Luxúria, de Raven Leilani

Capa de Luxúria, de Raven Leilani

Quando a vida está uma merda, a gente faz escolhas bostas. Um exemplo disso é o livro Luxúria, de Raven Leilani (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe). Edie, a protagonista, está naquela fase da vida em que nada é garantido. Funcionária em uma editora de Nova York, está entediada com o trabalho e se sentindo ameaçada por uma nova contratada, uma jovem negra como ela em um ambiente majoritariamente branco. Como se não houvesse lugar para mais de uma pessoa negra na editora. Ainda mais quando a “concorrente” age para agradar a todos, enquanto Edie não faz questão nenhuma disso. 

Além disso, a reputação de Edie dentro da editora não é a das melhores, apenas porque ela dormiu com vários caras que trabalham lá — como se isso definisse caráter. Mas todas essas coisas pesam na sua rotina, e para piorar, ela ainda engata em um relacionamento com um cara casado e mais velho, Eric, que tem um relacionamento aberto. Só que é aqui que as coisas complicam. 

“A diferença de idade não me incomoda. Homens mais velhos têm uma vida financeira mais estável e uma percepção diferente do clitóris, mas, para além disso, o desequilíbrio de poder é uma droga muito potente. Assim como se ver no limbo doloroso que separa o desinteresse e a perícia da outra pessoa. O pavor que a pessoa sente da indiferença crescente do mundo. A revolta e o fracasso da vida adulta, canalizados para o esforço de reduzir o corpo de alguém, e nesse caso o seu, a partes brilhantes e elásticas.” 

Após uma série de derrotas que sofre no trabalho e na vida, Edie vai se envolvendo ainda mais com Eric, a ponto de conhecer sua própria família: a esposa dele, Rebecca, e sua filha adotiva Akila, uma adolescente negra que passa pelas mesmas dificuldades que Edie passou e ainda tem que viver em um ambiente quase totalmente branco. Eric vai ficando em segundo plano quando ela vai se aproximando ainda mais de Rebecca e Akila. A esposa e Edie nutrem um sentimento ambíguo uma pela outra. A protagonista admira a classe de Rebecca, mas também enxerga como sua vida é tão significado como a sua. Rebecca enxerga em Edie uma referência para a sua filha, alguém que pode ajudá-la a entender o que ela passa. 

“Sou boa, mas não boa o bastante, e isso é pior do que ser só ruim. É quase. É a diferença entre estar presente na hora em que o acidente acontece e sair exatamente a tempo de ver a notícia sobre ele no jornal.”

Luxúria tem uma narrativa direta e sincera a partir das próprias palavras de Edie. Raven Leilani explora o desejo, a insegurança, os medos e impulsos repentinos dessa personagem. É como se ela corresse para os problemas e fugisse das soluções. Sem casa, sem emprego, sem perspectivas de melhora, Edie aceita o convite para viver com eles, observa suas vidas, se coloca no lugar de uma família suburbana que não sabe como lidar com as mudanças da própria filha pois não têm como compreender o que ela passa. Ver a família de Eric faz Raven se reconciliar com a própria existência.

Tem uma passagem ótima que ilustra isso: passando pelo quarto de Akila, ela vê a menina lutando com seu próprio cabelo tentando “domá-lo”. Edie sabe que Rebecca seria incapaz de ensinar a menina a cuidar de um cabelo crespo. E Akila tem como referência meninas e mulheres de cabelos lisos. É Edie quem ensina Akila a cuidar de algo tão simples, mas tão importante, que os pais dela sequer pensaram. Ela percebe também os olhares estranhos que ela e a menina recebem da vizinhança, ela entende o isolamento em que a adolescente se coloca, porque ela também está isolada. 

Luxúria é um romance marcante, com uma protagonista que não é forte (não no sentido que costumamos usar). Ela cai em armadilhas, ela se deixa levar pelas emoções, coloca sua vida nas mãos de pessoas que não fazem ideia de como é a sua realidade: os olhares tortos, os julgamentos… Mas às vezes a gente precisa chegar no fundo do poço e sofrer as consequências das escolhas erradas. Nesses momentos, Edie reforça o que quer e o que não quer. Sabe que não tem que se colocar como uma mulher dócil e obediente para ser aceita. Percebe que, no final, suas escolhas vieram de um momento de medo e fragilidade, e consegue enxergar que a vida dos outros, daqueles que ela achava serem “bem-sucedidos”, é tão fodida quanto a sua. Eles não são melhores do que ela.

“Penso nos meus pais, não só porque sinto saudades deles, mas porque às vezes você vê uma pessoa negra de mais de cinquenta anos andando na rua e sabe que essa pessoa já aguentou muita merda. Você sabe que ela pessoa é mestre da dupla consciência, do gerenciamento da fúria discreto sob a rígida vigilância e a violência casual do mundo externo. Você sabe que essa pessoa estava sangrando e agradeceu, e, apesar das baratas e do mingau instantâneo e do hematoma no rosto, você ainda tem mais sorte do que essa pessoa jamais teve, tanto que perder um subemprego no mercado editorial não é só uma besteira, é um ultraje.”


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