Existe um momento na vida em que você começa a questionar as escolhas que fez e a qualidade daquilo que viveu. É a hora em que se coloca em uma balança tudo aquilo que você tem e conseguiu e contrasta com o que deixou de fazer, avaliando se sua vida está realmente satisfatória ou se algo ainda falta – e se essa falta pode ser suprida. Peter Harris, um homem de 43 anos, passa por esse momento, uma crise existencial que estoura ao receber em casa seu cunhado, um jovem perturbado, metido em drogas, que não se fixa em nenhum lugar ou atividade e é extremamente belo. Essa beleza traz a insatisfação de Peter, e a sua contemplação e o que ela desperta é o que move Ao anoitecer, sexto romance do norte-americano Michael Cunningham, publicado pela Companhia das Letras.

Peter Harris é um homem bem sucedido: dono de uma galeria de arte em Nova York, representa bons artistas – não os melhores – tem um casamento estável com Rebecca, editora de uma revista de arte, e uma filha entrando na fase adulta com quem mantém um relacionamento distante. Peter vive dias tranquilos, porém demonstra sinais de cansaço com a rotina profissional e familiar. Quando o irmão de Rebecca decide morar uns tempos com eles, esses sinais se confirmam. Mizzy (The Mistake, ou Ethan) está na casa dos 20 anos e, para todos de sua família super protetora, largou o vício das drogas e está à procura de uma carreira. Ele quer “fazer algo com as artes”, mas assim como é disperso no mundo, não sabe definir o que realmente quer da sua vida. A sua presença forte, sedutora e livre exerce em Peter algo que vai além da admiração da beleza do jovem: para o marchand, Mizzy é uma verdadeira obra de arte, aquilo que ele por anos procurou em seus artistas e que nunca encontrou.