Zinos vive sozinho em Hamburgo-Altona. Ele tem família, um pai e uma mãe que voltaram para a Grécia assim que ele completou 18 anos de idade, e um irmão mais velho, Illias, que entra e sai da prisão. A existência de Zinos é bem melancólica: deixado sozinho na Alemanha e sem a presença do irmão que admira, o garoto se vê obrigado a conseguir emprego para poder se manter no apartamento pequeno que ganhou dos pais. Consegue um trabalho na cozinha de um restaurante italiano. E ali decide que cozinhar será a sua meta na vida, sonhando com a propriedade de um restaurante.

Com uma narração realizada em terceira pessoa, A cozinha da alma, de Jasmin Ramadan, propõe um mergulho ao íntimo do protagonista enquanto persegue o seu sonho e tenta descobrir seu lugar no mundo. Ele não é um jovem desajustado e preguiçoso, apresenta muitas vezes grande determinação, mas acaba se deixando levar pelo desejo durante breves momentos que comprometem todos os seus planos. Como quando foi demitido de seu primeiro emprego por se envolver com uma colega de trabalho e chegar atrasado à sua iniciação de “chef de cozinha”, ou se envolver com uma antiga amiga da ilha grega de onde veio sua família. Ele não é idiota, apenas ingênuo em algumas questões, principalmente quando elas envolvem mulheres.

Histórias para quem gosta de contar histórias é um livro que deixa dúvidas: é escrito para o leitor ou para o próprio autor? Ele, Cássio Pantaleoni, diz na contracapa que é inegável o fato de que gostamos de ouvir e contar histórias – uma justificativa simples para o porquê de ele escrever. Nessa apresentação, aliás, o autor justifica a própria escrita: ilustrar acontecimentos mundanos deixando-os mais “coloridos”, trazer histórias sobre prazer, angústia e outros aspectos cotidianos revividos através do seu estilo. Assim, é de se pensar que o livro foi feito para ele mesmo, para aproveitar em uma edição bem acabada (da editora 8Inverso) as histórias que primeiro figuraram em folhas soltas de papel – ou num documento do Word.

Mas o leitor não é esquecido por Pantaleoni. Os 20 contos que preenchem cerca de 100 páginas são bons entretenimentos – como o próprio autor sentencia, dizendo que pelo menos isso pode ser tirado do texto –, mas melhores aproveitados se lidos em doses homeopáticas. No livro a história fica, na verdade, em um segundo plano. O que salta aos olhos é o estilo de Pantaleoni: uma narração musicalizada, com palavras cuidadosamente escolhidas e frases rimadas, perfeitas para se ler em voz alta apreciando o seu som. Isso fica acima dos enredos, tramas simples que exploram a sexualidade – como em “Despantalhamundo”, “Casa de Menina” e “Vai, Fontinha!” –, acontecimentos cômicos e momentos melancólicos – a angústia de um casamento sem sentimentos em “Para não passar em branco”, um enterro visto pelos olhos de um menino em “O Abismo”, uma vida dupla em “Substituição”.

Fiódor Dostoiévski é nome conhecido entre qualquer um que goste de literatura, incluindo aqueles que nem o leram ainda. Ele é exaltado pelos clássicos Irmãos Karamazov, Crime e Castigo e outras obras que se aprofundam na mente de suas personagens atormentadas. Pela qualidade literária, foi um dos principais escritores russos do século XIX, e assim segue sendo aclamado. Da mesma forma que sua obra foi intensamente estudada, sua vida também foi esmiuçada pelos biógrafos, dentre os principais a sua segunda esposa, Anna Grigorevna. Os que se interessam pela vida e, consequentemente, pela obra do autor, podem ter também contato com seu cotidiano através de suas cartas em Dostoiévski: Correspondências 1838 – 1880, cuja segunda edição da tradução brasileira saiu pela editora 8Inverso.

Traduzidas por Robertson Frizero, a edição é baseada na tradução para o inglês que Ethel Colburn Mayne fez das cartas, mas inclui outras que ficaram de fora dessa seleção feita por Tchechichin em 1912. Destinadas para amigos, familiares, escritores, críticos e até para Aleksandr II, Dostoiévski expõe seu processo de escrita, seus problemas financeiros e opiniões sobre a política e literatura de sua época. Apesar desse conteúdo bem reunido, o leitor sentirá falta de alguns trechos que foram omitidos na versão original por “não interessarem ao leitor”, segundo diz Frizero no prefácio do livro. A maior parte das cartas possui esses cortes que são explicados em notas de rodapé, constantes na edição para esclarecer o leitor sobre escritores, acontecimentos e lugares citados por Dostoiévski. Muitos desses cortes se tratam de questionamentos do autor sobre amigos em comum com seu destinatário, ou então discussões sobre projetos de traduções e publicações de revistas e jornais. Ao ler essas notas, o leitor sente que perdeu parte do texto, pois lhe interessaria sim ter acesso a essas outras informações.

Em 1912, um livro intitulado Autobriografia de um Ex-Negro foi publicado nos Estados Unidos. Sem identificação de autoria e com um narrador sem nome, o livro foi tomado como um relato real das condições raciais nos EUA no final do século XIX e começo do XX. Em 1927, o livro ganhou uma segunda edição, dessa vez com autoria creditada à James Weldon Johnson, um dos principais nomes pela luta dos direitos dos negros no país. Em 2010, Autobriografia de um Ex-Negro ganhou sua primeira tradução para a língua portuguesa por Robertson Frizero, publicada pela editora 8Inverso. Considerado um clássico da literatura afro-americana, a falsa autobiografia revelou à sociedade como a questão racial era vista e discutida entre brancos e negros depois da Guerra Civil.

O protagonista/narrador inicia sua história pela infância. De pele clara, ele foi confrontado com sua origem ao ser classificado como negro por sua professora da escola. Filho de mãe negra e pai branco, o garoto inteligente e talentoso que adorava piano abraçou a cultura e comunidade negra e sentiu diretamente o tratamento diferenciado que os negros recebiam. Mas na verdade, ele mesmo passou a se ver e se tratar de modo diferente. A questão sobre igualdade de direitos para os negros virou um assunto de extremo interesse, avaliando as diferentes nuances com que o negro vê o homem branco e vice-versa.