Um escritor que vai para Dublin passar um tempo para escrever um livro ambientado na cidade provavelmente vai falar de James Joyce em algum momento da narrativa, certo? Errado. Nem usar o estilo Ulysses de ser? Talvez. Mas a referência pode não ser assim tão clara, e aí você passa um livro inteiro sobre Dublin sem nem pensar em Orlando Bloom, Molly, Joyce e companhia. Melhor fugir do clichê. Quem esperaria um pouquinho da grande obra joyceana em Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari, pode se decepcionar um pouco, mas apenas nesse aspecto. Só porque se passa em Dublin e as personagens não sabem muito bem o que fazer com a vida e as coisas simplesmente “acontecem” com elas, não quer dizer que Joyce deveria estar ali aparecendo nas entrelinhas de cada página – na verdade ele aparece, quando o protagonista fala de “turistas pretensiosos”. Esse parágrafo só está aqui para dizer que não pensei em Joyce em momento algum da leitura, e isso foi bom.

Depois de passar por Tokyo, Cairo, Lisboa, Buenos Aires e outros lugares mais, a série Amores Expressos desembarca em Havana, Cuba. O amor dessa vez é retratado por Chico Mattoso no livro Nunca vai embora, e diferentemente do que se pode pensar sobre uma história de amor, não há carinhos e beijinhos que a sustente. Amor, nesse caso, é só um sentimento que inicialmente liga duas pessoas muito diferentes e é pano de fundo para outros conflitos que surgem entre elas, até atingir ares de obsessão.

Na rotina frenética de Tokyo, um submarino percorre os subterrâneos da cidade em busca de imagens de um jovem executivo. Ele está ao lado de uma loira alta de olhos azuis, facilmente reconhecível por ser ocidental. O submarino filma, grava e envia imagens para a Sala do Periscópio, onde um velho poeta vê as relações de seu filho, acompanhado sempre de sua boneca de última geração nomeada Yoshiko. O jovem, chamado Shunsuke, dispensa novas mulheres e toda a sua vida para estar perto de Iulana Romiszowska, a polonesa-romena que trabalha como garçonete em um “inferninho” da capital japonesa.