Tensão política, uma tempestade de neve e um ataque cibernético: uma das maiores cidades do mundo, Nova York, é derrubada e seus moradores se encontram em desespero. A comunicação começa a falhar, comida e mantimentos não chegam mais à cidade, e ainda há o boato de que muitas pessoas estão morrendo de gripe aviária, o que não pode ser confirmado nem desmentido. Às vésperas de um ano novo de frio rigoroso, todos estão presos na cidade e sem contato com o mundo, sem luz elétrica e sem água. Em Cyberstorm (tradução de Carolina Caires Coelho), Matthew Mather cria um cenário apocalíptico com esses ingredientes, e mostra como a paranoia e a falta de informação pode complicar ainda mais a sobrevivência quando o mecanismo de uma cidade começa a falhar.

De todas as alergias que existem no mundo, certamente a mais estranha que tive conhecimento até agora foi a aversão à marcas registradas. Quando li a sinopse de Reconhecimento de padrões, de William Gibson, imaginei algo ideológico. Pensei que Cayce Pollard, sua protagonista, tivesse algum tipo de pensamento contra o marketing em geral, a cultura das marcas e sua exposição excessiva. Mas não: a aversão que ela tem é realmente física. Iniciada quando criança, ao ver aquele bonequinho dos pneus Michelin, e daí para frente se repetindo com qualquer marca famosa reconhecível em todo o mundo: ânsia de vômito causado por bolsas Louis Vuitton, dores de cabeça espontâneas ao ver uma placa do McDonald’s. Coisas desse tipo.

Cayce sofre com essa aversão por ter uma sensibilidade aguçada para logotipos. Por ter esse dom – ou fardo, dependendo do ponto de vista – ela é capaz de dizer rapidamente se uma nova marca ou tendência fará sucesso no mercado ou não. Usando a sensibilidade a seu favor, ela atua como uma espécie de consultora, contratada por grandes agências do mundo todo para avaliar suas ideias e campanhas e indicar o que será ou não desejado nos próximos meses – uma coolhunter. Contudo, o último trabalho para o qual foi contratada se mostrou um desafio maior do que ela poderia imaginar. Por trás da avaliação de um novo logotipo para uma marca de tênis esportivos havia uma disputa de cargos na qual ela não queria se envolver, o autor misterioso de um filme cultuado pela cena artística alternativa e um novo pedido de cooperação com o dono da agência Blue Ant, que ela considera ser a pessoa mais repugnante do planeta.

Desde o início, quando o homem-macaco ainda estava enfrentando tempos de escassez e fome, o que proporcionou sua sobrevivência foram as armas. Com uma pedra pontuda e afiada na mão, ele descobriu que podia matar animais para comer, o que lhe daria mais alimento e não o faria depender apenas das plantas e frutas providas pela natureza. Com as armas, pôde afugentar seus inimigos e predadores. E conforme as armas foram evoluindo, o homem-macaco também passou por mudanças, adquirindo novas habilidades, ficando mais frágil fisicamente, porém mais inteligente – se tornou homo sapiens A curiosidade sobre o lugar em que vive e sobre o que o homem é levantou perguntas complexas, como, por exemplo, se a Terra é o único planeta com vida inteligente no Universo. Em 2001: Uma odisseia no espaço livro escrito por Arthur C. Clarke simultaneamente com o roteiro do filme de Stanley Kubrick – existe inteligência além da nossa. E foram os alienígenas os responsáveis pelo despertar da mente humana.

A visita de um artefato alienígena à Terra dá início à história de um dos maiores clássicos da ficção científica. Após narrar detalhadamente a vida de uma tribo do ancestral do homem na África, Clarke dá um gigante salto no tempo, partindo para os anos 1990, onde Dr. Floyd está viajando à Lua para resolver uma questão confidencial do governo norte-americano. Algo aconteceu na base lunar, e ele é o responsável por descobrir o quê. Ele e sua equipe de cientistas se deparam com um monolito, um artefato escuro, como se feito de puro material preto, com dimensões precisas e, segundo seus cálculos, enterrado nas rochas da Lua muito tempo antes de existir vida humana como a conhecemos. Aquilo não poderia, de forma alguma, ter sido construído pelo homem, e não estava lá no satélite da Terra desde sempre. O monolito foi deliberadamente escondido. Ou seja, houve vida inteligente no Universo além da Terra. A dúvida é: aqueles que deixaram o monolito na Lua ainda existiam?

O que é ser humano, e como temos a certeza de sermos humanos? Essa questão deve estar presente em um grande clássico da literatura, pode ter atormentado milhares de grandes escritores que tentam, em suas obras, responder e dissecar essa pergunta. O que é o homem? O que nos torna humano? A confusão que essa interrogação carrega é grande, e as possibilidades de respostas acabam gerando ainda mais perguntas, como o leitor de Realidades adaptadas vai perceber.

A realidade e a humanidade são dois temas amplamente explorados por Philip K. Dick, um dos principais autores de ficção científica dos EUA (nascido em 1928 e morto em 1982, aos 53 anos de idade). Sua obra passou a ser bem mais conhecida após serem adaptadas para o cinema. São dele os contos que viraram filmes como O vingador do futuro, Minority Report – A nova lei, O pagamento, Screamers, etc. Realidades adaptadas, publicado pela editora Aleph, reúne sete dos contos que deram origem a ficções científicas que engordaram as bilheterias de Hollywood como forma de iniciar o leitor pouco familiar ao autor em suas obras. E todas essas histórias têm as questões do início desse texto em comum.