Estou sentindo cheiro de ceia de Natal, de amigo secreto da família, de tios bêbados e de melancolia de fim de ano. Significa que é hora da: LISTA DE MELHORES LEITURAS DO ANO!

O ano ainda não acabou, eu sei, mas posso declarar que já tenho a lista de livros mais legais de 2017 – se bem que achei o mesmo no ano passado e tive que adicionar um livro extra depois de ter postado a lista. Mas como o ritmo de leitura anda lendo e tudo o mais, acho que já posso encerrar o expediente de 2017 (que foi bem preguiçoso, desculpa).

Não teve um autor neste ano que quis tanto ler quanto Elena Ferrante. Os livros da tetralogia napolitana são aquela leitura que eu apenas precisava fazer o mais rápido possível, assim como os outros livros da autora italiana que foram chegando ao Brasil durante 2016. E, felizmente, eles nunca são uma decepção. O terceiro livro da série, História de quem foge e de quem fica (tradução de Maurício Santana Dias), mantém a qualidade dos outros volumes – e o dramalhão, claro. A violência do bairro que Lenu narra no primeiro livro, A amiga genial, ainda existe, agora intensificada pelas lutas da classe operária por melhores condições de trabalho, um embate entre esquerdistas e fascistas e também entre os intelectuais e os trabalhadores. Assim como continua a conturbada relação da narradora com sua melhor amiga, Lila, uma mulher de grande inteligência e sentimentos sempre à flor da pele, que não sabemos ao certo que tipo de amizade nutre por Lenu. E a vida das duas segue se cruzando.

Olga é abandonada por Mario após quinze anos de casamento. Eles vivem num apartamento em Turim, na Itália. Ela, escritora, deixou o trabalho de lado para cuidar da casa e dos filhos, Gianni e Ilaria. Depois de um almoço em que tudo aparentava estar tranquilo, Mario lhe comunica calmamente que está indo embora. Olga fica sozinha com as crianças, tentando entender o que aconteceu, tentando não ser consumida pelo rancor do abandono.

Este é o enredo do curto romance de Elena Ferrante, Dias de abandono (tradução de Francesca Cricelli). A autora da série Napolitana mantém neste livro a mesma intensidade narrativa que encontramos em A amiga genial e História do novo sobrenome. Quem nos conta todo o drama da separação é a própria Olga, que aproxima o leitor de seus sentimentos e medos.

Nova Zelândia, 27 de janeiro de 1866. Walter Moody acaba de chegar a Hokitika debaixo de uma tempestade, para no primeiro hotel que encontra e vai para a sala de fumantes depois de deixar seu quarto procurando por uma boa bebida. Escolhe uma cadeira e percebe que há um clima estranho no lugar: há mais doze homens com ele, cada um fazendo alguma coisa, mas todos com uma cara de desconfiança. Um deles, Thomas Balfour, decide puxar conversa e saber do motivo dele estar ali: quem é o jovem bem apessoado, o que faz em Hokitika, de onde veio, qual é a sua história. Depois de contar como veio parar na cidade – um conflito com seu pai que o fez querer sumir, adotando outro nome para subir a bordo da Goodspeed e ir atrás de ouro sem que ninguém saiba de seu paradeiro -, ele pergunta também o motivo de Balfour e todos os outros estarem ali.

Quando terminei a resenha de A amiga genial no ano passado, falei que a curiosidade de ler a série Napolitana de Elena Ferrante vinha desse mistério sobre a autora: dá poucas entrevistas e nenhuma pista sobre sua real identidade. Mas além disso, também falei que, fora essa curiosidade, o romance se sustenta sozinho, justamente o objetivo de Elena ao querer manter a sua identidade desconhecida. Se eu pensava que essa era uma estratégia muito bem-feita de chamar a atenção do mercado editorial e de ser lida, não penso mais o mesmo depois de ler o segundo livro, História do novo sobrenome. Não importa mesmo quem ela é, porque enquanto lia nem pensava nesse mistério. A qualidade de A amiga genial e a maneira que o livro terminou fizeram minhas expectativas crescerem muito com a série, e o segundo livro alcançou todas elas.

a_amiga_genial_capaEu lembro de, na escola, ter umas coleguinhas em que me espelhava para tentar ser como elas. Bonitas, bem vestidas, inteligentes, geralmente elas vinham de famílias que tinham mais dinheiro que a minha. Era uma mistura de inveja com admiração, creio eu. Não é que eu odiava elas daquele jeito tipo “se eu não tenho isso, elas também não podem ter”. Eu queria estar próxima delas, por mais que visse que algumas não gostavam das mesmas coisas que eu e até eram meio “malvadas” – faziam fofoquinhas, zombavam dos outros alunos, essas coisas. Eu não era esse tipo de gente, mas achava importante estar perto para ter um tipo de aprovação delas, para que elas vissem que eu era tão boa como elas. Acho que por isso achei tão fácil me identificar com Lenu Greco, a narradora e protagonista de A amiga genial, de Elena Ferrante (tradução de Maurício Santana Dias).

