Jean-Yves Berthault estava ajudando na mudança de uma amiga quando encontrou no sótão de sua casa um punhado de cartas com aparência antiga. Ao ler o conteúdo, o diplomata se espanta positivamente: são cartas de amor escritas entre 1928 e 1930, todas de autoria de uma mesma mulher, Simone, endereçadas a seu amante, Charles. Cartas com linguagem que indicam a boa educação de sua autora e, para a surpresa de Berthault, carregadas de conteúdo erótico.

Em 1985, um parque está prestes a inaugurar no coração da floresta Amazônica. Tupinilândia é a exaltação da cultura brasileira: Artur Arara recebe de asas abertas o público adulto e infantil que poderá se encantar com montanhas-russas, carrosséis, réplicas de dinossauros, encontrar antigos personagens queridos da ficção e da realidade, tudo regado ao melhor da produção nacional. Tupinilândia não é só um parque de diversões, mas também uma cidade milimetricamente planejada. Como o município mais perto fica a dezenas de quilômetros de distância, os funcionários do empreendimento vivem dentro do complexo, contando com uma estrutura bem abastecida para atender a todas as suas necessidades. Tupinilândia é um sonho que está se tornando realidade. Ou quase.

Essa vai ser uma resenha curtinha de um livro curtinho. Voltando a morar em Nova York após anos vivendo em Paris, e se recuperando do luto pela perda da esposa e da filha, Philip, um escritor na casa dos 80 anos, reencontra em uma noite de ópera Lucy de Bourgh, mulher que na sua juventude foi uma figura estonteante da alta sociedade norte-americana. Herdeira de uma família de prestígio, Lucy foi casada com Thomas Snow, um homem que não nasceu em berço de ouro como ela e que alcançou a riqueza após o casamento e com o seu talento para investimentos. Anos depois da separação e da morte de Thomas, Lucy confessa a Philip que nunca quis, na verdade, ter se casado com ele, e a visão que a agora velha mulher tem de seus anos de matrimônio são as piores possíveis.

Samuel Anderson é um professor de literatura inglesa numa universidade próxima a Chicago. Está na casa dos 30 anos de idade, há 10 anos assinou contrato para um livro – que nunca chegou a terminar de escrever – e sente um imenso tédio ao dar suas aulas: alunos desmotivados, que não se interessam pelo tema e estão lá apenas por obrigação. A única coisa que faz Samuel esquecer um pouco da vida estagnada é Elfscape, um RPG online que joga após o expediente. Certamente Samuel preferiria continuar na calmaria do tédio cotidiano do que ter que lidar com vários problemas que surgem ao mesmo tempo: a “perseguição” de uma aluna que não aceita ser reprovada e o retorno de sua mãe, que o abandonou quando ele tinha 11 anos de idade.

Shaker Heights é uma cidade onde tudo funciona perfeitamente. O bairro planejado contém casas grandes e bem arrumadas, com o mesmo padrão de cores, com jardins bem cuidados. Manter essa ordem exige regras bem restritas, como cortar a grama nos dias certos e no tamanho certo, não deixar o lixo na parte da frente da casa para não afetar a vista das fachadas. Toques de recolher em datas festivas para que as ruas não se sujem demais, para que o barulho não atrapalhe ninguém da vizinhança. Shaker Heights é o subúrbio perfeito, o lugar em que qualquer pessoa que ama organização e ordem gostaria de morar, um lugar sem problemas, sem escândalos. Shaker Heights não é um lugar para pessoas como Mia e Pearl Warren, novatas no lugar, ou como Izzy, que acaba de sair da casa dos pais após atear fogo na residência.

Duas crianças estão mortas. O bebê morreu rapidamente. A menina, um pouco mais velha, não vai resistir às agressões. A mãe voltou mais cedo para casa, e o que encontrou foi o caos: seus filhos mortos e a babá que tentou tirar a própria vida depois do que fez. O primeiro capítulo de Canção de ninar, de Leïla Slimani (Tusquets, tradução de Sandra M. Stoparo) conta logo de cara qual é o desfecho dessa trama que fala sobre maternidade e sobre a relação de poder entre as classes. Slimani é uma das autoras confirmadas da Festa Literária Internacional de Paraty de 2018 e também uma das conferencistas do Fronteiras do Pensamento. Com Canção de ninar, foi a primeira autora de origem marroquina a vencer o Prêmio Goncourt, em 2016.

“Me chame de Jonah”, começa o protagonista e narrador de Cama de gato, de Kurt Vonnegut (Aleph, tradução de Livia Koeppl), que também pode ser chamado de John. Pensei logo em Moby Dick, um livro que nunca li – e não sei se quero ler. Mas nunca esqueci o final do filme Matilda, onde a garota confortavelmente sentada na sua cama faz o livro de Herman Melville flutuar até ela e o abre na primeira página: Call me Ishmael…

 

“História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo.”

Roman Osipovitch Markin é um artista que virou censor. Na União Soviética dos anos 1930, seu trabalho consiste em apagar da História personalidades controversas, artistas, políticos, ativistas, qualquer pessoa que tenha se oposto ao regime socialista. Seu talento para a pintura, mais especificamente os retratos, não era grande o bastante para se tornar um artista. Mas em um regime onde a “História é um erro que estamos perpetuamente corrigindo”, Markin é um dos melhores no seu trabalho.

Em 2000, o escritor uruguaio Mario Levrero ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim para terminar um livro que tinha começado a escrever em 1984. O romance luminoso, nome desse projeto, era para ser um livro sobre os momentos luminosos da vida do autor, acontecimentos marcantes, não necessariamente grandiosos, que vivenciou. Mas escrever sobre esses momentos se mostrou uma tarefa árdua: difícil colocar em palavras as sensações que esses acontecimentos despertaram, difícil explicar ao leitor por que essas interações simples se embrenharam tão fundo na memória do autor. Mas Levrero queria terminar esse livro, não queria deixar o mundo – ele morreu em 2004 – sem finalizar o projeto. Só que, da mesma forma que dinheiro não compra felicidade (embora eu ache essa frase bem discutível, que só pode sair da boca de alguém que nunca passou por uma dificuldade financeira na vida), ele também não compra inspiração.

Quando li Tipos de perturbação, passei a considerar Lydia Davis uma das minhas autoras favoritas. Seus contos curtíssimos, muitas vezes com poucos parágrafos ou até mesmo uma frase, têm aquele humor sagaz que te deixa por minutos rindo sozinha, pensando em como tão pouco pode dizer tanto. E seus textos mais longos são tão encantadores quanto, com personagens muito bem desenvolvidas e histórias que se sustentam a cada frase. Seu primeiro romance, O fim da história, não causou a mesma impressão, mas não abalou minha admiração pela autora. E bem ansiosa fui ler sua segunda coletânea de contos publicada no Brasil, Nem vem (tradução de Branca Vianna), lançada no Brasil no ano passado pela Companhia das Letras.