Foi um amigo maravilhoso quem me mandou um livro de Joan Didion, Play it as it lays, e me apresentou à ela (obrigada, João <3). Era um romance que se passava em Los Angeles, sobre uma atriz enfrentando diversos problemas pessoais — a depressão, um casamento fracassado, a separação de sua filha. Eu amei o livro, mas não cheguei a resenhar ele aqui. Não me senti apta. Logo depois ele me presenteou com Slouching Towards Bethlehem, seu mais famoso livro de ensaios, e por mais que eu quisesse muito ler, acabei deixando para trás. 

Blythe Connor sonhava em ser mãe, apesar de ter crescido num ambiente familiar com muitos problemas. Tanto a mãe quanto a avó passaram longe de serem mães exemplares. Há anos ela não vê a própria mãe, que abandonou ela e seu pai quando era adolescente. Casada com Fox, vê nessa recém-formada família a oportunidade de poder fazer diferente — de ser uma mãe amorosa, acolhedora, coisa que ela nunca teve. É Blythe quem conta sua história e a história da sua família em O impulso, romance de Ashley Audrain publicado pela Editora Paralela com tradução de Lígia Azevedo. 

Não queria começar esse texto logo falando de Karl Ove Knausgård, mas não encontrei outro jeito. Quando comecei a ler sua série, Minha Luta, ficava logo pensando em como as pessoas descritas em seus livros se sentiam. É uma exposição absurda ter a sua relação com alguém escrita para o mundo todo ler, mesmo que a base da narrativa seja o próprio autor. Mas ele não vive sozinho, isolado no mundo, então outras pessoas aparecem. Linda Boström Knausgård foi uma personagem importante em seus romances, principalmente em Um outro amor, segundo livro da série onde ele abordava o casamento com ela e a paternidade. Tudo mundo sabia quem era Linda, como se conheceram, como começaram a se envolver. Mas não eram as palavras de Linda. Era tudo pela visão dele. 

Em setembro do ano passado, eu tive um colapso mental no trabalho. Não chegou a ser um burnout, aquele esgotamento de quando a gente está com coisas demais na mão, fazendo mais do que as nossas capacidades, e acabamos tendo um troço. Foi mais uma coisa de “não é isso o que eu quero fazer, isso não está me fazendo bem, eu quero sair”. E saí. De lá para cá, minha relação com o trabalho está muito diferente. Isso porque decidi priorizar eu mesma, as minhas coisas e os meus desejos, e não priorizar o trabalho em si. Porque percebi que, para eu me sentir bem, eu não preciso estar sempre produzindo e sempre disponível — embora, tenha que dizer, essa vida de freela exija que eu esteja disponível, mas de um jeito leve, sem muitas cobranças. 

Raquel Tommazzi é artista, tem 130 quilos, estudou na Europa e usa sua arte para discutir a violência. Alexandre Tommazzi, seu irmão, é dono de uma rede de academias, religioso, daqueles que prezam a família e os bons costumes. Durante uma palestra em um seminário sobre a violência, Raquel é espancada em cima do palco por um homem que tem ligação com seu irmão. Esse acontecimento repercute no meio artístico, e uma cineasta europeia vem até o Brasil para entrevistar Raquel e Alexandre sobre esse acontecimento para um documentário que trata, também, da violência. 

Sabe aquele livro que te chama a atenção na livraria e você não pensa duas vezes antes de levar? Capa bonita, sinopse interessante, tudo nele grita “me compre!”, e você obedece. Com Uma noite, Markovitch, de Ayelet Gundar-Goshen (Todavia, tradução de Paulo Geiger) foi assim. Faz alguns anos que vi ele na livraria e comprei sem saber muita coisa. E por não saber muito acabei demorando horrores para ler. Nem mesmo quando Gundar-Goshen veio para a Flip, no ano passado, eu tirei ele da estante. Mas nesse ano chegou a sua vez. 

Livros eram coisas que, na minha infância, pareciam inalcançáveis. Lembro de ter visto uma grande quantidade de livros apenas na casa de uma família: os patrões da minha mãe, que tinham uma vida bem mais confortável que a nossa. Apesar de ter passado anos naquela casa, os livros eram inacessíveis para mim, não só porque ficavam dentro de uma estante envidraçada, mas porque eram quase todos em um idioma que eu não compreendia. Eu gostava de ficar olhando para aquela estante, já gostava de ler os poucos livros que chegavam até mim. E eu desejava ter muitos livros quando eu crescesse, como os patrões da minha mãe.   

Para mim é difícil separar a obra de Domenico Starnone da de Elena Ferrante. Mesmo que os boatos de que os dois autores italianos sejam casados seja apenas isso, boatos, é inegável que seus livros conversam, e muito. Como Laços Dias de abandono, em que um parece ser o contraponto do outro. Durante a leitura de Segredos, seu mais recente romance lançado no Brasil (Todavia, tradução de Maurício Santana Dias), vi elementos de Ferrantes em vários momentos da história. Mas as semelhanças que, no começo do livro, me faziam lembrar Nino e Lila da tetralogia napolitana logo se desfizeram.  

Histórias sobre suicidas têm um certo apelo para mim. Houve uma época, anos atrás, que eu estava numa fase de ler só sobre suicídios: As virgens suicidas, do Jeffrey Eugenides; Norwegian Wood, do Haruki Murakami; Suicídios exemplares, do Enrique Villa-Matas. O que talvez diga muito sobre o meu psicológico daqueles dias. Sempre fui voltando para essas histórias, mas com parcimônia. A desse ano foi O amigo, de Sigrid Nunez (Editora Instante, tradução de Carla Fortino), vencedor do National Book Award de 2018.