Conversas entre amigos (tradução de Débora Landsberg) é o romance de estreia de Sally Rooney, uma irlandesa de 26 anos que chamou atenção com sua história sobre os relacionamentos contemporâneos. Frances, de 20 anos, é uma estudante e poeta que se apresenta no círculo intelectual de Dublin com sua melhor amiga e ex-namorada, Bobbi. A atuação das duas no palco chama a atenção de uma jornalista de renome, Melissa, que está fazendo um perfil das jovens novatas da cena cult da cidade. As entrevistas que conduz com as garotas levam a uma aproximação com a vida íntima da própria jornalista, casada com Nick, um ator de cinema relativamente famoso, mais pela beleza do que pela capacidade de atuação.

Estou sentindo cheiro de ceia de Natal, de amigo secreto da família, de tios bêbados e de melancolia de fim de ano. Significa que é hora da: LISTA DE MELHORES LEITURAS DO ANO!

O ano ainda não acabou, eu sei, mas posso declarar que já tenho a lista de livros mais legais de 2017 – se bem que achei o mesmo no ano passado e tive que adicionar um livro extra depois de ter postado a lista. Mas como o ritmo de leitura anda lendo e tudo o mais, acho que já posso encerrar o expediente de 2017 (que foi bem preguiçoso, desculpa).

Existem mais filmes sobre cachorros, mas no mundo animal, acho que dá para dizer que os gatos são quem dominam a literatura. Ou, pelo menos, que a literatura ajudou a formar a imagem que temos dos gatos. Reflexões do gato Murr, Eu sou um gato, até O mestre e Margarida, para deixar essa lista mais gorda, apresentam felinos que vão além da fofura aparente – muito pelo contrário. Arrogantes, superiores, críticos, desconfiados, orgulhosos, traiçoeiros: esses adjetivos fazem uma imagem não muito lisonjeira dos gatos, mas é disso que a gente gosta. Só que os gatos vão muito além disso, quem tem sabe muito bem disso.

Uma fábrica de sucos do México convidou a autora Valeria Luiselli para escrever sobre a organização do catálogo de uma galeria. Essa fábrica patrocina e mantém uma das maiores coleções de arte do país, e o convite fazia parte de mais uma obra artística. Valeria aceitou a encomenda, porém não queria escrever sobre esse tema específico. Ela se interessou mais pelos operários da fábrica. E assim começou a escrever capítulos curtos que, semanalmente, eram enviados de Nova York, onde vive, para o México. O texto era impresso em pequenos caderninhos e distribuídos entre os operários que liam e, uma vez por semana, se reuniam para discutir o texto. Os encontros eram gravados e os comentários eram, então, enviados de volta para Valeria nos EUA. Ela fazia alterações conforme as sugestões ou críticas dos funcionários da fábrica de sucos. Assim nasceu A história dos meus dentes (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Siem Sigerius é o respeitado reitor de uma universidade holandesa localizada em Enschede. Casado com Tineke, que faz móveis em sua casa de fazenda, ajudou a criar as duas enteadas, Joni e Janis. Joni, a mais velha, namora Aaron, fotógrafo que admira a figura de Sigerius e de quem acaba se aproximando muito por conta do jazz e de seus treinos de judô – esporte que Siem dominava na juventude e quase o fez participar das Olimpíadas, mas que abandonou após um acidente. Acamado, o tédio o levou à matemática, momento em que descobriu ser um gênio com os números. Mas no começo de Bonita Avenue, romance de Peter Buwalda (tradução de Cassio de Arantes Leite), essa composição familiar não existe mais. Através dos pontos de vista de Siem, Joni e Aaron, o autor vai revelando os acontecimentos que causaram o afastamento dessas pessoas – e a morte do reitor.

noites-de-alfaceO primeiro parágrafo já tinha me pegado de jeito logo na primeira leitura, lá quandoNoites de alface era só um capítulo solto dentro da Granta dos 20 melhores jovens escritores brasileiros. Não sou de colecionar “inícios marcantes” de romances, novelas ou contos, mas acho que vou começar a fazer isso agora:

 

 

 

 

 

Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.

Em um parágrafo de poucas linhas, Vanessa Barbara passa ao leitor toda a dimensão emocional da história: Ada morre inesperadamente, e deixa uma falta enorme em sua casa. Falta que irá permear todo o romance. No parágrafo seguinte, sabemos quem é que realmente vai sofrer com essa perda: Otto, o homem com quem é casada desde 1958 e que nunca saiu do lado dela por mais de 50 anos. Ada era a única pessoa com quem Otto se importava e falava. Na pequena cidade do interior, na casinha amarela prensada entre outras casas que ocupam o morro em que está localizada, é apenas com ela que ele interage. Não possuem filhos ou parentes próximos, e Otto só nutre amizade com uma pessoa, o Sr. Tanaguchi, um ex-soldado japonês da Segunda Guerra que agora sofre de Alzheimer (e que, por conta disso, Otto não visita mais).

o-encantadorEncantar é seduzir, cativar. Ou também, numa visão mais lúdica, pode ser lançar uma magia, enfeitiçar. Seja lá qual for a definição que você dê a essa palavra, nas duas poderíamos enquadrar o escritor Vladimir Nabokov. É isso o que a autora franco-iraniana Lila Azam Zanganeh tenta nos convencer durante todo o seu livro de estreia no Brasil, O encantador. E ela não só nos convence de que Nabokov, autor de livros controversos como Lolita e Ada ou ardor, foi um homem extremamente feliz e abordou isso com maestria em todos os seus livros, como também lança um feitiço sobre o leitor deixando-o hipnotizado pela sua relação com a obra que admira. Lila é tão encantadora quanto Nabokov.

