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A literatura certamente é uma ótima ferramenta para lidar com os conflitos internos e acertos de contas com o passado. Ao ler Coração azedo, de Jenny Zhang (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe), logo liguei seus contos aos romances de Zadie Smith. As duas possuem backgrounds bem diferentes, é claro, mas o que escrevem dialoga muito com os próprios conflitos de identidade, cultura e família.

Na sociedade há padrões de comportamento que são repetidos quase que inconscientemente. Quando algo acontece, temos reações já pré-estabelecidas, regras sobre o que devemos dizer e expectativas quanto aos rumos da vida. Você estuda, você cresce na carreira, você casa, tem filhos, depois netos e então morre. Keiko Furukura tem 36 anos e está longe de seguir esse padrão. Funcionária de uma konbini há 18 anos – as famosas lojas de conveniência japonesa –, sua grande preocupação é esconder da sociedade a sua visão peculiar de mundo para ser vista como alguém normal. Mas o próprio fato de ter estar perto dos 40 e ainda trabalhar nesse estabelecimento conta como ponto negativo a seu desejo por normalidade.

Rachel Chu, professora de economia, namora há dois anos Nick Young, professor de história. Ela nasceu na China e se mudou quando criança para os EUA, ele nasceu e cresceu em Cingapura, e ambos não gostavam da ideia de serem apresentados a possíveis pretendentes só porque eram asiáticos. Contudo, indo contra essa própria regra pessoal, os dois estão completamente apaixonados, e Nick convidou a namorada para acompanhá-lo no casamento de seu melhor amigo em sua terra natal. Só tem um pequeno detalhe sobre sua vida que ele nunca contou a Rachel: a sua família é podre de rica, umas das mais endinheiradas de Cingapura –um lugar que abriga muitos endinheirados.

Um bom resumo de Mac e seu contratempo, novo romance de Enrique Vila-Matas (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista), seria a clichê frase “nada se cria, tudo se copia”. Em sua obra, Vila-Matas sempre tratou da própria ficção, da arte, do processo de escrita, do que é literatura e como ela se alimenta de suas influências. Neste romance, a metaliteratura está presente com força, abordada em um diário sobre a (re)escrita de um livro.

Nos anos 1940, Anna Kerrigan é uma jovem de 21 anos que trabalha no Arsenal da Marinha, na zona portuária de Nova York. Em plena Segunda Guerra Mundial, a escassez de homens – pois muitos foram enviados para a batalha – leva as fábricas a contratarem cada vez mais mulheres. Anna é uma dessas jovens que se alistam para ajudar, para sentir que estão fazendo a sua parte na luta, mas os dias em que passa medindo peças minúsculas que farão parte de um navio da marinha são tediosos demais. Após observar um mergulhador sendo içado da água ela decide que vai se tornar uma mergulhadora.  

Primeiro romance publicado de David Foster Wallace, The Broom of the System foi lançado em 1987. Ele já contém muito do jeito DFW de narrar, essa coisa meio absurda e extremamente contemplativa – mas sem notas de rodapé. Quando comecei a ler, Caetano Galindo, tradutor de Graça infinita, sugeriu que eu desse uma olhada no artigo sobre Wittgenstein na Wikipedia, pois ajudaria a entender o livro. Li. Entendi nada.

Charlie Gordon tem trinta e poucos anos. Desde os 17 trabalha na mesma padaria varrendo o chão e fazendo entregas. O emprego de Charlie é uma promessa que o dono da padaria fez ao seu tio: que Charlie sempre tivesse um lugar onde trabalhar, ganhar um dinheiro e se manter. Há anos ele não tem contato com seus pais e sua irmã mais nova. Foi praticamente abandonado por eles. Charlie tem um Q.I de 70. É como se tivesse uma mente de criança. Ele não consegue aprender coisas simples, mas seu sonho é saber ler e escrever. Ser inteligente. E ele está prestes a se envolver em uma experiência que vai ajudá-lo nisso.

Quando uma autora que você gosta muito te decepciona, o sentimento é o mesmo de quando seu restaurante favorito te decepciona: triste demais. Meu primeiro contato com Donna Tartt foi aos 16 anos de idade, quando li A história secreta, uma trama sobre um grupo de estudantes da língua grega que se envolvem em rituais dionisíacos, uma certa dose de orgia e assassinato. Não é um livro de mistério, mas sim uma trama bem estruturada sobre amizade e segredos. Anos depois o li novamente e continuei achando o meu preferido. De O pintassilgo também gostei, talvez não com tanta força, mas o clima de A história secreta permanecia, aquela coisa da sofisticação de Donna Tartt que tanto gosto. Infelizmente, não tive a mesma sorte com amigo de infância.

Jean-Yves Berthault estava ajudando na mudança de uma amiga quando encontrou no sótão de sua casa um punhado de cartas com aparência antiga. Ao ler o conteúdo, o diplomata se espanta positivamente: são cartas de amor escritas entre 1928 e 1930, todas de autoria de uma mesma mulher, Simone, endereçadas a seu amante, Charles. Cartas com linguagem que indicam a boa educação de sua autora e, para a surpresa de Berthault, carregadas de conteúdo erótico.