Entre o absurdo e a realidade, os contos de George Saunders estão entre os meus favoritos. Autor de Dez de dezembro (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2013) e do romance Lincoln no limbo (pela mesma editora no ano passado, e vencedor do Man Booker Prize) ele é considerado um dos principais autores da atualidade. Mas ainda tem coisas do autor não publicadas aqui para se conhecer, que é o caso de Pastoralia, sua segunda coletânea de contos lançada em 2000.

Simon tem 20 anos e acaba de acordar às 4h30 da manhã para pegar onda com seus dois amigos. É um dia frio em uma cidade litorânea da França, a sessão de ondas não foi planejada. Você não consegue antecipar as ondas perfeitas, nem controlar as condições climáticas do dia. Apesar do frio e do horário, os três seguem em frente com o plano e aproveitam uma hora de ótimas ondas nas águas frias do mar. Na volta para casa, o sono e o frio cobram seu preço: o motorista da van pichada de motivos surfistas cai no sono, e Simon, sentado entre o motorista e outro passageiro e o único sem cinto de segurança, é arremessado contra o para-brisas. Não morre. Mas esse será o seu fim.

Quem acompanha o blog faz algum tempo já sabe o quanto gosto da Zadie Smith. Swing Time esteve entre minhas leituras favoritas de 2017, e White Teeth foi igualmente apreciado. No ano passado, a autora lançou mais um livro, mas dessa vez de ensaios: Feel Free, uma compilação de textos publicados em revistas e periódicos, e também discursos e outras falas que a autora concedeu sobre os mais variados temas. A não-ficção de Smith nunca foi publicada no Brasil, fora algum ensaio traduzido para uma revista ou para alguma exposição – como foi o caso de seu texto sobre The Clock, que esteve em cartaz no IMS de São Paulo. Mas, até onde eu sei, não há planos de lançar uma coletânea com sua não-ficção por aqui.

Gustavo Melo Czekster lançou sua primeira coletânea de contos, O homem despedaçado, em 2011 (Dublinense). Foi uma ótima estreia, e até hoje está entre meus livros favoritos de literatura brasileira. “Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de autoconhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo”, escrevi sobre o livro na época. Em 2017, o segundo livro do autor foi lançado pela editora Zouk, Não há amanhã, com tema diferente de sua primeira obra, mas ainda com a narrativa afiada e inventiva que me fez gostar de seus contos.

Sempre imaginei que, entre a vinda do diabo e a volta do messias, o diabo seria mais divertido. Não sou nada religiosa, apesar de me interessar bastante pelo tema – a religião influencia demais toda a nossa vida e sociedade para que eu possa ignorá-la, então sendo religiosa ou não, é um assunto a se conhecer. Mas, caso tivesse algum tipo de fé ou crença, o diabo teria meu voto. Sei lá, os vilões sempre me agradaram. Demorei muito para ler O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (li na edição da Alfaguara, tradução de Zoia Prestes, mas dizem que a edição da Editora 34 é melhor), apesar de todas as recomendações e de estar na minha mira por pelo menos uns seis anos. A capa com o gato demoníaco me atraía sempre, mas por algum motivo eu sempre deixava para lá. Até ler esse artigo de Viv Grokop no Literary Hub sobre como a leitura desse romance é fundamental para tempos sombrios. E estamos em tempos sombrios. E a vinda do diabo não poderia ser mais divertida.

A pergunta que sempre me fazem, seja aqui no blog, na newsletter, no Curious Cat, whatever, é qual é o meu livro favorito. Já fiz várias listas e pensei em várias obras que poderiam entrar ou sair delas, pois realmente não é fácil escolher. Faço uma lista mesmo pela impossibilidade de escolher O Favorito: há muitas histórias que amo, e cada uma tem aquele elemento particular que a torna diferente da outra, e não sou capaz de eleger só um.

Livros demais! é um livrinho de Gabriel Zaid que a Diana me emprestou logo quando a gente se conheceu (lá em 2010? 2011?). Ela me mandou pelos correios e eu, gente boa que sou, devolvi pelos correios, e desde então a considero a melhor pessoa do mundo por mandar um livro pra uma total desconhecida nos confins do sul. Vi Diana emprestar esse livro pra várias pessoas depois, e entendo por que ela faz isso, ainda mais pra quem é todo empolgadão ao começar a trabalhar com livros. Existem. Livros. Demais. E isso é bem frustrante. 

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A literatura certamente é uma ótima ferramenta para lidar com os conflitos internos e acertos de contas com o passado. Ao ler Coração azedo, de Jenny Zhang (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe), logo liguei seus contos aos romances de Zadie Smith. As duas possuem backgrounds bem diferentes, é claro, mas o que escrevem dialoga muito com os próprios conflitos de identidade, cultura e família.