Vocês devem ter percebido que as leituras de não ficção andam frequentes por aqui. Ando dando mais atenção a elas, seja por me interessar pelo assunto ou por querer conhecer mais sobre algo específico. Falso espelho (Todavia, tradução de Carol Bensimon) é um desses livros que mais aguardei a leitura. Jia Tolentino apresenta uma série de ensaios que refletem sobre a autoimagem, a internet, o discurso e tudo o que envolve nos expor e consumir conteúdos online. Além disso, traz boas questões sobre como enxergamos as mulheres nessas e em outras plataformas – como a literatura.

Li Mulher, solteira e feliz, de Gunda Windmüller (tradução de Petê Rissati) a convite da Primavera Editorial para o lançamento do livro aqui no Brasil. Uma leitura que chegou no tempo certo e que tem tudo a ver comigo e o que estou vivendo agora. Eu tive poucos namoros na vida e estou solteira há quase 10 anos. Por muito tempo achei que havia algo de errado comigo por estar solteira por tão longo período – e não vou mentir que, às vezes, ainda penso isso. Também não tenho grandes pretensões de, um dia, me casar, e a cada dia penso que o único futuro possível para mim é ficar solteira para sempre. E eu não vejo isso como algo ruim.

Não há melhor momento para ler um livro como Dez drogas, de Thomas Hager (Todavia, tradução de Antônio Xerxenesky), do que este. Estamos a toda hora vendo notícias sobre a pandemia, aguardando por uma vacina, pelo momento de poder sair de casa. E o livro de Hager, além de ser uma leitura ótima para os naturalmente curiosos, faz um bom retrato de como a humanidade e a medicina se desenvolveram com a descoberta dos remédios.

Edgar Wilson trabalha recolhendo restos de animais mortos na beira da estrada. Quem já andou pelas estradas do interior sabe bem o quanto essa cena é comum: gambás, tatus, aves, cachorros, gatos, vacas… Não são poucos os animais que colidem com veículos e que assustam e até matam quem é surpreendido por eles. Mas Edgar não não se preocupa com quem atropela, e sim com o atropelado. Seu trabalho é recolher os animais, não os humanos. Ele é o protagonista de Enterre seus mortos, de Ana Paula Maia (Companhia das Letras), livro que foi finalista do Prêmio Jabuti.

Berta Isla e Tomás Nevinson se conhecem desde a adolescência. Cresceram em Madrid, mas Nevinson tem dupla nacionalidade – a mãe é madrilenha, o pai é inglês. Por isso mesmo, após o colegial, ele parte para Oxford, onde chamu a atenção de um professor que havia trabalhado para o MI6 durante a Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos da ditadura de Franco, Nevinson se vê recrutado – praticamente obrigado – a trabalhar como agente secreto.

Meu primeiro contato com Siri Hustvedt foi com o livro O mundo em chamas, uma trama feita de retalhos que contava a história de uma artista plástica e seu experimento sobre como o mercado da arte, a mídia e o público recebem de formas diferentes o que é produzido por uma mulher e o que é produzido por um homem. Com digressões sobre a arte em si, sobre neurologia e psicologia, O mundo em chamas se tornou um dos meus livros favoritos. Mas quando fui ler outras obras da autora, como Os encantamentos de Lili Dahl e O verão sem homens, o furor que senti com seu romance mais recente não veio.

Para um observador, o cotidiano é um prato cheio de histórias. Qualquer acontecimento mundano pode se transformar em uma narrativa interessante ou desencadear uma reflexão nova. A protagonista de Rachel Cusk em Esboço (Todavia, tradução de Fernanda Abreu) é esse tipo de pessoa observadora e atenta.

Muitas vezes quando o mundo parece colapsar e tudo é envolto em medo e incerteza, o coletivo reflete no individual. Nos EUA em plena campanha que elegeu Donald Trump como presidente, esse medo, incerteza e caos invade a vida de Barry Cohen. Entrando numa famosa “crise da meia-idade”, o administrador de fundos vê sua vida desmoronar: seu trabalho vai mal, o casamento está praticamente destruído e seu filho lhe causa desconforto – um garoto autista de três anos de idade que não é nada daquilo que ele e sua esposa esperavam ao se tornarem pais. Confuso, ele abandona tudo – menos alguns relógios da sua rica coleção – e parte para uma viagem de ônibus pelos EUA em busca da namorada da faculdade, como se reencontrá-la fosse resolver a sua vida.

Computadores certamente nos ajudaram muito a melhorar. Facilita o trabalho, os processos, deixa tudo mais rápido e menos complicado. Mas eles por si só são complicados, e nossa falta de conhecimento sobre o funcionamento das máquinas pode nos deixar à mercê delas. Conhecê-las e entende-las é o aviso que James Bridle nos deixa em A nova idade das trevas (Todavia, tradução de Érico Assis), um alerta sobre a obscuridade nos tempos da informação.