diferentes uns dos outros, mas sempre leais. E entre o desenvolvimento de Gaspar, temos vislumbres do passado e do que está acontecendo com a Ordem, com seus objetivos e história sendo revelados. 

Quando o cerco se fecha sob Gaspar, as coisas se aceleram. É uma percepção que pode soar como uma falha do livro, porque tudo realmente corre numa velocidade bem diferente do resto da narrativa, que é mais lenta e se desenvolve durante anos e anos. Mas as revelações são assim: quando elas são feitas, tudo ganha um novo ritmo. Mais frenético. É como se tudo se esclarecesse e você soubesse, finalmente, o que fazer. 

O único defeito de Nossa parte de noite é que ele acaba. Sério, eu queria mais, muito mais. Por mim é uma daquelas histórias que poderiam se estender para mais volumes, porque o que Mariana Enriquez fez foi criar um universo do qual fica difícil querer sair, por mais amedrontador que seja. Com suas qualidades e defeitos, cada personagem te conquista. Cada tempo da história revela uma nova faceta de alguém. É tudo tão bem feito que você quer mais e mais e mais, assim como a Escuridão. Nossa parte de noite é uma leitura que entra para as melhores do ano — e quiçá da vida. 

“Podia dançar sozinho, podia se emocionar em seu quarto com um livro, mas, quando chegava a festa, ele se desligava, os outros se transformavam em um filme que ele podia ver e do qual não podia participar. Por isso ficava invisível, o que não era difícil porque estavam todos bêbados. E recuava até o seu quarto. E sentia o mais puro alívio.”


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