Uma coisa muito comum entre o leitor médio é o endeusamento do autor. É como se, por ele ter sido capaz de escrever um bom livro, ele se tornasse um Grande Exemplar de Humano. Mas para quem acaba trabalhando no mercado editorial, conhecendo autores, se aprofundando em suas histórias, conhecendo suas vidas, você acaba percebendo que: ninguém é santo, nem aquela escritora ou aquele escritor que você tanto ama.

Berta Isla e Tomás Nevinson se conhecem desde a adolescência. Cresceram em Madrid, mas Nevinson tem dupla nacionalidade – a mãe é madrilenha, o pai é inglês. Por isso mesmo, após o colegial, ele parte para Oxford, onde chamu a atenção de um professor que havia trabalhado para o MI6 durante a Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos da ditadura de Franco, Nevinson se vê recrutado – praticamente obrigado – a trabalhar como agente secreto.

Meu primeiro contato com Siri Hustvedt foi com o livro O mundo em chamas, uma trama feita de retalhos que contava a história de uma artista plástica e seu experimento sobre como o mercado da arte, a mídia e o público recebem de formas diferentes o que é produzido por uma mulher e o que é produzido por um homem. Com digressões sobre a arte em si, sobre neurologia e psicologia, O mundo em chamas se tornou um dos meus livros favoritos. Mas quando fui ler outras obras da autora, como Os encantamentos de Lili Dahl e O verão sem homens, o furor que senti com seu romance mais recente não veio.

Para um observador, o cotidiano é um prato cheio de histórias. Qualquer acontecimento mundano pode se transformar em uma narrativa interessante ou desencadear uma reflexão nova. A protagonista de Rachel Cusk em Esboço (Todavia, tradução de Fernanda Abreu) é esse tipo de pessoa observadora e atenta.