Meu primeiro contato com Siri Hustvedt foi com o livro O mundo em chamas, uma trama feita de retalhos que contava a história de uma artista plástica e seu experimento sobre como o mercado da arte, a mídia e o público recebem de formas diferentes o que é produzido por uma mulher e o que é produzido por um homem. Com digressões sobre a arte em si, sobre neurologia e psicologia, O mundo em chamas se tornou um dos meus livros favoritos. Mas quando fui ler outras obras da autora, como Os encantamentos de Lili Dahl e O verão sem homens, o furor que senti com seu romance mais recente não veio.

Para um observador, o cotidiano é um prato cheio de histórias. Qualquer acontecimento mundano pode se transformar em uma narrativa interessante ou desencadear uma reflexão nova. A protagonista de Rachel Cusk em Esboço (Todavia, tradução de Fernanda Abreu) é esse tipo de pessoa observadora e atenta.

Muitas vezes quando o mundo parece colapsar e tudo é envolto em medo e incerteza, o coletivo reflete no individual. Nos EUA em plena campanha que elegeu Donald Trump como presidente, esse medo, incerteza e caos invade a vida de Barry Cohen. Entrando numa famosa “crise da meia-idade”, o administrador de fundos vê sua vida desmoronar: seu trabalho vai mal, o casamento está praticamente destruído e seu filho lhe causa desconforto – um garoto autista de três anos de idade que não é nada daquilo que ele e sua esposa esperavam ao se tornarem pais. Confuso, ele abandona tudo – menos alguns relógios da sua rica coleção – e parte para uma viagem de ônibus pelos EUA em busca da namorada da faculdade, como se reencontrá-la fosse resolver a sua vida.

Computadores certamente nos ajudaram muito a melhorar. Facilita o trabalho, os processos, deixa tudo mais rápido e menos complicado. Mas eles por si só são complicados, e nossa falta de conhecimento sobre o funcionamento das máquinas pode nos deixar à mercê delas. Conhecê-las e entende-las é o aviso que James Bridle nos deixa em A nova idade das trevas (Todavia, tradução de Érico Assis), um alerta sobre a obscuridade nos tempos da informação.

É bem provável que a primeira história sobre a origem do homem e do mundo que você ouviu é aquela sobre um ser superior e divino que criou tudo em sete dias – ou melhor, seis, porque no último dia ele descansou. Não importa o nome que essa entidade tenha, cada um a chama de uma forma diferente. Mas o negócio é que havia alguma coisa mágica que deve ter pensado “tenho nada para fazer, vou criar o universo e vai ser daora”. Cada civilização tem sua história das origens, pois desde sempre precisamos de narrativas para orientar as nossas vidas. Origens, de David Christian (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares) não é um livro sobre essas histórias.

Quando lançou Conversas entre amigos, Sally Rooney recebeu o “título” de A Escritora dos Millennials. Não que eu ache saudável sair logo colocando rótulos em escritores estreantes, mas considero que, no caso de Rooney, é uma boa definição de suas personagens. Elas são millennials, a autora é millennial, a história usa ferramentas e a linguagem dos millennials. Em seu segundo livro, Pessoas normais (Companhia das Letras, tradução de Débora Landsberg) esse rótulo persiste. E não, não estou dizendo isso de forma negativa, muito pelo contrário – até porque já é tempo de parar de enxergar o termo como algo negativo.