Muitas vezes quando o mundo parece colapsar e tudo é envolto em medo e incerteza, o coletivo reflete no individual. Nos EUA em plena campanha que elegeu Donald Trump como presidente, esse medo, incerteza e caos invade a vida de Barry Cohen. Entrando numa famosa “crise da meia-idade”, o administrador de fundos vê sua vida desmoronar: seu trabalho vai mal, o casamento está praticamente destruído e seu filho lhe causa desconforto – um garoto autista de três anos de idade que não é nada daquilo que ele e sua esposa esperavam ao se tornarem pais. Confuso, ele abandona tudo – menos alguns relógios da sua rica coleção – e parte para uma viagem de ônibus pelos EUA em busca da namorada da faculdade, como se reencontrá-la fosse resolver a sua vida.

Computadores certamente nos ajudaram muito a melhorar. Facilita o trabalho, os processos, deixa tudo mais rápido e menos complicado. Mas eles por si só são complicados, e nossa falta de conhecimento sobre o funcionamento das máquinas pode nos deixar à mercê delas. Conhecê-las e entende-las é o aviso que James Bridle nos deixa em A nova idade das trevas (Todavia, tradução de Érico Assis), um alerta sobre a obscuridade nos tempos da informação.

É bem provável que a primeira história sobre a origem do homem e do mundo que você ouviu é aquela sobre um ser superior e divino que criou tudo em sete dias – ou melhor, seis, porque no último dia ele descansou. Não importa o nome que essa entidade tenha, cada um a chama de uma forma diferente. Mas o negócio é que havia alguma coisa mágica que deve ter pensado “tenho nada para fazer, vou criar o universo e vai ser daora”. Cada civilização tem sua história das origens, pois desde sempre precisamos de narrativas para orientar as nossas vidas. Origens, de David Christian (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares) não é um livro sobre essas histórias.

É ridículo que, ainda em 2019, as pessoas viram a cara ou dão um a risadinha vergonhosa quando falamos de literatura erótica. Acho que já estamos em um tempo em que o fato de as pessoas transarem – e de gostarem disso – não deveria ser motivo para tanta comoção. É claro que, na literatura, temos muitos exemplos de cenas sexuais pobremente narradas, outras totalmente constrangedoras, outras tão obscenas que é até ok dar aquela corada. Desde sempre se escreveu sobre sexo, de forma explícita ou não, então isso não é nenhuma novidade. A novidade é quando é bem escrito, sem tocar no assunto como algo vergonhoso ou escrachado.

Segundo Silvia Federici, “o ponto zero é tanto um local de perda completa quanto um local de possibilidades, pois só quando todas as posses e ilusões foram perdidas é que somos levados a encontrar, inventar, lutar por novas formas de vida e reprodução”. No contexto de O ponto zero da revolução, o segundo livro da autora de Calibã e a bruxa publicado pela Editora Elefante (tradução do Coletivo Sycorax), isso significa reconhecer a realidade em que vivemos e fazer um chamado para uma política em que as mulheres sejam reconhecidas como os principais sujeitos da reprodução de sua comunidade.

Identidade é aquela coisa que sempre estamos desenvolvendo, ou que estamos buscando descobrir qual é. É mais fácil quando sua família toda cresceu no mesmo lugar, com as mesmas referências sobre quem se é e onde vive bem claras e definidas. Para o protagonista de Meu pequeno país, romance de Gaël Faye (Rádio Londres, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto), a identidade e o lugar em que pertence não é uma questão tão clara assim.

Existe uma coisa com histórias de vida inteligente fora da Terra retratarem uma possível ameaça, ou naves gigantescas entrando no nosso espaço aéreo. Histórias bem cinematográficas, com imagens impactantes, sejam elas descritas em um livro ou criadas com grandes efeitos especiais nos filmes. Os “visitantes” podem ser ameaçadores e quererem destruir o mundo e escravizar os humanos. Ou podem ser seres tão confusos quanto a gente, que apenas querem se comunicar, mas não sabem como. Essas histórias mexem com nossos medos e esperanças, nos colocam naquele lugar de pensar: o que eu faria se isso fosse verdade?

Poucas coisas são tão desejadas pelo adulto moderno quanto horas ininterruptas do sono. Ao dormir, é como se todas as preocupações da vida evaporassem ao fechar dos olhos: trabalho, boletos, relacionamentos que deram errado, carreiras estagnadas. Um sono sem sonhos é o ápice do conforto e bem-estar. Queria eu dormir e acordar daqui a um ano, seja para ver as coisas melhorarem ou para ver o mundo pegar fogo. Mas pelo menos teria um ano inteiro de descanso extremo. Ou, como coloca a protagonista do segundo romance de Ottessa Moshfegh, um ano inteiro de descanso e relaxamento.