A famosa lista das melhores leituras – 2021

No começo do ano, postei uma pilha de livros que eu gostaria de ler em 2021. Tinha Joan Didion, Svetlana Aleksiévtich, Audre Lorde, clássicos como Mrs. Dalloway, Eu sou um gato e O grande Gatsby – como não leio muitos clássicos, queria dar mais tempo para eles. Ontem retornei a essa foto e postei ela novamente no Instagram apenas para dizer: é, não rolou. Nenhum daqueles livros foram lidos. Ainda quero ler? Óbvio, claro. Mas eu falhei totalmente em fazer isso nesse ano.

Mas li outras coisas! E coisas ótimas. De boas surpresas a coisas que já sabia que iria gostar. Nem todos foram resenhados aqui ainda, pois ando procrastinando demais os textos.

De qualquer forma, aqui vão meus favoritos de 2021.

Expiração, de Ted Chiang (Intrínseca, tradução de Braulio Tavares)

Quem acompanha esse blog já deveria imaginar que ele entraria na lista. Ted Chiang é um dos meus autores favoritos, amei de paixão o primeiro livro dele, História da sua vida e outros contos. Expiração foi bem aguardado e descobri que ele tinha sido finalmente lançado aqui em um passeio por uma livraria. Novamente, Chiang faz aquela boa mistureba de questões filosóficas, sociais, teológicas, comportamentais, etc., com física, matemática, ciência e especulação. Todos os contos são maravilhosos: o sobre a busca de vida inteligente, o sobre o desenvolvimento de inteligências artificiais, o sobre pseudociências que se tornam realidade. Sério, Chiang é o cara.

Nossa parte de noite, de Mariana Enriquez (Intrínseca, tradução de Elisa Menezes)

Esse foi o maior livro que li em 2021 e gostei de cada centímetro de página. É um romance de terror ambientado na Argentina entre os anos 1980 e 1990 – com passagens por Londres nos anos 1970. Tem treta familiar, seita assustadora e doida, paranormalidade, e tudo feito com uma construção de personagens incrível. Sério, eu não queria que o livro acabasse. Gaspar e Juan são personagens complexas, ambíguas, você gosta e desgosta deles. As partes de horror não são pura violência gratuita, apesar de amedrontadoras. Mas tudo parece super natural, verídico. Livro bom demais e vale toda a dedicação.

Uma tristeza infinita, de Antônio Xerxenesky (Companhia das Letras)

Ta aí o melhor livro nacional lançado em 2021. Confia. Xerxenesky fez um romance foda sobre saúde mental e questões existenciais que assaltam a gente hoje em dia (como a raiva de conviver com pessoas que flertam com o fascismo). Mesmo se passando na Suíça e nos anos 1950, reverbera muito no Brasil de 2021. Os diálogos do protagonista com a esposa sobre o sentido da vida, descobertas científicas, pensamentos íntimos, as conversas com os pacientes da clínica onde ele trabalha, tudo é bom. E a maneira com que a tristeza dele vai gradualmente aumentando, como é possível ver no personagem as nossas nóias. Xerxenesky descreveu tudo muito bem. Amei amei.

Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso (Companhia das Letras)

Outro nacional, e antigasso, que nunca tinha lido na vida – na verdade nem conhecia. Treta de família gigantesca, com narradores múltiplos que vão juntando as peças da história de uma família de prestígio, porém decadente. Apesar de Cardoso não ser lá muito inventivo na escrita – os personagens têm “a mesma voz” -, achei toda a trama brilhante. Já começa com incesto, gritaria e dedo no… Você sabe onde, rs. É bem novelão, bem dramalhão, mas tão bem escrito e desenvolvido…

Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe)

Entrando na categoria de não ficção, é óbvio que tem que ter Na casa dos sonhos. É uma narrativa daquelas pesadas sobre um relacionamento abusivo vivido pela autora, e a violência vinha de outra mulher. A questão toda que Machado traz no livro é entender como ela passou tanto tempo num relacionamento nocivo, o que havia dentro dela que não a fazia dar um basta assim que as agressões começaram. Agressões psicológicas, manipulação, distanciamento do convívio social… E também de como, na época em que aconteceu, não se ouvia falar de agressão dentro de uma relação queer. Machado fala das leituras que fez, faz paralelos com histórias fictícias, com casos reais, e se aprofunda nas memórias para explicar tudo o que viveu. Importante demais.

Luxúria, de Raven Leilani (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe)

Olha essa dobradinha de tradução! Luxúria levantou um burburinho entre os conhecidos quando foi lançado, e não foi por nada. É uma narrativa direta e seca sobre a vida de uma jovem negra norte-americana vivendo seus relacionamentos em Nova York. E é tão “a gente”, sabe? A solidão, a insegurança, os dates roubadas, os relacionamentos roubada. A protagonista é cheia de raiva, e com razão. Reflete sobre racismo, sobre o poder das relações, sobre a desesperança dessa geração que não está presa à nada, mas também está sujeita aos problemas comuns da vida adulta – pagar os boletos. Livro amargo, mas maravilhoso.

Encaixotando minha biblioteca, de Alberto Manguel (Companhia das Letras, tradução de Jorio Dauster)

E para terminar, mas uma não ficção gostosinha e perfeita para você, internauta, que curte um livrinho. Encaixotando minha biblioteca traz algumas reflexões de Manguel sobre a vida e os livros, e a relação desses objetos com sua vida e identidade. Ele fala de sua biblioteca de 35 mil volumes que precisa ser encaixotada para uma mudança de continente e sobre o papel importante das bibliotecas públicas para uma comunidade. Você lê e vê a paixão de Manguel pelos livros escorrendo pelas páginas. Lindo lindo.


São esses os meus favoritos de 2021! Uma lista mais enxuta do que as de muitos anos anteriores, pois né, o ritmo de leitura vai decaindo conforme envelheço. A preguiça é grande. Mas a gente continua lendo quando a cabeça não está explodindo com tanta coisa. Esse ano não me obriguei a ler tudo, a escrever sobre tudo, porque a leitura é um entretenimento que não precisa ser transformado em tarefa. E tá bom assim.

Até o ano que vem!