Belo mundo, onde você está

Capa de Belo mundo onde você está

Às vezes eu fico pensando no futuro do mundo, em como vai ser e como eu estarei. Tempos atrás, quando eu pensava nisso, eu não conseguia ver muita coisa. Eu me imaginava um pouco melhor, mas o mundo não estaria melhor. Hoje já me imagino com um futuro confortável, mas o mundo ainda estaria uma merda. Não consigo ser esperançosa quando penso no futuro da humanidade, porque a humanidade hoje não me dá muitas esperanças. Sei que não sou a única que pensa ou acha isso, mas mesmo assim fiquei contente em encontrar um livro que coloca essa discussão em pauta. 

Belo mundo, onde você está, de Sally Rooney (Companhia das Letras, tradução de Débora Landsberg), não fala sobre o fim do mundo, é bom deixar isso claro. Ele fala sobre duas amigas aprendendo a circular pelo mundo e tentando entendê-lo. Alice é uma mulher de quase 30 anos que vivenciou um boom na carreira com a publicação do primeiro livro — meio que um alter-ego da própria Rooney. Depois do sucesso como escritora, ela deixa Dublin e se muda para uma cidadezinha do litoral, daquelas onde todo mundo se conhece. E é lá que encontra Félix, um cara com quem deu match no Tinder. O início do livro, aliás, é esse encontro entre os dois, o primeiro contato dela com alguém da cidade.

Do outro lado temos Eileen, melhor amiga de Alice dos tempos da faculdade, com a mesma idade e ainda vivendo em Dublin, onde tem um empreguinho estável, mas que oferece zero chances de crescimento na carreira. Saindo de um namoro, começa a se reaproximar de Simon, um cara um pouco mais velho e que a conhece desde a infância. Como nos livros anteriores, Conversas entre amigos e Pessoas normais, Sally Rooney explora o relacionamento entre as personagens e as dificuldades que encontram em expor o que sentem. 

Achei que neste livro Rooney foi um pouquinho além. Separadas, Alice e Eileen se comunicam principalmente por e-mail, onde atualizam uma da vida da outra — FOFOCA! — e fazem pequenos ensaios sobre arte, relacionamentos, cultura e… O mundo. Em vários momentos concordei muito com a visão das duas sobre o nosso futuro como humanidade. Ou então sobre o que é a vida real. Uma visão pessimista, de quem não acredita mais na promessa de que teríamos uma vida melhor do que a vida dos nossos pais e avós. Porque sabemos que em alguns aspectos sim, vivemos tempos melhores. Mas também olhamos para trás, para os tempos mais simples, com lentes nostálgicas e a impressão de que a geração deles foi muito mais feliz do que a nossa porque eles tinham objetivos concretos que eram alcançados (casar, ter filhos, aposentadoria…).

“Alice, ela questionou, eu vou ter que viver no mundo real um dia? Sem erguer os olhos, Alice deu uma risadinha debochada e respondeu: Claro que não, de jeito nenhum. Quem foi que falou isso?

Alice e Eileen estão sempre discutindo o que é essa vida que estão vivendo e qual é a que querem viver, e Félix e Simon oferecem um contraponto ao que acreditam. As duas são extremamente racionais, medem tudo o que fazem, são o que a gente chamaria de uma moradora de Santa Cecília com samambaia e chão de taco — embora Alice já tenha passado para o estágio seguinte, que é abandonar a cidade grande e se isolar para se “reencontrar”. Só que no caso delas elas não estão atrás de elevação espiritual ou algo do tipo. Elas estão perdidas, sem saber o que realmente querem e o que realmente são. 

Felix, ao contrário de Alice, é um conhecido na cidade. Tem um emprego de encaixotador em um depósito, algo meio Amazon, e não tem muitas pretenções profissionais, enquanto Alice sempre se importa com a sua carreira e como ela é vista pelos outros. Essa é uma questão que aparece frequentemente em suas conversas, as reticências de Alice quanto ao que sente com Félix, com ele se perguntando se ela sente vergonha de estar com ele. Uma coisa que a incomoda, por exemplo, é como as pessoas acham que a conhecem apenas por terem lido seu livro. Ela sabe que não é nada daquilo, mas não deixa de se sentir “invadida” pelos leitores que a consideram íntima. 

Simon oferece outro tipo de mudança na vida de Eileen. Como ele é um cara jovem, ela olha com desconfiança para seu lado religioso. Católico praticante, Simon vai todos os domingos à missa, não tem vergonha de proferir a sua fé e acredita realmente em todo esse ritual. Para Eileen, é difícil conciliar a ideia de que um cara que vive no seu mundo é adepto a uma religião cujo sistema é opressor e retrógrado, na sua visão. Além disso, Eileen ainda tem a irmã mais velha que está prestes a se casar, e se vê constantemente sendo comparada com ela: uma é a vencedora, a que tem um emprego bom e um marido. A outra é a fracassada que ainda está em um “subemprego” e sozinha, incapaz de começar a escrever um ensaio sequer. 

O que Eileen e Alice aprendem com essas relações é que o mundo delas não se limita apenas às suas visões internas. Ao que imaginam que a vida é. Simon e Félix jogam luz sobre outras coisas que, antes, elas ignoravam. Coisas sobre elas mesmas que nunca notaram antes, como o egocentrismo de Alice e o derrotismo de Eileen. 

“O presente se tornou descontínuo. Todo dia, até mesmo cada hora do dia, substitui e torna irrelevante o momento anterior, e os acontecimentos da nossa vida só fazem sentido em relação à timeline sempre em atualização dos jornais. Então, quando vemos os personagens dos filmes se sentarem à mesa de jantar ou passearem de carro, planejando assassinatos ou tristes por causa de seus casos amorosos, é natural que a gente queira saber o momento exato em que estão fazendo essas coisas no que diz respeito aos eventos históricos cataclísmicos que estruturam nosso senso de realidade atual. Já não existe ambiente neutro. Só existe a timeline.”

Algo que gostei muito em Belo mundo, onde você está, é que Sally Rooney captura muito bem aquilo que nos atinge hoje — caso você seja branco e de classe média, claro. Como nossa relação com a tecnologia, em como isso tudo afeta a nossa percepção das coisas. Se Alice não funciona bem por mensagem com Félix, no caso de Eileen é muito diferente. Mesmo distantes, a troca de e-mails faz com que elas fiquem muito próximas. Esses e-mails, aliás, indicam uma vontade de desacelerar, de conversar no seu próprio tempo, com calma para pensar e se aprofundar. Uma vontade de sair dessa timeline infinita onde estamos sempre atrasados em relação às novidades. Ler, aliás, é uma forma de fazer isso também.

Então fica o veredicto: Belo mundo, onde você está, é uma ótima leitura, e Sally Rooney continua sendo uma escritora que toca em pontos muito relevantes sobre como estamos nos relacionando com o outro e com o mundo. O mundo pode ser um caso perdido, mas como uma delas escreve, “enquanto vocês dois viverem, para mim, o mundo será belo”. 


Ficou com vontade de ler? Encontre aqui Belo mundo, onde você está, de Sally Rooney.

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