Escritora, poeta, performer e jornalista, Eileen Myles é um dos principais nomes da poesia contemporânea norte-americana. Seu primeiro livro foi publicado em 1978, uma época em que a cena artística de Nova York, onde vivia, era bem frenética – alguém disse “Patti Smith”? Em 1994, Myles usou suas memórias para compor o romance Chelsea Girls, uma série de histórias que acompanha sua formação artística e suas desilusões amorosas. O livro ganhou uma nova edição em 2019 pela Todavia com tradução de Bruna Beber.

Em 1859, quando retorna a São Petersburgo após ficar quatro anos preso na Sibéria, Fiódor Dostoiévski começa a idealizar seu próximo romance: Humilhados e ofendidos (Editora 34, tradução de Fátima Bianchi). O título certamente ilustra bem o que ele passou em seus dias de prisioneiro, mas aqui ele retrata o povo. Diariamente ofendidos em seus direitos, humilhados pelas circunstâncias da vida, as personagens do romance são uma reunião de pessoas pisoteadas pela sociedade, por mais trabalhadores e honestos que sejam.

Quando o conto “Cat Person” foi publicado na revista New Yorker, em 2017, foi o maior furor. Muitos leitores se identificaram com o texto de Kristen Roupenian que narra o flerte de uma garota de 20 anos com um cara de 30, de como a relação foi se desenvolvendo via mensagem de texto e como ela desandou completamente após o primeiro encontro. Muitos confundiram o texto de ficção com um relato real – totalmente equivocados. E o texto, claro, gerou toda uma discussão também sobre a dinâmica dos relacionamentos atuais, consenso, expectativas e tudo o mais. Foi o texto de ficção mais compartilhado da New Yorker, então é óbvio que isso chamou a atenção dos editores. Com esse sucesso, Roupenian acabou conseguindo um contrato de publicação, e assim surgiu Cat Person e outros contos.

Com cerca de quarenta anos de idade, Gloria está passando por um momento nada feliz em sua vida. Seu pai está hospitalizado, ela perdeu o emprego, mas mesmo antes disso Gloria havia sofrido outro baque enorme: um aborto espontâneo que deu fim ao seu desejo de maternidade. Em meio a tudo isso, ela descobre também que nunca poderá ser mãe. Em O quarto branco, romance de estreia de Gabriela Aguerre (Todavia), acompanhamos Gloria neste momento mais conflituoso de sua vida, onde a protagonista revive  perdas do passado para entender as perdas do presente.

“A vida de Sueco Levov, até onde eu sabia, fora a mais simples, a mais comum e portanto fora ótima, bem de acordo com o temperamento americano.” Nathan Zuckerman, o alter ego de Philip Roth, tem uma opinião bem formada sobre a vida do herói de sua infância e adolescência. Seymour “Sueco” Levov foi o grande nome do esporte nos seus tempos de colégio: bom no basquete, no beisebol e no futebol americano. Não havia nada que o Sueco pudesse fazer sem que fosse bom em tudo. Cinquenta anos depois, com toda a experiência de vida, é essa a imagem que Zuckerman ainda nutre de seu herói – alguém que conquistou o que quis na vida: admiração.

Após trinta anos de casamento, Boris deixa Mia. Segundo Boris não é um fim definitivo, é apenas uma pausa. Uma pausa, Mia sabe, que tem nome, sobrenome, emprego e idade: uma colega de laboratório do marido vinte anos mais nova do que ela. Poeta e professora, Mia tem um background bem diferente de Boris, um conhecido neurocientista, mas isso nunca foi um problema no casamento que lhe deu uma filha. E a injustiça dessa troca, a impossibilidade da vida sem o marido, leva Mia a um estado catatônico, uma dor que ela nunca pensou que poderia ter.  

“Nós, libertinos, pegamos mulheres para serem nossas escravas; a qualidade delas de esposas as torna mais submissas que as amantes, e você sabe como o despotismo é precioso nos prazeres que saboreamos.”  

Os 120 dias de Sodoma talvez seja um dos livros que mais comprovam o quanto o homem sente nojo, ódio e asco pelas mulheres. O clássico inacabado de Marquês de Sade (1740-1814) é um compilado gigantesco de todos os atos perversos que homens praticam com mulheres – e com homens também, claro, mas elas são o principal alvo de seus libertinos quando falamos de sofrimento. Publicado postumamente em 1904, Os 120 dias de Sodoma (tradução de Rosa Freire D’Aguiar para a Penguin-Companhia) foi escrito durante a prisão do Marquês de Sade na Bastilha.  

Não há explicação para a perturbação que aflige Yeonghye. Depois de ter um sonho cheio de sangue e morte, essa pacata sul-coreana decide parar de comer carne. Ela sempre foi boa cozinheira e nunca antes demonstrou sinais de que gostaria de ser vegetariana. Sua transição para uma vida sem carne não foi gradual, não foi planejada. O sonho que tanto a perturbou a fez tomar essa decisão brusca, e no dia seguinte já aboliu qualquer alimento de origem animal da sua dieta. Mas a decisão de Yeonghye não a afetou apenas individualmente. Toda a sua família sentiu os efeitos de sua nova vida vegetariana.  

Entre o absurdo e a realidade, os contos de George Saunders estão entre os meus favoritos. Autor de Dez de dezembro (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2013) e do romance Lincoln no limbo (pela mesma editora no ano passado, e vencedor do Man Booker Prize) ele é considerado um dos principais autores da atualidade. Mas ainda tem coisas do autor não publicadas aqui para se conhecer, que é o caso de Pastoralia, sua segunda coletânea de contos lançada em 2000.

Simon tem 20 anos e acaba de acordar às 4h30 da manhã para pegar onda com seus dois amigos. É um dia frio em uma cidade litorânea da França, a sessão de ondas não foi planejada. Você não consegue antecipar as ondas perfeitas, nem controlar as condições climáticas do dia. Apesar do frio e do horário, os três seguem em frente com o plano e aproveitam uma hora de ótimas ondas nas águas frias do mar. Na volta para casa, o sono e o frio cobram seu preço: o motorista da van pichada de motivos surfistas cai no sono, e Simon, sentado entre o motorista e outro passageiro e o único sem cinto de segurança, é arremessado contra o para-brisas. Não morre. Mas esse será o seu fim.