O meu interesse pela escritora começou com a sua vinda para a Flip de 2013. Nunca havia prestado atenção a esse nome, mas na casa em que estava hospedada em Paraty, durante a primeira noite da festa, acabei pegando sem querer uma entrevista dela no Programa do Jô. Foi encantamento instantâneo. Primeiro, por ela ser incrivelmente simpática e por falar apaixonadamente sobre o seu “escritor-obsessão”. E segundo, por se esforçar para falar um português claro, preocupada com os erros de pronúncia, língua que aprendeu especialmente para participar da Flip – em um ano de conversas diárias com um brasileiro via Skype. Sei que não se deve misturar o autor com a obra ao analisar um livro, mas me surpreendi com a humildade e inteligência de Lila – pelo menos humildade não é o que eu espero de uma pessoa que dê aulas desde os 23 anos de idade em Harvard e fala mais de seis idiomas. Minha experiência com acadêmicos geralmente os relaciona com pedantismo. E também é difícil separar autor e obra ao ler um livro que faz justamente isso: mistura a ficção e a realidade da vida de Nabokov e dela mesma.

Quando tinha 16 anos, comecei a sentir dificuldades para dormir. Preferia passar as noites aproveitando a conexão gratuita da internet discada, conversando com pessoas distantes para passar o tempo, até o momento em que minha mãe, pela terceira vez, com certa indignação na voz, me pedia para desligar de vez o computador e ir dormir porque “você tem aula amanhã cedo, e já passou da hora”. Essa pseudo-insônia durou por mais uns três anos, principalmente no primeiro semestre em que estive dividindo um apartamento com mais duas meninas aqui em São Leopoldo. Sem ter pai ou mãe por perto, e calculando cada movimento para não acordar as gurias, pude passar minhas noites acordada, na internet. Depois que toda a rede mundial de computadores se recolhia para a cama, podia passar o resto da madrugada lendo e vendo vídeo clipes indies na MTV.

Capa Rostos na multidao.inddResenha originalmente publicada no site Amálgama.

Não sei se existe alguma regra que define a partir de que ponto você tem certeza que um livro é bom. Ou quantos livros de um determinado autor você precisa ler até ter certeza de que ele realmente é bom. Como quase tudo na literatura, essas relações de gosto são bem relativas. Um parágrafo pode ser o bastante para alguém se apaixonar por uma história, enquanto outros sempre ficarão à procura das qualidades que fazem aquele escritor ser adorado por tantos. Isso tudo só para dizer que para mim as coisas também funcionam de um jeito bem diferente dependendo do livro. O ideal é o básico: ler tudo, e na última página decidir se é bom ou não. Mas às vezes ignoro essa minha própria regra, e já determino bem antes disso o que pensei sobre o livro.

Com Valeria Luiselli, posso dizer que lá pela página 20 do seu romance eu estava totalmente encantada com a sua narradora. Valeria nasceu na Cidade do México, vive entre o México e Nova York, onde faz mestrado na Universidade de Columbia. Antes de Rostos na multidão, havia publicado apenas um livro de ensaios em 2010. Assim como a autora, a protagonista e narradora do romance é uma mexicana que se divide entre a capital do país e a Big Apple. O elemento curioso do livro está presente logo no começo, que deixa claro que toda a história é fragmentada, montada com pequenos parágrafos que alternam-se em tempo e espaço, um agrupamento de retalhos literários que dão conta da história da mulher. “Os romances são de longo fôlego. Assim querem os romancistas. Ninguém sabe exatamente o que significa, mas todos dizem: longo fôlego. Eu tenho uma bebê e um menino médio. Não me deixam respirar. Tudo o que escrevo é – tem que ser – de curto fôlego. Pouco ar.”

Nas últimas semanas, o suicídio tem virado um tema de reportagens e discussões pela mídia. Isso no jornalismo brasileiro, que raramente relata casos em que pessoas tiram a própria vida – uma questão ética da profissão que até hoje ainda não conseguem explicar direito. Houve dois casos recentes que chamaram bastante atenção: o da menina indiana de 17 anos, levada pela polícia a não denunciar o estupro coletivo que sofreu e decidiu se matar; e a de uma jovem estagiária de advocacia paulista, estuprada pelos colegas do trabalho numa festa de fim de ano que se jogou do prédio em que morava. Ambos os casos tem por trás do suicídio um trauma físico e mental enorme, uma violação do corpo e a impunidade dos agressores. Coincidentemente, enquanto esses casos vinham à tona na mídia brasileira, estava lendo Norwegian Wood, livro publicado pelo japonês Haruki Murakami em 1987, em que o suicídio tem uma natureza levemente diferente da que impulsionou essas tragédias reais.