O que você está enfrentando, de Sigrid Nunez

Capa de O que você está enfrentando de Sigrid Nunez

Todo mundo adora falar de liberdades individuais — alô, liberais —, mas quando o assunto é a morte e a sua saúde, todo mundo gosta de se meter na sua liberdade individual de desejar, quiçá, querer morrer antes que uma doença o torne incapaz de viver sozinho. Eu penso nessa questão às vezes: ao descobrir uma doença, será que eu teria esperança de que um milagre pudesse acontecer? Acredito que não. Pessoalmente, acho a eutanásia a maneira mais elegante de deixar esse mundo quando seu corpo começa a falhar. Mas esse é aquele tipo de debate que ainda causa discussões fervorosas a favor da vida. O que você está enfrentando, de Sigrid Nunez (Editora Instante, tradução de Carla Fortino), é uma leitura que apresenta essa questão muito bem. 

A narradora do romance está visitando uma antiga amiga que descobriu ter um câncer terminal — ou melhor, fatal, como a amiga gosta de dizer. Desde o diagnóstico, ela não é muito feliz com a ideia do tratamento e pensa em recusar a quimioterapia. Acaba fazendo após a pressão de familiares e amigos, mas quando fica claro que a doença não tem cura e o tratamento torna sua rotina algo sofrido, a amiga decide que o melhor a fazer é viver seus últimos dias tranquilamente, saindo de cena enquanto ainda pode tomar decisões por si mesma. 

Na primeira parte do romance, Nunez coloca a narradora em volta com diversas reflexões sobre a doença, as escolhas do doente, os sofrimentos alheios e como as pessoas os superaram. Ouvindo pessoas estranhas ou relembrando situações do passado, vai resgatando esses momentos dolorosos e pensando em como cada pessoa lidou com o que aconteceu, fazendo um paralelo com o caso da amiga — até um gato, em um trecho, deixa seu relato sobre a vida num abrigo para animais. Ambas são escritoras, mulheres que vivem sozinhas e sempre se dedicaram à leitura e à escrita. A narradora não tem filhos nem nunca se casou, a sua amiga tem uma filha com quem não fala há muito tempo, não sendo ela uma opção para acompanhar a mãe na sua despedida.

Tem uma coisa muito importante sobre o começo do livro que eu queria destacar. A narradora está em uma palestra de outro escritor, famoso e reconhecido, que vem a ser um ex-namorado. No evento, ele fala sobre o fim da humanidade, a ameaça das mudanças climáticas e de como não seremos capazes de reverter os estragos que fizemos. Um discurso derrotista, para alguns, mas muito realista para outros — e para mim. E aí Sigrid aborda dois temas que nós geralmente preferirmos ignorar: a morte e nossa responsabilidade pelo fim do mundo. Como se contemplar esses dois temas fosse mais doloroso do que sofrer por causa de suas consequências. Pessoalmente, acho que lidaríamos muito melhor com a morte, no momento de sua chegada, se a discutíssemos e pensássemos sobre ela constantemente. Neste trecho Nunez também faz um ótimo paralelo sobre o fim de tudo e o fim do indivíduo: o mundo acaba quando deixamos de viver? Ou temos responsabilidade sobre um futuro em que as próximas gerações vão sofrer as consequências do nosso desleixo? 

“Não sei quem foi, mas alguém, talvez Henry James, talvez outro, afirmou existirem dois tipos de pessoas no mundo — as que, ao verem outra pessoa sofrendo, pensam: Isso pode acontecer comigo; e as que pensam: Isso nunca vai acontecer comigo. O primeiro tipo nos ajuda a perseverar, o segundo torna a vida um inferno.”

Assim como fez em O amigo, Nunez recheia o texto com referências literárias, e a leitura é um tema sempre discutido entre ela e a amiga. Os livros que amaram, os que não conseguem mais ler, aqueles que eram antes tão importantes para suas vidas e carreiras, mas que agora, com a morte se aproximando, não têm mais aquele mesmo apelo de antes. Gosto quando uma autora apresenta essa visão desromantizada da leitura, mostrando como nossa percepção e preferências mudam ao longo da vida. Aquela leitura que você fez na juventude, tão desafiadora e reveladora, agora não passa de uma lembrança. 

A narradora se preocupa com a sanidade da amiga, mas ela não poderia estar mais lúcida. Ela sabe exatamente o que fazer e como fazer, e cabe à ela estar ali para realizar esses últimos desejos — mesmo com a amiga odiando tudo o que envolve um paciente com uma doença terminal, como a ideia de uma “bucket list” ou todo o discurso de superação que ela se vê obrigada a ouvir. Seu desejo é ir embora sem alarde, sem chateações, sem lutar até cansar contra algo que ela sabe que é mais poderoso do que ela. A esperança, aqui, não é um remédio que impulsiona a uma recuperação. Ela é um inimigo que tira a tranquilidade de uma morte feliz, uma morte sem decepções. 

“Parece absurdo, disse ela. Mas depois de pensar todo esse tempo que era o fim, e tentando me preparar para isso, sobreviver parece o anticlímax.”

O que você está enfrentando é um romance muito lúcido sobre a morte e o fim. O fim de uma amizade, de uma pessoa ou do mundo em si. E um livro aterrorizante para os defensores da vida a qualquer custo, que provavelmente não concordariam em nada com a sua narradora ou sua amiga. Mas eu vi muita beleza no jeito que Sigrid Nunez aborda a morte, nos pensamentos da personagem demonstrando a tranquilidade tão desejada no final. E decidir morrer não é uma coisa fácil. Nunez também deixa isso bem evidente: exige muita reflexão, conversas, análises internas, providências a serem tomadas. Morrer sempre será trágico, mas pode ser um pouco mais bonito.


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Leituras relacionadas:
O amigo, de Sigrid Nunez
The bell jar, de Sylvia Plath