Às vezes personagens extraordinários se perdem na história. Muita gente já passou por esse mundo, poucas foram responsáveis por feitos notáveis, mas mesmo assim é um número considerável de gente que merece ser lembrada pelo que viveu, pelas dificuldades que enfrentou. Pena que esquecemos fácil. Nossa memória é incrível, mas não é das melhores. Seja por silenciamento premeditado ou pela passagem do tempo, nós esquecemos.

“O mais belo livro publicado em nossa terra durante a minha vida. Faz pensar em Homero”. Essa não foi uma frase de um crítico literário ou um escritor elogiando seu par. Está dentro de Ulysses, falando sobre o próprio livro, uma bela brincadeirinha de seu autor, ou assim me pareceu. Começar a ler o “clássico dos clássicos” vem acompanhado de certo nervosismo. Ulysses foi o livro do século XX, o grande romance, a obra que “tem-que-ser-lida-ou-você-não-conhece-literatura-de-verdade”, e que você “tem-que-entender-ou-é-um-analfabeto-funcional” – ou então que “é-difícil-pra-caramba-só-finge-que-entendeu-e-fala-que-leu-para-não-pegar-mal”. Não deve ser o livro com a melhor fama entre os leitores, mas é o mais admirado – algo meio tirânico de se pensar. Quando saiu a notícia de que uma nova tradução da obra-prima de James Joyce seria lançada no Brasil, o contrário tomou conta dos discursos na internet. Ulysses não é difícil, disseram. É só se deixar levar e aceitar o que o labiríntico dia 16 de junho de 1904 tem a oferecer. Foi com isso que decidi enfrentar o catatau de James Joyce, sem medo e sem me preocupar com o que ganharia com essa leitura.