Lenu – apelido para Elena – tem essa relação com Lila – Rafaella Cerullo –, com quem desde criança firmou uma amizade marcada justamente por essas características: o desejo de ser como ela, a competição velada entre as duas para ver quem estava mais à frente, seja nos estudos ou na vida social, a necessidade de aprovação uma da outra. Mas, acima de tudo isso, a admiração, principalmente da parte de Lenu, que é quem nos conta essa história toda.

leis_fronteira_CAPA.pdfO verão de 1978 foi atípico para Ignacio Cañas, um jovem catalão da classe média, na cidade de Girona. De um adolescente com uma rotina normal, com amigos da escola e uma família tradicional, ele terminou o ano letivo sendo perseguido por um colega valentão, amedrontado pelos ataques e insultos de seus antigos amigos e travando discussões com o pai. Com 16 anos, a escola não era mais um lugar suportável, sair na rua não era mais divertido, pois a qualquer momento ele poderia topar com seu algoz, e sua casa se tornou um lugar insuportável de ficar. Até que um dia, em um dos fliperamas da cidade, conheceu Zarco e Tere. Jovens que nem ele, praticamente seus vizinhos, mas vindos de um outro lugar, separados de Cañas por um abismo enorme criado pela desigualdade.

Zarco e Tere eram quinquis, gíria catalã para “delinquentes juvenis”, moradores da parte mais pobre da cidade. Nesse dia, no fliperama, convidam Cañas para se juntar a eles em um bar no bairro chinês, conhecido na época por abrigar os traficantes, bandidos e prostitutas de Girona. Qualquer garoto teria declinado o convite e saído correndo amedrontado ao ser “recrutado” para sair com pessoas como Zarco e Tere, mas não Ignacio. Ele já não tinha muito a perder, e o interesse por Tere o convenceu a aparecer no bar depois de alguns dias. E aí a última peça da gangue juvenil mais famosa da Espanha se integra ao grupo, e a história de As leis da fronteira começa.

downloadEm 2013, aos 82 anos de idade, a canadense Alice Munro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. A autora já tinha alguns livros traduzidos aqui no Brasil, mas, como é regra para mim, geralmente não conheço escritores recém-agraciados com o prêmio da academia sueca, e o Nobel acaba sendo o ponto de partida para lê-los. Felizmente, assim que anunciado, editoras apresentaram novas edições e traduções engatilhadas – como a de seu último livro publicado, Vida querida. Outra delas foi Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, publicado no final do ano passado pelo selo Biblioteca Azul da Globo Livros.

O volume traz nove contos que narram vidas de personagens bem distintas: jovens, idosos, crianças, todas as histórias girando em torno de reencontros, do companheirismo, do amor e de algumas traições. O primeiro conto, que dá nome ao livro, faz referência a uma brincadeira adolescente de duas das personagens, que inventam cálculos matemáticos com os nomes de suas paqueras e, contando em ordem, preveem se suas relações vão terminar em ódio, amizade, namoro, amor ou casamento. Neste primeiro conto Alice Munro joga com a percepção do leitor, fazendo a história mudar de rumo a toda hora.

fera-dalmaMarca presente em qualquer governo totalitário e ditatorial, a censura e a perseguição a grupos que pensam o contrário do governante são constantes. No Brasil comandado pelos militares, milhares de pessoas foram perseguidas, presas, torturadas e mortas só por pensarem ou apoiarem a luta por uma democracia verdadeira – muitos casos vindo à tona ou apenas tendo confirmação só agora. Para quem nasceu depois desse período, já com liberdades de expressão garantida, chega a ser difícil imaginar que houve um tempo em que ser contrário a algo poderia significar a morte. Mas a literatura sobre esse tema é vasta, e nos faz conhecer os horrores de viver sob o peso da censura.

Infelizmente, não foi só o Brasil que viveu sua ditadura. Tais regimes fazem parte da história política de muitos países, e alguns ainda vivem sob eles. Para a ganhadora do Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller, romena de origem alemã, falar sobre esse tema é parte central de sua obra. Filha de um ex-soldado da SS nazista na Segunda Guerra Mundial, Herta nasceu na Romênia, para onde muitos alemães foram enviados após o fim da guerra. Esquecidos no país, essa minoria composta por milhares de alemães viveram sob o regime comunista de Nicolae Ceausescu, que durou de 1965 a 1989. A violência desse período fez parte da vida de Herta, que no romance Fera d’alma usa parte de sua história real para contar o drama de jovens perseguidos pela Securitate, a polícia romena a serviço de Ceausescu.