Em 2000, o escritor uruguaio Mario Levrero ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim para terminar um livro que tinha começado a escrever em 1984. O romance luminoso, nome desse projeto, era para ser um livro sobre os momentos luminosos da vida do autor, acontecimentos marcantes, não necessariamente grandiosos, que vivenciou. Mas escrever sobre esses momentos se mostrou uma tarefa árdua: difícil colocar em palavras as sensações que esses acontecimentos despertaram, difícil explicar ao leitor por que essas interações simples se embrenharam tão fundo na memória do autor. Mas Levrero queria terminar esse livro, não queria deixar o mundo – ele morreu em 2004 – sem finalizar o projeto. Só que, da mesma forma que dinheiro não compra felicidade (embora eu ache essa frase bem discutível, que só pode sair da boca de alguém que nunca passou por uma dificuldade financeira na vida), ele também não compra inspiração.

Quando li Tipos de perturbação, passei a considerar Lydia Davis uma das minhas autoras favoritas. Seus contos curtíssimos, muitas vezes com poucos parágrafos ou até mesmo uma frase, têm aquele humor sagaz que te deixa por minutos rindo sozinha, pensando em como tão pouco pode dizer tanto. E seus textos mais longos são tão encantadores quanto, com personagens muito bem desenvolvidas e histórias que se sustentam a cada frase. Seu primeiro romance, O fim da história, não causou a mesma impressão, mas não abalou minha admiração pela autora. E bem ansiosa fui ler sua segunda coletânea de contos publicada no Brasil, Nem vem (tradução de Branca Vianna), lançada no Brasil no ano passado pela Companhia das Letras.

 

“Não é magia, é tecnologia”. A propaganda da famigerada Tekpix é um bom exemplo de que magia e tecnologia não andam juntas. Uma é totalmente subjetiva, baseada em crenças nunca comprovadas. A outra é pura exatidão, real, palpável. Não tem como as duas coisas andarem de mãos dadas. Uma recusa a outra: a magia não aprova o progresso que a tecnologia traz, que destrói recursos naturais e deixa as pessoas mais próximas das máquinas, e não da natureza; a tecnologia não aceita a magia, uma invenção para pegar trouxa, pseudociência, coisa de gente doida.

Charlie Jane Anders quer aproximar esses dois “inimigos” em Todos os pássaros no céu (Morro Branco, tradução de Petê Rissatti), vencedor do Nebula Awards, um dos principais prêmios da ficção científica, e finalista do Hugo Awards. O livro acompanha a vida de dois jovens, Patricia e Laurence, que são completamente opostos. Mas seus destinos estão fortemente ligados.

No mundo corporativo, nada é mais importante do que a produtividade. Se alguma coisa irá melhorar a produtividade dos funcionários, ela será implementada. Se alguma coisa influenciar negativamente essa produtividade, ela será proibida – pelo menos seria assim na teoria, mas sabemos que nem sempre é o que acontece. No mundo corporativo, um assunto que certamente é delicado e afeta o desempenho dos funcionários são os seus desejos carnais. O estresse do ambiente de trabalho combinado com a presença de mulheres no escritório – mais ainda se a vida conjugal em casa não estiver aquelas coisas – pode desencadear uma série de comportamentos inaceitáveis que influenciam naquilo que mais importa para uma empresa: a produtividade.

Em 1942, a expansão germânica está no seu auge. O território tchecoslovaco foi anexado ao império nazista de Hitler, sua população dividida entre resistir e perder a vida ou se curvar ao novo líder e sobreviver. Reinhard Heydrich, chefe da Gestapo, é nomeado o “protetor” da agora chamada Boêmia-Morávia, um homem extremamente ambicioso, que rapidamente cresceu aos olhos do führer, e que é tão malévolo quanto ele. Heydrich foi, também, um dos principais arquitetos da “solução final”.

