A pediatra, de Andréa Del Fuego

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Amar não é para todos. Talvez essa frase seja realidade para quem tem dificuldade em lidar com pessoas. De estar em volta delas, ouvindo suas histórias, seus problemas, vendo fotos não solicitadas dos seus filhos. Para quem gostaria de viver o máximo possível longe da maioria dos seres humanos. Para uma pessoa que seria considerada antissocial, grosseira, egoísta. Mas o que as pessoas não veem, que está além da grosseria, é que essas pessoas amam. Só que é um amor escondido, direcionado a pouquíssimas pessoas. 

Pensei nisso ao tentar descrever Cecília, protagonista de A pediatra, romance de Andréa Del Fuego (Companhia das Letras). Cecília é uma pediatra paulista, especializada em neonatologia, divorciada, sem filhos e que, se não fosse a profissão, manteria distância das crianças. Não que tenha lá muito apresso pela profissão, mas ela é competente no que faz, com um consultório próprio e uma parceria profissional com uma obstetra que frequentemente lhe indica clientes. Cecília não suporta as crianças, os colegas de profissão, os pais de seus pacientes — principalmente as mães —, as pequenas interações cotidianas. Tudo é visto com muita estafa pelos olhos dela, uma personagem fácil de não se gostar. 

Só que é aí que vem o pulo-do-gato de A pediatra: você simpatiza com Cecília. Dentro dessa casca de mau-humor, tem a admiração pelo pai e a carência emocional que tenta, de toda forma, esconder. No começo do livro, Cecília se envolve com Celso, um homem casado que mora em Florianópolis — flashbacks pessoais aqui —, com quem passa boas horas de sexo até ele ter que voltar para a esposa. Quando ele tem um filho, convencido por Cecília a tê-lo em São Paulo, foi ela quem pegou o menino nos braços e fez os procedimentos no bebê antes de entregá-lo para a mãe. Uma situação doentia, mas bem calculada por ela, que parece estar sempre no limite do que é ético e moral. 

E foi a abordagem desse limite onde ela se equilibra o que me pegou no livro. Cecília pode ser desprezível em muitos aspectos, mas sua objetividade e clareza faz ela ser uma pessoa muito mais inteligente e confiável. Quando Jaime entra na história, por exemplo, isso fica bem claro. Ele é um pediatra que segue a linha de parto humanizado, e vem sendo cada vez mais requisitado pelas futuras mães que sonham com o momento mágico da maternidade. Porém, enquanto profissionais ao seu redor são enfeitiçados pela simpatia e calma de Jaime, Cecília não se deixa fisgar pelo discurso hippie dele. Obsessivamente, tenta descobrir mais sobre ele e seus colegas, sabendo coisas e mostrando um lado nada mágico do que pode acontecer durante um parto assistido por ele. 

Tá aí uma contradição ótima que Del Fuego coloca no texto: Cecília é a profissional atrasada nas tendências e seca, zero humanizada ao lidar com o outro. Mas ela, apesar de tudo, leva à risca os protocolos, pois é eficiente. Existe algo aí nessa personalidade quase psicopata que não deixa ela sair de vez dos trilhos. Até ela reencontrar Bruninho. 

Bruninho, filho de Celso, a criança que ela ajudou a dar a luz. Numa das visitas clandestinas de Celso ao consultório dela, acaba levando o filho para uma consulta de fachada. Dois anos após esse parto, o contato que Cecília tem com a criança é outro. Ela não sente indiferença por Bruninho. Ela sente amor, como se ele fosse seu filho. Nesse momento eu quase pensei que a trama tinha se estragado para mim, porque tive medo de que virasse uma história de uma mulher amarga finalmente encontrando a felicidade em um bebê fofo, mesmo que não fosse o dela. Mas é bem o contrário que acontece. A necessidade que passa a sentir de fazer parte da vida de Bruninho a leva a espionar Celso, descobrindo a rotina da família, onde fica a escolinha dele, quem é a babá, se aproximando das pessoas e inventando mentiras para se inserir sem suspeitas na vida da criança. 

Enquanto essa obsessão por Bruninho cresce, a relação de Cecília com as pessoas ao redor e seu jeito de enxergar esse mundo onde vive não mudam como eu temia. O pai ainda é sua maior referência, as outras crianças e suas mães ainda lhes dão nos nervos, a empregada grávida que vai tomando cada vez mais “liberdades” ainda a irrita, quando encontra uma oportunidade, fala mal de Jaime para seus colegas. Mas por trás de tudo isso, está montando planos para se manter o máximo próxima do filho do amante, arriscando se expor mais do que o necessário e beirando o ilegal. 

Para um livro curto, A pediatra entrega muito, muito mesmo. É uma leitura sem rodeios, direta, que te faz simpatizar facilmente com a protagonista mais sem carisma que existe. Mas uma simpatia com ressalvas, com receio de que na próxima cena ela dará um passo maior do que as pernas, no limite entre ser uma querida rabugenta e ser uma pessoa realmente problemática. E é bom ler histórias assim, sabe? Onde a mocinha não é mocinha, mas também não é vilã, porque ela é só mais um retrato de uma mulher que, pasmem, tem muitos defeitos e comete muitos erros, mas ainda assim tenta.


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