Quando o conto “Cat Person” foi publicado na revista New Yorker, em 2017, foi o maior furor. Muitos leitores se identificaram com o texto de Kristen Roupenian que narra o flerte de uma garota de 20 anos com um cara de 30, de como a relação foi se desenvolvendo via mensagem de texto e como ela desandou completamente após o primeiro encontro. Muitos confundiram o texto de ficção com um relato real – totalmente equivocados. E o texto, claro, gerou toda uma discussão também sobre a dinâmica dos relacionamentos atuais, consenso, expectativas e tudo o mais. Foi o texto de ficção mais compartilhado da New Yorker, então é óbvio que isso chamou a atenção dos editores. Com esse sucesso, Roupenian acabou conseguindo um contrato de publicação, e assim surgiu Cat Person e outros contos.

“A vida de Sueco Levov, até onde eu sabia, fora a mais simples, a mais comum e portanto fora ótima, bem de acordo com o temperamento americano.” Nathan Zuckerman, o alter ego de Philip Roth, tem uma opinião bem formada sobre a vida do herói de sua infância e adolescência. Seymour “Sueco” Levov foi o grande nome do esporte nos seus tempos de colégio: bom no basquete, no beisebol e no futebol americano. Não havia nada que o Sueco pudesse fazer sem que fosse bom em tudo. Cinquenta anos depois, com toda a experiência de vida, é essa a imagem que Zuckerman ainda nutre de seu herói – alguém que conquistou o que quis na vida: admiração.

Após trinta anos de casamento, Boris deixa Mia. Segundo Boris não é um fim definitivo, é apenas uma pausa. Uma pausa, Mia sabe, que tem nome, sobrenome, emprego e idade: uma colega de laboratório do marido vinte anos mais nova do que ela. Poeta e professora, Mia tem um background bem diferente de Boris, um conhecido neurocientista, mas isso nunca foi um problema no casamento que lhe deu uma filha. E a injustiça dessa troca, a impossibilidade da vida sem o marido, leva Mia a um estado catatônico, uma dor que ela nunca pensou que poderia ter.  

“Nós, libertinos, pegamos mulheres para serem nossas escravas; a qualidade delas de esposas as torna mais submissas que as amantes, e você sabe como o despotismo é precioso nos prazeres que saboreamos.”  

Os 120 dias de Sodoma talvez seja um dos livros que mais comprovam o quanto o homem sente nojo, ódio e asco pelas mulheres. O clássico inacabado de Marquês de Sade (1740-1814) é um compilado gigantesco de todos os atos perversos que homens praticam com mulheres – e com homens também, claro, mas elas são o principal alvo de seus libertinos quando falamos de sofrimento. Publicado postumamente em 1904, Os 120 dias de Sodoma (tradução de Rosa Freire D’Aguiar para a Penguin-Companhia) foi escrito durante a prisão do Marquês de Sade na Bastilha.  

Não há explicação para a perturbação que aflige Yeonghye. Depois de ter um sonho cheio de sangue e morte, essa pacata sul-coreana decide parar de comer carne. Ela sempre foi boa cozinheira e nunca antes demonstrou sinais de que gostaria de ser vegetariana. Sua transição para uma vida sem carne não foi gradual, não foi planejada. O sonho que tanto a perturbou a fez tomar essa decisão brusca, e no dia seguinte já aboliu qualquer alimento de origem animal da sua dieta. Mas a decisão de Yeonghye não a afetou apenas individualmente. Toda a sua família sentiu os efeitos de sua nova vida vegetariana.  

Entre o absurdo e a realidade, os contos de George Saunders estão entre os meus favoritos. Autor de Dez de dezembro (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2013) e do romance Lincoln no limbo (pela mesma editora no ano passado, e vencedor do Man Booker Prize) ele é considerado um dos principais autores da atualidade. Mas ainda tem coisas do autor não publicadas aqui para se conhecer, que é o caso de Pastoralia, sua segunda coletânea de contos lançada em 2000.

Simon tem 20 anos e acaba de acordar às 4h30 da manhã para pegar onda com seus dois amigos. É um dia frio em uma cidade litorânea da França, a sessão de ondas não foi planejada. Você não consegue antecipar as ondas perfeitas, nem controlar as condições climáticas do dia. Apesar do frio e do horário, os três seguem em frente com o plano e aproveitam uma hora de ótimas ondas nas águas frias do mar. Na volta para casa, o sono e o frio cobram seu preço: o motorista da van pichada de motivos surfistas cai no sono, e Simon, sentado entre o motorista e outro passageiro e o único sem cinto de segurança, é arremessado contra o para-brisas. Não morre. Mas esse será o seu fim.

Quem acompanha o blog faz algum tempo já sabe o quanto gosto da Zadie Smith. Swing Time esteve entre minhas leituras favoritas de 2017, e White Teeth foi igualmente apreciado. No ano passado, a autora lançou mais um livro, mas dessa vez de ensaios: Feel Free, uma compilação de textos publicados em revistas e periódicos, e também discursos e outras falas que a autora concedeu sobre os mais variados temas. A não-ficção de Smith nunca foi publicada no Brasil, fora algum ensaio traduzido para uma revista ou para alguma exposição – como foi o caso de seu texto sobre The Clock, que esteve em cartaz no IMS de São Paulo. Mas, até onde eu sei, não há planos de lançar uma coletânea com sua não-ficção por aqui.

Gustavo Melo Czekster lançou sua primeira coletânea de contos, O homem despedaçado, em 2011 (Dublinense). Foi uma ótima estreia, e até hoje está entre meus livros favoritos de literatura brasileira. “Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de autoconhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo”, escrevi sobre o livro na época. Em 2017, o segundo livro do autor foi lançado pela editora Zouk, Não há amanhã, com tema diferente de sua primeira obra, mas ainda com a narrativa afiada e inventiva que me fez gostar de seus contos.

Sempre imaginei que, entre a vinda do diabo e a volta do messias, o diabo seria mais divertido. Não sou nada religiosa, apesar de me interessar bastante pelo tema – a religião influencia demais toda a nossa vida e sociedade para que eu possa ignorá-la, então sendo religiosa ou não, é um assunto a se conhecer. Mas, caso tivesse algum tipo de fé ou crença, o diabo teria meu voto. Sei lá, os vilões sempre me agradaram. Demorei muito para ler O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (li na edição da Alfaguara, tradução de Zoia Prestes, mas dizem que a edição da Editora 34 é melhor), apesar de todas as recomendações e de estar na minha mira por pelo menos uns seis anos. A capa com o gato demoníaco me atraía sempre, mas por algum motivo eu sempre deixava para lá. Até ler esse artigo de Viv Grokop no Literary Hub sobre como a leitura desse romance é fundamental para tempos sombrios. E estamos em tempos sombrios. E a vinda do diabo não poderia ser mais divertida.