De todas as alergias que existem no mundo, certamente a mais estranha que tive conhecimento até agora foi a aversão à marcas registradas. Quando li a sinopse de Reconhecimento de padrões, de William Gibson, imaginei algo ideológico. Pensei que Cayce Pollard, sua protagonista, tivesse algum tipo de pensamento contra o marketing em geral, a cultura das marcas e sua exposição excessiva. Mas não: a aversão que ela tem é realmente física. Iniciada quando criança, ao ver aquele bonequinho dos pneus Michelin, e daí para frente se repetindo com qualquer marca famosa reconhecível em todo o mundo: ânsia de vômito causado por bolsas Louis Vuitton, dores de cabeça espontâneas ao ver uma placa do McDonald’s. Coisas desse tipo.

Cayce sofre com essa aversão por ter uma sensibilidade aguçada para logotipos. Por ter esse dom – ou fardo, dependendo do ponto de vista – ela é capaz de dizer rapidamente se uma nova marca ou tendência fará sucesso no mercado ou não. Usando a sensibilidade a seu favor, ela atua como uma espécie de consultora, contratada por grandes agências do mundo todo para avaliar suas ideias e campanhas e indicar o que será ou não desejado nos próximos meses – uma coolhunter. Contudo, o último trabalho para o qual foi contratada se mostrou um desafio maior do que ela poderia imaginar. Por trás da avaliação de um novo logotipo para uma marca de tênis esportivos havia uma disputa de cargos na qual ela não queria se envolver, o autor misterioso de um filme cultuado pela cena artística alternativa e um novo pedido de cooperação com o dono da agência Blue Ant, que ela considera ser a pessoa mais repugnante do planeta.