Levei um tempo para ler Um amor incômodo (Intrínseca, tradução de Marcello Lino). Na ânsia de ler Elena Ferrante, devorava um livro dela assim que chegava às livrarias brasileiras. Com o fim da tetralogia napolitana, resolvi deixar esse para depois, para quando batesse uma vontade de voltar à autora italiana. Pois bateu. Assim como seus outros romances fora da série – A filha perdida e Dias de abandono –, Um amor incômodo também reflete temas do dramalhão de Lila e Lenu. Neste caso, é a relação entre mãe e filha que fica em evidência.

Nunca antes na história (deste país) desta leitora, um livro de Nicole Krauss caiu em suas mãos. Eu conhecia o nome, sabia que deveria estar na minha lista de autoras contemporâneas lidas, mas fora isso, não tinha nenhuma outra informação sobre ela e seus livros – deixemos os dados matrimoniais de lado. No último mês, chegou aqui no Brasil seu romance mais recente, Floresta escura, traduzido por Sara Grünhagen e lançado pela Companhia das Letras. Aí aproveitei.

Edward St. Aubyn começou a publicar os romances de Patrick Melrose em 1992 e terminou a série de cinco livros em 2012. Baseado em fatos de sua própria vida, os livros acompanham Patrick da infância até a idade adulta. Seu pai, David, é um ex-soldado e médico que enriqueceu após o casamento com Eleanor, filha de uma tradicional família inglesa. Patrick é filho único, cresceu em mansões e estudou em boas escolas. Viajou pelo mundo todo e frequentou festas com a presença da família real. Uma vida bem abastada, digamos, para render uma narrativa de cinco livros sobre os podres da elite londrina. Mas a história de Patrick Melrose não é só puro deboche da vida cheia de riquezas de sua família e amigos.

Quando ganhei Marlena, de Julie Buntin, a recomendação é de que o romance se assemelhava à tetralogia napolitana de Elena Ferrante. Aos trinta e poucos anos, Catherine, que trabalha como relações públicas de uma biblioteca em Nova York, recebe uma ligação inesperada: Sal, irmão mais novo de uma amiga de sua adolescência. Ele quer encontrar Cat para conversar sobre sua irmão, os dias que antecedem esse encontro liberam em Cat todas as lembranças dos oito meses que conviveu com Marlena na pequena e fria Silver Lake – ela com 15 anos, a amiga, com 18. Uma amizade tão intensa e reveladora que, mesmo anos depois da morte de Marlena, ainda afeta Cat.

No dia 16 de março de 1947, Archibald Isaac Ferguson nasceu. Filho de Rose Adler, fotógrafa, e Stanley Ferguson, que junto com seus dois irmãos tocava uma loja de móveis em New Jersey. Archie (ou Ferguson, como será chamado de seu nascimento em diante) teve uma infância normal: era amado pelos pais – mais pela mãe, com quem passava a maior parte do tempo –, brincava, praticava esportes, lia muito – por influência de Mildred, sua única tia materna –, tinha bons amigos no colégio, tirava boas notas, ia a cada verão para um acampamento para crianças judias. Ferguson gostava de histórias, gostava de contá-las também, e tinha uma curiosidade grande sobre o mundo. Ferguson perdeu o pai quando ainda criança. Ferguson viu os pais se separarem na sua adolescência. Ferguson foi filho de uma família rica e de uma família à margem da dificuldade financeira. Ferguson adorava beisebol e adorava basquete. Ferguson teve quatro histórias sobre si mesmo para contar.

Conversas entre amigos (tradução de Débora Landsberg) é o romance de estreia de Sally Rooney, uma irlandesa de 26 anos que chamou atenção com sua história sobre os relacionamentos contemporâneos. Frances, de 20 anos, é uma estudante e poeta que se apresenta no círculo intelectual de Dublin com sua melhor amiga e ex-namorada, Bobbi. A atuação das duas no palco chama a atenção de uma jornalista de renome, Melissa, que está fazendo um perfil das jovens novatas da cena cult da cidade. As entrevistas que conduz com as garotas levam a uma aproximação com a vida íntima da própria jornalista, casada com Nick, um ator de cinema relativamente famoso, mais pela beleza do que pela capacidade de atuação.

Há famílias onde nada é segredo. Pais e filhos conversam abertamente sobre o que estão sentindo, sobre seus problemas mais complicados e íntimos, e tudo se resolve numa boa conversa. Eu não vim de uma família assim, e, ainda hoje, não sinto que posso falar sobre qualquer coisa com meus pais, tios, avós ou primos. Pode ser uma forma de autoproteção, de evitar reprimendas e julgamentos, ou por achar que vivo uma realidade distante da deles e por isso não haveria compreensão. Assim, nem as coisas mais mundanas são ditas.

“Se ansiamos que nosso planeta seja importante, há algo que podemos fazer quanto a isso. Podemos fazer com que ele seja significativo com a coragem de nossas perguntas e a profundidade de nossas respostas.” – Carl Sagan

Carl Sagan não precisa de apresentações, assim como Cosmos. Quem viveu nos anos 1980 e 1990 lembra bem da série de TV que aproximou ainda mais o público “comum” da ciência, essa coisa tão obscura e complicada. E quem, como eu, não viveu essa descoberta do universo com a série original, acabou impactado com seu reboot dois anos atrás, agora na versão de Neil deGrasse Tyson. É claro que eu já sabia quem era Carl Sagan e qual era a sua importância para a comunidade científica antes dessa nova série, já tinha lido alguns de seus livros – é curioso lembrar que meu primeiro contato com sua obra foi justamente através de sua única ficção, o romance Contato. Depois de ver a série, de ler outros de seus livros – como O mundo assombrado pelos demônios –, foi bom demais ler Cosmos e entender a paixão de Sagan pela ciência.

É difícil ler Laços sem pensar em Dias de abandono. Mesmo que você tente ignorar os rumores sobre a real identidade de Elena Ferrante – Domenico Starnone é casado com Anita Raja, que apontam como a pessoa por trás do pseudônimo –, os paralelos entre os dois livros são muitos. Mas calma, cada livro se sustenta muito bem sozinho. Em Dias de abandono, acompanhamos o drama de uma mulher deixada pelo marido, sua amargura por ter sido trocada por alguém bem mais jovem, o sentimento de não ser mais bonita, desejada, e com o peso da responsabilidade pelos filhos todo em cima dela. Em Laços, começamos pelo mesmo lugar: Starnone nos apresenta cartas que Vanda, a esposa abandonada, manda para o marido Aldo, alternando momentos de compreensão com ataques de fúria.

Depois de quatro volumes da série Minha Luta, já era hora de Karl Ove Knausgård falar sobre o principal tema de seus livros: a própria escrita. É claro que ele passou por esse tema nos volumes anteriores, principalmente em Um outro amor e Uma temporada no escuro, segundo e quarto volumes da série. Mas A descoberta da escrita era de certa forma aguardado por compreender os anos de formação do norueguês como escritor.