“‘HHhH’, dizem na SS: Himmlers Hirn heiβt Heydrich – o cérebro de Himmler chama-se Heydrich.” O romance de Laurent Binet, apesar do título, não é sobre Heydrich. Ou não é apenas sobre ele. E nem é apenas sobre a Segunda Guerra. Vencedor do Prêmio Goncourt de 2010, HHhH (Companhia das Letras, tradução de Paulo Neves) apresenta um autor aficionado por um específico momento histórico: a operação Antropoide, que matou Heydrich em Praga em 1942. O plano foi arquitetado pelo exército tchecoslovaco exilado em Londres, e posto em prática pelos sargentos Jan Kubiš e Jozef Gabcík. Uma missão suicida.

Levei um tempo para ler Um amor incômodo (Intrínseca, tradução de Marcello Lino). Na ânsia de ler Elena Ferrante, devorava um livro dela assim que chegava às livrarias brasileiras. Com o fim da tetralogia napolitana, resolvi deixar esse para depois, para quando batesse uma vontade de voltar à autora italiana. Pois bateu. Assim como seus outros romances fora da série – A filha perdida e Dias de abandono –, Um amor incômodo também reflete temas do dramalhão de Lila e Lenu. Neste caso, é a relação entre mãe e filha que fica em evidência.

Nunca antes na história (deste país) desta leitora, um livro de Nicole Krauss caiu em suas mãos. Eu conhecia o nome, sabia que deveria estar na minha lista de autoras contemporâneas lidas, mas fora isso, não tinha nenhuma outra informação sobre ela e seus livros – deixemos os dados matrimoniais de lado. No último mês, chegou aqui no Brasil seu romance mais recente, Floresta escura, traduzido por Sara Grünhagen e lançado pela Companhia das Letras. Aí aproveitei.

Edward St. Aubyn começou a publicar os romances de Patrick Melrose em 1992 e terminou a série de cinco livros em 2012. Baseado em fatos de sua própria vida, os livros acompanham Patrick da infância até a idade adulta. Seu pai, David, é um ex-soldado e médico que enriqueceu após o casamento com Eleanor, filha de uma tradicional família inglesa. Patrick é filho único, cresceu em mansões e estudou em boas escolas. Viajou pelo mundo todo e frequentou festas com a presença da família real. Uma vida bem abastada, digamos, para render uma narrativa de cinco livros sobre os podres da elite londrina. Mas a história de Patrick Melrose não é só puro deboche da vida cheia de riquezas de sua família e amigos.

Quando ganhei Marlena, de Julie Buntin, a recomendação é de que o romance se assemelhava à tetralogia napolitana de Elena Ferrante. Aos trinta e poucos anos, Catherine, que trabalha como relações públicas de uma biblioteca em Nova York, recebe uma ligação inesperada: Sal, irmão mais novo de uma amiga de sua adolescência. Ele quer encontrar Cat para conversar sobre sua irmão, os dias que antecedem esse encontro liberam em Cat todas as lembranças dos oito meses que conviveu com Marlena na pequena e fria Silver Lake – ela com 15 anos, a amiga, com 18. Uma amizade tão intensa e reveladora que, mesmo anos depois da morte de Marlena, ainda afeta Cat.

No dia 16 de março de 1947, Archibald Isaac Ferguson nasceu. Filho de Rose Adler, fotógrafa, e Stanley Ferguson, que junto com seus dois irmãos tocava uma loja de móveis em New Jersey. Archie (ou Ferguson, como será chamado de seu nascimento em diante) teve uma infância normal: era amado pelos pais – mais pela mãe, com quem passava a maior parte do tempo –, brincava, praticava esportes, lia muito – por influência de Mildred, sua única tia materna –, tinha bons amigos no colégio, tirava boas notas, ia a cada verão para um acampamento para crianças judias. Ferguson gostava de histórias, gostava de contá-las também, e tinha uma curiosidade grande sobre o mundo. Ferguson perdeu o pai quando ainda criança. Ferguson viu os pais se separarem na sua adolescência. Ferguson foi filho de uma família rica e de uma família à margem da dificuldade financeira. Ferguson adorava beisebol e adorava basquete. Ferguson teve quatro histórias sobre si mesmo para contar.